Bastidores que sabemos do levante dos jogadores do Inter que se negaram a concentrar pro Gre-Nal
O Internacional teve um problema sério de bastidor horas antes do primeiro Gre-Nal da Copa do Brasil. Os jogadores se reuniram com representantes do departamento de futebol e comunicaram que não aceitariam fazer a concentração prevista para o clássico enquanto existissem valores em atraso com o elenco. A situação já foi confirmada publicamente tanto pelo presidente Alessandro Barcellos quanto por Gabriel Mercado, que falou sobre o assunto depois do empate no Beira-Rio. No fim, o Inter cancelou a concentração e agora colocou como prioridade absoluta regularizar os pagamentos aos atletas.
Existem versões diferentes sobre exatamente quanto está atrasado. Inicialmente surgiu a informação de dois meses de direitos de imagem. Depois, falou-se em aproximadamente dois meses e meio considerando valores repactuados anteriormente. Uma terceira versão aponta algo próximo de 45 dias, com parte da dívida envolvendo direitos de imagem e também compromissos relacionados a férias e 13º que ficaram para trás. O detalhe exato muda conforme a composição, mas o principal está confirmado: existe dinheiro devido aos jogadores.
E foi justamente isso que provocou a reação do elenco. O planejamento inicial era semelhante ao adotado pelo Grêmio: treinamento na véspera, deslocamento para o hotel e concentração até a hora do clássico. Os jogadores se reuniram e chamaram representantes da direção e do departamento de futebol para comunicar que não fariam isso enquanto o clube não estivesse cumprindo integralmente seus compromissos financeiros. A posição foi basicamente de que todos continuariam treinando, entrando em campo e cumprindo suas obrigações esportivas, mas que o Inter também precisava cumprir as suas.
Nem todos dentro do grupo pensavam exatamente da mesma maneira. A informação é de que Alan Patrick preferia manter a concentração, inclusive por entender o tamanho da repercussão negativa que uma decisão dessas poderia gerar às vésperas de um Gre-Nal. Gabriel Mercado, por outro lado, teria sido uma das lideranças favoráveis à posição mais dura diante da direção. Como acontece em qualquer elenco numeroso, houve opiniões diferentes, mas a decisão coletiva acabou sendo pela não concentração.
Isso também ajuda a explicar por que Mercado foi um dos jogadores que falou publicamente depois da partida. Ele confirmou que existem valores em aberto e não tentou esconder a situação. Barcellos também admitiu o problema em entrevista coletiva. Portanto, já não existe muito espaço para tratar o episódio como especulação. Houve uma manifestação do elenco, existiam atrasos e a rotina antes do clássico foi alterada por causa disso.
Agora vem a parte mais importante: a direção decidiu mudar suas prioridades financeiras. O Inter já sofreu um transfer ban relacionado a Juninho e sabe que outras cobranças podem surgir, inclusive envolvendo negociações como Carbonero e outros compromissos internacionais. Só que, neste momento, a intenção é não utilizar o pouco dinheiro disponível para resolver imediatamente todos esses bloqueios. Como a janela de transferências está perto do fim e a possibilidade de Alex Arce ficou muito distante, o clube pretende concentrar recursos para colocar em dia aquilo que deve aos próprios jogadores.
Isso praticamente encerra qualquer expectativa de uma grande contratação nesta janela. Alex Arce já era uma operação complicada pelos valores pedidos pelo Independiente Rivadavia e agora ficou ainda mais difícil. O Inter entende que precisa juntar algo que pode chegar à casa dos R$ 10 milhões ou R$ 15 milhões para regularizar os compromissos com o elenco. Antes de buscar mais um reforço ou sair pagando cada cobrança externa que resultar em transfer ban, a prioridade passou a ser quem está diariamente no vestiário.
Para levantar esse dinheiro, o clube procura diferentes caminhos. Patrocínios pontuais são uma alternativa, como já aconteceu recentemente, e uma classificação contra o Grêmio para a semifinal da Copa do Brasil também representaria uma entrada importante de premiação. Além disso, não está descartada a possibilidade de buscar novos empréstimos bancários para melhorar o fluxo de caixa e conseguir colocar os atrasados em dia.
É uma decisão compreensível diante da crise, mas também mostra a gravidade da situação financeira colorada. O Inter chegou a um ponto em que precisa escolher qual dívida pagar primeiro. Se prioriza um clube estrangeiro para retirar um transfer ban, falta dinheiro para outro compromisso. Se prioriza o elenco, aceita conviver temporariamente com novas punições da FIFA. E agora os jogadores colocaram sua própria cobrança na mesa e obrigaram a direção a reorganizar essa fila.
Existem explicações apresentadas pelo clube para a dificuldade de caixa, como perda de receitas comerciais e problemas de arrecadação ao longo da temporada. Só que chega um momento em que as justificativas já não resolvem. A atual gestão está há anos comandando o Internacional e conhecia o cenário financeiro que enfrentaria. Não dá para tratar todo problema como algo inesperado.
O episódio antes do Gre-Nal é talvez o retrato mais claro disso. Não foi simplesmente uma discussão administrativa sobre quando os jogadores deveriam dormir no hotel. Foi um elenco cobrando dinheiro atrasado e utilizando a concentração como forma de demonstrar sua insatisfação. O Inter entrou em campo normalmente, os atletas cumpriram seu papel esportivo e empataram o clássico em 0 a 0. Mas o problema que aconteceu antes da bola rolar continua existindo.
Agora a direção promete priorizar o pagamento dos jogadores, mesmo que isso signifique conviver com novos transfer bans e adiar outras dívidas. É uma escolha de emergência para tentar preservar o vestiário. E quando um clube precisa escolher entre pagar quem está jogando ou quem está cobrando na FIFA, fica bastante claro o tamanho da dificuldade financeira no Beira-Rio.