Jornal do Fla
·10 de junho de 2026
Bastidores da Paixão: Pedro Asbeg detalha processo de ‘Onde Estiver, Estarei’ e homenageia Arthur Muhlenberg

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O dia 23 de novembro de 2019 foi o mais importante da vida de milhões de corações rubro-negros, e foi exatamente isso que o diretor Pedro Asbeg buscou retratar na sua obra ‘Onde estiver, estarei – uma paixão rubro-negra’.
Mais do que a Libertadores 2019: a missão era retratar o povo e a paixão pelo Flamengo. Após duas semanas do lançamento na HBO e na sua plataforma de streaming, a Max, Pedro conversa com o Jornal do Fla sobre sua mais nova produção.
Ele abre o jogo sobre os bastidores, as dificuldades, responsabilidades e o orgulho de assinar uma produção em prol da cultura rubro-negra, mas também a dor e o carinho pela obra ser a última do saudoso cronista Arthur Muhlenberg, que faleceu no mês anterior ao lançamento oficial.
Pedro diz que a divulgação por parte da plataforma de streaming é tímida, o que diminuiu o potencial da obra. Mesmo assim, ele percebe o impacto imediato para os rubro-negros que assistem ao filme. Questionado sobre as primeiras reações, ele faz uma análise sobre como os torcedores consomem a própria história.
“Depois de duas semanas do lançamento, que sinto que foi muito pouco divulgado pela própria plataforma, mal divulgado nas redes, nenhum trabalho de assessoria de imprensa, meio escondido na plataforma. Acho que ainda assim houve uma boa repercussão e sinto que a maior parte das pessoas guarda aquele ano e aquele jogo de 2019, contra o River, pela importância que teve depois de 38 anos, pela emoção que foi a partida”, comenta, antes de continuar:
“A maior parte das pessoas tem uma análise bem pouco crítica do filme em si. É uma avaliação diferente de quando costumo fazer outros trabalhos em que as pessoas estão mais atentas a detalhes técnicos, ou estéticos, ou de narrativa. Sinto que tem uma certa benevolência rubro-negra e isso me deixa feliz, pois significa que as pessoas estão mergulhando no filme sem se preocupar tanto com uma avaliação mais profunda, apesar de eu achar que o filme tem, sim, um valor, também, do ponto de vista cinematográfico. Menor do que eu gostaria, pois foi muito tolido pela plataforma, mas é o processo, acontece em todos os trabalhos”.
O projeto tem o potencial de levar torcedores às lágrimas, afinal, a decisão da Libertadores 2019 marcou uma geração inteira de torcedores. Mas Pedro entende que isso é uma consequência, e não o objetivo inicial do trabalho.
“A proposta não é de levar os torcedores às lágrimas, isso é a consequência. Nunca imaginei que fosse um propósito. Trabalho com documentário a bastante tempo e isso é um processo natural, a gente vai desenvolvendo o trabalho, editando o filme e vai entendendo que as emoções são construídas, muitas vezes, na ilha de edição. Nesse caso foi isso. Era natural a emoção vir de quem viveu aquilo, de quem tem boas lembranças daquilo, de quem entende que aquele jogo foi uma das maiores emoções já vividas”, conta.
A velha guarda e os torcedores mais jovens dividiram o mesmo sentimento com o filme. Quem testemunhou a Era Zico e o ano mágico de 1981 sentiu o mesmo que os mais jovens, que passaram a se acostumar com uma nova Era de conquistas. O pertencimento unificou as gerações.
“Essa diferença da avaliação por uma distância geracional, não percebi. Não tive esse tipo de retorno. Todo mundo se emociona de forma parecida, independentemente da idade. Mas talvez quem tenha entendido o Flamengo há menos tempo possa, pelo menos, perceber o valor daquela conquista, quem sabe valorizar ainda mais o título de 81, e principalmente, Cláudio e Moraes, duas pessoas que nunca desistiram e estavam com o Flamengo nas horas boas e difíceis”, diz.
Pedro explica que o início do projeto começou logo após o 5 a 0 sobre o Grêmio, quando recebeu uma ligação que começaria tudo. Foi quando o caminho de duas lendas da arquibancada rubro-negra se cruzaram: Francisco Moraes, que sempre vai aonde o Flamengo for, e Cláudio Cruz, fundador da Raça Rubro-Negra.
“Recebi o convite para fazer o filme no dia seguinte à classificação para a final. 24 de outubro de 2019. Ainda estava me recuperando do 5 a 0 quando recebi o telefonema da produtora Canal Azul, de São Paulo. ‘Quero que você vá para Lima e filme esse jogo’. Fiquei pensando em como construir isso, falei imediatamente com o Arthur, trocávamos muita ideia sobre a vida e o mundo, a gente se falava todos os dias. Era um dos meus maiores parceiros de vida e de trabalho”, relata, antes de prosseguir:
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“Ficamos pensando juntos o que podia ser e o que conectava, então pensamos no Cláudio e no Moraes, duas entidades rubro-negras, lendas vivas da nossa torcida que tinham ido numa caravana heróica em 81 e que, certamente, estariam em Lima em 19. Fiz contato com o Moraes, foi uma conversa de algum tempo. Não tínhamos tanto tempo, eram quatro semanas até a final, mas consegui convencê-lo. Falei com o Cláudio. Felizmente conseguimos fazer esse registro deles antes, durante e depois do jogo, e fazer um filme que tenha a ver com as nossas conquistas de 81 e 19, mas que principalmente é um filme sobre a nossa torcida e sobre essas duas figuras que precisam sempre ser valorizadas e lembradas”.
