Esporte News Mundo
·02 de setembro de 2026
Atrasos e incertezas colocam em xeque protagonismo do Corinthians no futebol feminino

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·02 de setembro de 2026

O Corinthians construiu, nos últimos anos, uma das trajetórias mais vitoriosas da história do futebol feminino nacional. Heptacampeão brasileiro e hexacampeão da Libertadores, o clube estabeleceu uma hegemonia que começou a ganhar força após a retomada do projeto da modalidade, em 2016, sete anos depois de as atividades terem sido interrompidas, em 2009.
Desde então, a equipe alvinegra passou a ocupar um lugar de destaque no cenário nacional e continental, acumulando conquistas e se tornando uma das principais referências do futebol feminino no país. O protagonismo esportivo, entretanto, contrasta com o cenário vivido atualmente fora das quatro linhas.
Mesmo mantendo competitividade e permanecendo na disputa pelos principais troféus da temporada, o Corinthians atravessa um período de dificuldades financeiras e institucionais. Os problemas administrativos passaram a atingir diretamente o elenco, gerando cobranças por parte das atletas e levantando questionamentos sobre a capacidade do clube de sustentar a estrutura que ajudou a transformá-lo em potência na modalidade.
JOGADORAS COBRAM REGULARIZAÇÃO DOS PAGAMENTOS
A situação ganhou maior repercussão quando integrantes do elenco compareceram ao Parque São Jorge para cobrar a regularização de valores pendentes. As jogadoras tiveram uma reunião com o presidente Osmar Stabile e também solicitaram uma participação mais próxima do dirigente no cotidiano da equipe feminina.
Em entrevista recente à ESPN, Stabile reconheceu a cobrança feita pelas atletas e afirmou que mantém contato frequente com a área responsável pelo futebol feminino.
“Elas me cobraram, que preciso ir lá mais vezes. Mas eu vou, eu acompanho, todos os dias eu falo com a executiva do futebol feminino”, disse o dirigente em entrevista recente à ESPN.
A conversa entre a diretoria e as jogadoras terminou com um acordo para a quitação de dois meses de direitos de imagem que estavam pendentes: junho e julho. O primeiro passo para solucionar a situação já foi dado. Na sexta-feira, dia 28, o Corinthians realizou o pagamento correspondente a um dos meses atrasados.
A expectativa apresentada internamente é de que o segundo período também seja quitado ainda nesta semana, encerrando, ao menos momentaneamente, uma das principais preocupações do elenco.
Os problemas financeiros deixaram de ser apenas uma questão administrativa e passaram a interferir no ambiente vivido pelas jogadoras. Após a vitória por 1 a 0 sobre o Cruzeiro, pelo primeiro confronto das quartas de final da Copa do Brasil, Vic Albuquerque falou sobre a dificuldade de manter concentração total diante de pendências que afetam diretamente a vida pessoal das atletas.
“Antes de atletas, nós somos seres humanos, temos família, temos que sustentar nossa casa. É difícil se concentrar 100% quando a gente está muito estressado”, afirmou a meia-atacante Vic Albuquerque, após vitória por 1 a 0 sobre o Cruzeiro no jogo de ida das quartas de final da Copa do Brasil.
A jogadora também destacou a importância de solucionar as questões internas para que o elenco possa voltar suas atenções exclusivamente às competições e aos objetivos esportivos da temporada.
“Agora, com tudo voltando ao normal, se Deus quiser vai dar tudo certo. A gente consegue focar só no nosso trabalho, sabendo que nossa família está em casa bem e é só focar no que a gente precisa fazer. É muito importante que esteja tudo bem nos bastidores para a gente conseguir desempenhar 100%”, completou.
Apesar do acordo envolvendo os direitos de imagem, os débitos do clube com o futebol feminino não terminam aí.
PREMIAÇÕES SEGUEM PENDENTES
Também existem valores em aberto relacionados às premiações conquistadas ou disputadas pelo Corinthians feminino. A lista inclui a premiação pelo título da Libertadores de 2025, além dos valores referentes à participação nas finais da Copa das Campeãs e da Supercopa Feminina de 2026.
Nas duas competições disputadas neste ano, as corintianas terminaram como vice-campeãs. Até o momento, a diretoria não apresentou uma data definida para o pagamento dessas premiações.
A indefinição aumenta a preocupação em torno do planejamento financeiro da modalidade, principalmente porque o futebol feminino se tornou, ao longo dos últimos anos, um dos departamentos esportivos de maior sucesso do Corinthians.
A DÍVIDA DA ARENA TAMBÉM PESA NAS CONTAS
As dificuldades para manter os pagamentos em dia não estão restritas ao futebol feminino. O futebol masculino também enfrenta compromissos financeiros, e uma das razões apontadas para a limitação de recursos está relacionada ao acordo firmado pelo Corinthians com a Caixa Econômica Federal em 2022.
Naquele momento, durante a gestão do então presidente Duilio Monteiro Alves, o clube renegociou a dívida relacionada à construção da Neo Química Arena. Entre as condições estabelecidas está a retenção de metade dos valores recebidos pelo Corinthians em premiações por conquistas esportivas.
Na prática, 50% das premiações obtidas pelo clube precisam ser direcionadas ao banco, reduzindo a quantia disponível para outras despesas e compromissos. O mecanismo afeta diretamente a capacidade financeira da instituição em períodos de grandes conquistas, justamente quando os departamentos esportivos acumulam premiações.
MODELO QUE VIROU REFERÊNCIA TAMBÉM SOFRE PRESSÃO
A trajetória vitoriosa do Corinthians feminino ultrapassou as fronteiras do clube e passou a influenciar o próprio desenvolvimento da modalidade no país.
