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·07 de setembro de 2026
Antes de ser Divino: quando a imprensa duvidou de Ademir da Guia

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Antes de Ademir da Guia se tornar o Divino e comandar as Academias do Palmeiras, uma reportagem de A Gazeta Esportiva Ilustrada questionou se seu estilo funcionaria no futebol paulista. Preservadas no acervo histórico do Portal do Palestra, as páginas 8 e 9 de uma edição sem data visível chamavam o jovem de jogador de primeira categoria, mas tratavam sua classe e sua lentidão como obstáculos.
O recorte ganha força quando lido à distância. A mesma publicação que sugeriu uma volta ao Rio de Janeiro ou uma troca registrou, em outra página conservada no acervo, que Ademir havia vencido as desconfianças e se firmado entre os grandes jogadores do país. É a crítica esportiva capturada antes que a carreira desse sua resposta.
A Gazeta Esportiva Ilustrada, página 8. A data da edição não aparece no recorte preservado no acervo do Portal do Palestra.
Ficha dos documentos
Publicação: A Gazeta Esportiva Ilustrada | Páginas principais: 8 e 9 | Tema: os primeiros anos de Ademir da Guia no Palmeiras | Data: não visível nos recortes | Documento complementar: página 11 de outra edição, também sem data aparente | Acervo: Portal do Palestra.
Ademir chegou ao Palmeiras em 1961, vindo do Bangu e carregando a referência inevitável do pai, Domingos da Guia. A reportagem começa justamente por essa herança. Recorda a trajetória do “Mestre” e apresenta o filho como uma revelação do futebol carioca que ainda precisava provar em São Paulo que a contratação não havia sido em vão.
A biografia de Ademir da Guia no Portal mostra o destino dessa história: o meia se transformaria em um dos maiores símbolos do clube. O interesse do recorte está no instante anterior, quando essa grandeza estava longe de ser consenso.
O texto reconhecia o controle de bola, a precisão do passe e a capacidade de pensar o jogo. Ao mesmo tempo, dizia que o meia demorava a se adaptar a um futebol paulista descrito como mais corrido, físico e marcado pelo combate individual. A crítica aparece condensada no subtítulo “excesso de classe e de lentidão”.
Na página seguinte, a revista sustentava que Ademir poderia render melhor no futebol da Guanabara e sugeria que uma troca talvez fosse conveniente ao clube, ao jogador e à torcida. Hoje, o julgamento chama atenção porque toma características que seriam associadas à elegância e ao controle de ritmo do camisa 10 como sinais de incompatibilidade.
A Gazeta Esportiva Ilustrada, página 9. A publicação sugeria que Ademir poderia render melhor no futebol do Rio. Data da edição não visível.
A ficha histórica de Ademir da Guia permite acompanhar o que o recorte ainda não podia enxergar. Em 1962, o meia disputou 28 partidas e marcou quatro gols. No ano seguinte, foram 38 jogos e seis gols em uma temporada que terminou com o Palmeiras campeão paulista.
A temporada de 1963 registra 64 partidas, 44 vitórias, 13 empates e apenas sete derrotas do Palmeiras. O time marcou 136 gols e conquistou o Campeonato Paulista, campanha que consolidou a Primeira Academia e ofereceu um novo contexto para avaliar o futebol de Ademir.
Outro recorte de A Gazeta Esportiva Ilustrada, na página 11 de uma edição cuja data também não aparece, já traz um tom oposto. A publicação afirma que Ademir havia se firmado e reproduz a avaliação de que ele fora “o maior de 1963”. A mudança não precisa ser tratada como contradição escondida: ela documenta como a percepção pública sobre um jogador pode mudar.
A Gazeta Esportiva Ilustrada, página 11. O recorte posterior registra a mudança de percepção sobre Ademir; a data não está visível.
A história de Ademir é frequentemente contada a partir das taças, dos jogos e da condição de ídolo. Os documentos do acervo acrescentam outro ângulo: mostram que a consagração não estava pronta na chegada. Ela foi construída enquanto jornalistas e torcedores tentavam compreender um jogador que não correspondia ao modelo de velocidade usado para julgá-lo.
As páginas não devem ser usadas para ridicularizar uma análise antiga com o conhecimento do presente. Seu valor está em revelar os critérios daquele debate: ritmo, força, adaptação regional e o peso de um sobrenome famoso. O que parecia lentidão para parte da imprensa se tornaria, na memória palmeirense, a calma de quem via o jogo antes dos outros.
Ao ligar os recortes à galeria histórica, às temporadas e à seleção de ídolos do Palmeiras, o Memorial Alviverde preserva tanto a consagração quanto o caminho até ela. Ademir não nasceu Divino aos olhos de todos. Foi o campo que transformou dúvida em reverência.
Esse percurso passa a integrar também a Enciclopédia Alviverde como uma leitura documental dos primeiros anos do maior camisa 10 da história do clube.


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