É inevitável falar de Arthur Muhlenberg, peça importante para que o filme acontecesse. Uma das mentes mais brilhantes da crônica rubro-negra também foi roteirista do filme, mas não pôde assisti-lo, nos deixando em abril. Ou seja, apenas um mês antes do lançamento oficial. Pedro Asbeg não esconde a tristeza por isso e a saudade diária de um dos maiores nomes da torcida do Flamengo, que tanto trabalhou para o engrandecimento do clube com seus textos, artigos, livro e produções.
“Infelizmente o Arthur não viu a ultimíssima versão do filme. Ele morreu um pouco antes, é muito triste pensar nisso. Sinto falta dele todos os dias. Tem um buraco na minha vida, que vai ficar mesmo pela falta que ele faz. Pensar que esse é o nosso último trabalho juntos de alguma forma é uma alegria. É um trabalho do qual a gente tem orgulho, do qual ele se orgulharia. Poderiam ter sido outros, que tratavam de outros assuntos, mas foi justamente sobre aquela conquista inesquecível do Flamengo”, lamenta.
Ainda assim, Onde estiver, estarei, é uma última obra deixada por Muhlenberg que se junta ao seu legado rubro-negro que ficará para sempre.
“Mas não tem como negar que é triste pensar que esse filme saiu e ele não está aqui para a gente ver juntos, comentar, pensar nos próximos, rir, reclamar. Coisas que a gente adorava fazer. A parte boa de fazer esse tipo de trabalho, escrever um livro, lançar um filme, gravar um disco, é que as coisas ficam. As obras permanecem, e o Arthur vai permanecer nesse trabalho, assim como está em tantos outros. O Arthur é eterno“, afirma.
A parceria e a paixão compartilhada pelo Mais Querido do Mundo fez com que a rigidez habitual do cinema ficasse de lado, e o lado afetivo entrou em cena corriqueiramente ao longo do processo.
“Tenho um olhar inevitavelmente que precisa ser, também, técnico, pensando na estrutura narrativa, no ritmo da edição, na ordem dos depoimentos, a maneira de contar a história. Tem o dia do jogo, a viagem dos personagens, o flashback para 81, as negociações com o canal. Mas particularmente, nesse caso, sabendo que era um filme majoritariamente para a torcida do Flamengo, tinha uma leveza um pouco maior entre o Arthur e eu. A gente podia deixar todo o nosso amor pelo Flamengo falar mais alto”, conta, antes de prosseguir:
“Nesse caso, não houve a necessidade de um constante equilíbrio como em outros trabalho. A gente sempre quis que o filme fosse sobre a torcida. Só fazia sentido ser sobre a torcida. Inclusive, por ser lançado sete anos depois da conquista. A gente sempre soube que era a conexão humana, pelos relatos pessoais que a gente ia conseguir fazer um filme que chegasse nas pessoas. Não era um filme baseado em relatos dos jogadores, dos dirigentes, dos jornalistas. É de quem ama o Flamengo e sabe exatamente o valor de cada vitória por que viveu, também, a dor de cada derrota”.
Com uma carreira consolidada e repleta de trabalhos notáveis, Pedro Asbeg carrega a certeza de que não é a crítica que o valida, mas sim as pessoas que confiam a ele suas próprias memórias.
“A maior preocupação que tive ao longo desse trabalho era a responsabilidade de contar a história do Cláudio e do Moraes, ou falar sobre eles. Eu precisava valorizá-los e queria respeitá-los, assim como com todos os torcedores que, de alguma forma, confiariam em mim e dividiram comigo suas lembranças. Muitos que dirigi à distância, falei antes da final em 19 e pedi para irem gravando o trajeto até a partida. Tinha essa preocupação, era minha maior responsabilidade”, continua.
As reações de Cláudio Cruz e Moraes são a prova disso.
“Que bom que, de alguma forma, contar a história de dez pessoas, é também contar a história de 45 milhões. A gente se vê no outro. Tenho certeza que tiveram muitas outras histórias talvez mais incríveis do que as que mostrei no filme, de viagens mais malucas e emoções ainda maiores, mas quem viveu aqueles dias, aquela conquista, consegue se ver na tela e se sentir representado. Quando o Moraes e o Cláudio mandaram mensagem dizendo: ‘Vi o filme, eu adorei. Muito obrigado’. Para mim, era o que eu precisava. Queria que eles vissem e se sentissem respeitados. Felizmente, isso aconteceu. Então eu relaxei”, conclui Pedro Asbeg.
A série está disponível na HBO Max, que está disponível com mensalidades a partir de R$ 22,90. Para ver os detalhes de assinatura, basta clicar aqui.
Pedro Asbeg é um profissional com inúmeros trabalhos, e essa não é a primeira vez que ele dirige um documentários de futebol e nem sobre o Flamengo.
Ele fez parte, por exemplo, do importante documentário ‘O Ninho’, publicado pela Netflix, sobre a maior tragédia da história do Flamengo, que vitimou dez jovens atletas no CT do clube em 2019.
Além disso, ele também dirigiu ‘Fanáticos’, ‘Som das torcidas’ e ‘Craques para sempre’. O longa ‘Geraldinos’, de 2015, também mostra o fim da Geral do Maracanã e retrata a elitização do futebol brasileiro desde então.
Outros projetos em que fez parte são ‘América Armada’, ‘Democracia em preto e branco’ e ‘Mentiras sinceras’, além de muitos outros trabalhos de direção e edição.

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