Cris Gambaré, uma das profissionais que ganhou destaque pela atuação na direção do futebol feminino corintiano, atualmente ocupa o cargo de coordenadora da seleção brasileira feminina. Outro nome diretamente ligado ao período de maior crescimento da equipe é Arthur Elias, que comandou o Corinthians entre 2018 e 2023 e conquistou 14 títulos antes de assumir a seleção brasileira.
O trabalho realizado no clube serviu como referência para outras equipes, mas a diferença competitiva que durante anos separou o Corinthians de seus principais adversários começou a diminuir.
RIVAIS SE APROXIMAM DENTRO DE CAMPO
Embora siga entre os favoritos aos principais troféus, o Corinthians já não apresenta a mesma distância em relação aos concorrentes. Um dos exemplos está no Campeonato Brasileiro.
A equipe conquistou sete das últimas oito edições da competição, mas atualmente enfrenta uma situação diferente na tabela. O São Paulo assumiu a liderança, enquanto o Corinthians aparece logo atrás. Neste momento, o time tricolor soma 41 pontos, contra 38 das corintianas.
A perda da liderança representa um sinal de que o domínio absoluto apresentado em temporadas anteriores vem sendo desafiado por equipes que investiram e evoluíram na modalidade.
Outro episódio marcante aconteceu na reta final do Campeonato Paulista do ano passado. No primeiro duelo da decisão, o Corinthians sofreu uma goleada por 4 a 0 para o Palmeiras, resultado que representou a maior derrota do clube em um Dérbi desde a retomada do futebol feminino, em 2016.
No segundo confronto, as alvinegras conseguiram vencer por 1 a 0, mas o resultado não foi suficiente para reverter a vantagem construída pelas rivais. Com isso, o Corinthians terminou a competição estadual na segunda colocação.
Apesar dos tropeços recentes e da aproximação dos concorrentes, a equipe continua sendo considerada uma das candidatas aos títulos mais importantes da temporada.
BONS RESULTADOS ATRAÍRAM MARCAS PRÓPRIAS
O desempenho construído pelo Corinthians ao longo dos anos também transformou a equipe feminina em uma plataforma comercial relevante. A visibilidade conquistada dentro de campo fez com que o departamento passasse a atrair patrocinadores próprios, entre eles a MOÃ e a Vizzela.
As empresas atuam em segmentos distintos, ligados respectivamente à água de coco e aos cosméticos. Entretanto, uma ação comercial da Vizzela acabou gerando consequências disciplinares para o clube.
Durante a partida contra o Santos, realizada em 9 de agosto, a zagueira Thaís Regina exibiu diante das câmeras de transmissão um hidratante labial da marca. A iniciativa fazia parte de uma ação de marketing, mas acabou resultando em uma multa de R$ 10 mil aplicada ao Corinthians pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva.
O episódio, apesar da repercussão, acabou ficando em segundo plano diante de uma discussão envolvendo outro patrocinador.
PATROCÍNIO DE EMPRESA DE CONTEÚDO ADULTO GERA INVESTIGAÇÃO
A parceria firmada com a Fatal Fans provocou uma reação muito maior. A empresa, ligada ao segmento de conteúdo adulto, estabeleceu um acordo comercial que envolve tanto as equipes masculina quanto feminina do Corinthians.
A presença da marca nos uniformes passou a gerar questionamentos principalmente pelo fato de a exposição ocorrer em partidas transmitidas em televisão aberta e em praças esportivas, ambientes nos quais não existem mecanismos específicos de restrição de público.
Poucos dias depois da divulgação do acordo, o Ministério Público de São Paulo abriu um inquérito para investigar a parceria. O objetivo é verificar se a exposição da marca pode representar uma violação aos direitos de crianças e adolescentes.
A investigação acrescentou mais um capítulo ao período de turbulência vivido pelo departamento feminino, que precisa administrar simultaneamente questões financeiras, cobranças internas e discussões envolvendo sua estrutura comercial.
PATROCINADOR TAMBÉM APARECE EM NEGOCIAÇÃO COM GISELA ROBLEDO
A Fatal Fans voltou a ser mencionada pelo Corinthians durante o anúncio da renovação contratual da atacante colombiana Gisela Robledo.
A jogadora teve seu vínculo estendido até 31 de agosto de 2027, garantindo sua permanência no elenco por mais uma temporada. Na comunicação oficial sobre o novo contrato, o clube informou que a Fatal Fans participaria dos custos necessários para viabilizar a continuidade da atleta.
O episódio evidencia como as receitas provenientes de acordos comerciais passaram a ter peso no planejamento do futebol feminino corintiano, justamente em um momento em que o clube enfrenta dificuldades para honrar compromissos financeiros já assumidos.
HEGEMONIA AINDA EXISTE, MAS CENÁRIO MUDOU
O Corinthians continua sendo um dos maiores vencedores do futebol feminino brasileiro e mantém uma estrutura construída ao longo de quase uma década desde a retomada da modalidade. Os títulos, a tradição recente e a capacidade de disputar as principais competições fazem do clube uma potência que ainda está longe de perder seu protagonismo.
Por outro lado, os acontecimentos dos últimos meses mostram um cenário diferente daquele vivido durante o auge da hegemonia. A aproximação dos rivais, a perda momentânea da liderança no Brasileiro, os atrasos nos pagamentos, as premiações pendentes e as controvérsias comerciais colocam novos obstáculos no caminho da equipe.
O desafio da diretoria, portanto, vai além de manter um time competitivo. Será necessário reorganizar as finanças, solucionar as pendências com as jogadoras e administrar as questões institucionais para preservar um projeto que, durante anos, colocou o Corinthians no topo do futebol feminino nacional e continental.







































