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·14 de julho de 2026

Artilheiro e politizado: Mbappé luta por mais uma Copa e por direitos na França

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Quando Kylian Mbappé recebe a bola no ataque, os fãs de futebol se preparam para uma jogada agressiva e uma conclusão brilhante. E quando pega o microfone, ou mesmo vai às redes sociais, a expectativa também é de palavras carregadas de ousadia e engajamento social. Com o passar dos anos, o craque francês se tornou uma voz relevante no país e vai em busca de sua terceira final de Copa do Mundo como um personagem que desperta amor e ódio.

O adversário no campo é a Espanha, nesta terça-feira, às 16h, em Dallas, em uma semifinal que o mundo da bola vai parar para assistir. Já os rivais fora das quatro linhas vão das bets ao partido de extrema-direita da França, contra quem Mbappé vem travando uma batalha ideológica desde 2024.


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Filho de pai camaronês e mãe de ascendência argelina, o atacante se posicionou contra a retórica anti-imigração propagada pela Reunão Nacional (RN), que tem Marine Le Pen e Jordan Bardella como líderes. Por essa razão, se alinhou publicamente ao presidente reeleito Emmanuel Macron, que representa a esquerda progressista. Boa parte da seleção francesa, com origem multicultural, também compartilha da veia ativista e costuma apoiar as opiniões de seu capitão.

Engajado desde a infância

Um vídeo de 2011 que circulou na web comprova que o pequeno Kylian, aos 12 anos, já sabia impor suas opiniões sobre questões delicadas. No trecho, ele diz que “na história, os melhores (jogadores franceses) foram negros e árabes, além de Platini e Cantona”. De fato, a geração que Mbappé cresceu admirando tem nomes de destaque como Zidane (filho de argelinos), Thierry Henry (com ascendência de Guadalupe e Martinica) e Patrick Vieira (nascido no Senegal), entre outros.

Hoje, mais maduro, aposta no discurso de que a escolha consciente dos políticos é essencial para determinar o caminho que a França vai trilhar. Por isso, vem incentivando os jovens a irem às urnas nas próximas eleições, em 2027, quando a extrema direita promete vir forte e Macron não poderá mais concorrer.

“Somos uma geração que pode fazer a diferença. Vemos que os extremos estão batendo à porta do poder e temos a oportunidade de escolher o futuro do nosso país”, disse, à revista Vanity Fair, antes de a bola rolar para a Copa.

Com a moral de quem foi campeão do mundo aos 19 anos, o artilheiro declarou sua rejeição até mesmo contra as bets, que dominam o mercado do futebol com propostas multimilionárias. Assim, jamais aceitou um contrato para divulgar jogos de azar e comprou briga com a Federação Francesa. Afinal, sua imagem foi usada sem autorização em ação de uma casa de aposta que patrocina a seleção.

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Atacante deu dura resposta à senadora Celeste Amarilla após sofrer ofensas racistas – Foto: Sarah Steck/ Présidence de la République

Mbappé para presidente?

Por enquanto, Mbappé tem como único ofício a carreira de jogador de futebol. Mas, se depender de um grupo de pessoas do condado de Tallenay, no leste da França, já pode se candidatar o quanto antes à presidência. Em 2022, dez cidadãos usaram uma foto e o nome do camisa 10 e depositaram seus “votos”.

O caso até voltou a debate recentemente. O jornal Le Parisien citou o perfil de Mbappé para se tornar político e perguntou se ele pensava no assunto.

“Muita gente me diz isso, mas não está nos meus planos. Já sou odiado o suficiente (risos)”, comentou o craque, emendando que pode ser treinador ou apenas tocar seus negócios quando pendurar as chuteiras.

O ódio vem, é claro, dos opositores na sociedade francesa e até de pessoas de outros países. Durante o Mundial, a senadora paraguaia, Celeste Amarilla, fez um post racista após a eliminação de seu país para os Le Bleus, nas oitavas de final. Segundo ela, Mbappé é “bruto”, “não aprendeu a escrever”, que “em invés de leite materno, mamava em cocos” e que “o mais instruído que já ouviu são chimpanzés”. Em outro texto, disse que se trata de um “camaronês colonizado”.

A resposta não demorou. O jogador disse que a senadora é “uma mulher desprezível e indigna do cargo que ocupa”. A Federação Francesa, o presidente Macron, outras figuras políticas, do futebol e até mesmo a ONU declararam repúdio à Celeste Amarilla.

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Deschamps e Mbappé têm uma relação de carinho e admiração na seleção – Foto: Divulgação / FFF

Meme de “ditador”

No dia a dia com os companheiros, a relação nem sempre foi a mais tranquila. Afinal, Mbappé gosta de se envolver nas decisões e ganhou muito poder desde a época de PSG e na própria seleção. Neymar, por exemplo, foi um dos que não terminou bem sua relação com o colega.

Surgiu, então, o termo “ditador”, que nunca passou de uma brincadeira interna a partir das críticas nas redes sociais. O próprio técnico Didier Deschamps é muito próximo do pupilo, defende sua postura no vestiário e apoia seus posicionamentos.

“Pode haver prós e contras (de expor opinião), mas o que me interessa é o Kylian, quem ele é e o jogador de futebol que ele é. Ele também é um cidadão, que tem o direito de se sentir afetado. Isso vai gerar debate, mas ele será criticado de qualquer maneira, quer se manifeste ou não”, disse Deschamps.

Caso a França supere a Espanha, Mbappé pode se igualar a Cafu como os únicos a alcançarem três finais consecutivas em Copas. Na primeira, contra a Croácia, marcou uma vez e foi campeão. Já em 2022, fez sua parte com três gols (dois de pênalti), mas viu a Argentina de Messi levar o caneco no Catar.

Outras declarações políticas de Mbappé:

“Não podemos colocar todas as correntes políticas no mesmo nível. Não quero representar um país que não preze pelos meus valores. Quero me identificar sempre com os valores de diversidade, respeito e tolerância.”

“Eu sei o que significa e que consequências pode ter para o meu país quando esse tipo de gente (extremistas políticos) assume o controle. Então, como cidadãos, temos o direito de expressar nossa opinião como qualquer outra pessoa.”

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