RTI Esporte
·26 de setembro de 2026
Bets: capítulo antecipado de um problema longe do fim

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·26 de setembro de 2026

Sabíamos que os sites de apostas estavam com seus dias contados no Brasil. Já existiam projetos importantes em discussão no Congresso, alguns tratando diretamente da proibição das bets e outros propondo restrições severas à publicidade nos sites, serviços de streaming, canais de televisão e demais mídias.
Duas discussões, especialmente, poderiam mudar completamente o cenário.
Uma delas acabaria com as bets no país e, consequentemente, mudaria a configuração financeira do futebol e de outros esportes que perderiam uma parcela importante de seus patrocínios.
A outra atingiria diretamente a publicidade. E não seria pouca coisa. Durante anos, as casas de apostas ocuparam camisas de clubes, campeonatos, transmissões, televisão, redes sociais, influenciadores, eventos e uma infinidade de ativações pelo país.
Mas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou uma medida provisória que proíbe a exploração das apostas de quota fixa no Brasil. Os sites autorizados terão de encerrar suas atividades a partir de 6 de outubro.
Segundo o governo, a decisão está relacionada ao crescimento do endividamento e aos problemas de saúde associados ao jogo. O Ministério da Saúde afirma que milhões de brasileiros apostaram nos últimos anos e que aumentaram os atendimentos relacionados ao jogo problemático.
A preocupação com a sociedade é legítima.
Sabemos dos danos que todo vício causa na pessoa e na própria família. Isso é indiscutível, seja ele qual for.
O problema é outro.
Nada se resolve apenas numa canetada. Se resolvesse, a vida poderia estar melhor em muitas outras coisas.
Hoje, o que vemos é uma decisão que prejudica clubes, federações e empresas que recebem valores milionários para ajudar a pagar suas contas.
Sinceramente, acho que houve, sim, uma dependência até por sobrevivência de ter as bets como parceiras fundamentais. E o futebol é um grande exemplo disso.
Não foi apenas uma relação comercial. O dinheiro das apostas passou a fazer parte do planejamento financeiro de muita gente.
É possível que os clubes mais estruturados consigam sobreviver mais à frente. Mas os impactos, no geral, podem ser imensos.
Existem outras empresas que possam substituir as bets?
Sim.
Mas não necessariamente com o mesmo poderio de caixa e, principalmente, não no mesmo espaço de tempo.
Esse é o problema que aparece quando saímos do discurso político e entramos na vida real das empresas.
Todas essas organizações fazem seus projetos financeiros contando com as verbas fechadas com seus patrocinadores. Agora, a poucos meses do final do ano, como será para cumprir compromissos com fornecedores, funcionários e todos os demais envolvidos?
Os clubes terão de ir ao mercado em busca de novas receitas. Receberão propostas. Criarão alternativas.
Mas dificilmente na velocidade da necessidade.
A resposta do governo para os clubes, ao menos até aqui, passa novamente por mecanismos de redução ou renegociação de dívidas com a União e por crédito.
E aqui está outro problema.
Isso já foi feito em outras ocasiões.
Oferecer empréstimos a perder de vista pode aliviar o presente, mas cria um horizonte temerário quando projetamos o futuro de clubes que, em sua maioria, ainda convivem com administrações frágeis e problemas financeiros históricos.
E não, isso não significa defender as bets.
Significa apenas ser prudente.
Ninguém é obrigado a deixar de receber de uma hora para outra por uma atividade que até então era permitida e regulamentada, sem tempo para reorganizar contratos, receitas e despesas.
“Ah, mas já era sabido que poderia acontecer.”
Sim.
Mas isso não justifica necessariamente o formato.
A questão não é apenas o fim das bets. É a forma como uma mudança dessa dimensão atinge empresas, clubes e trabalhadores que fizeram seus planejamentos dentro das regras existentes.
E existe ainda uma pergunta muito mais séria.
O que será feito com as pessoas que apostavam?
A medida prevê a devolução dos valores que estiverem nas plataformas. Mas devolver dinheiro resolve o problema de quem desenvolveu dependência?
Não necessariamente.
Cigarro ainda vende. Bebida alcoólica ainda vende. Drogas continuam sendo encontradas. Corridas de cavalo continuam existindo. Cassinos clandestinos continuam funcionando.
O vício não desaparece porque o endereço mudou.
E a saúde pública precisará estar preparada para atender quem já estava preso a esse comportamento.
Talvez algum desses geniais políticos possa, quem sabe, colocar à disposição da população uma emenda secreta para acabar com todos esses problemas também.
A ironia é necessária porque o problema é sério demais para ser tratado como espetáculo.
A discussão sobre as bets não termina com uma medida provisória. Ela apenas muda de lugar.
Agora vai para a Câmara e para o Senado. Depois, ninguém sabe exatamente o que acontecerá.
E aí está a parte mais desconfortável.
Não é uma discussão de direita contra esquerda. É uma discussão sobre sociedade, saúde pública, economia, responsabilidade e planejamento.
A proibição pode ser importante.
Mas uma decisão importante também pode ser mal executada.
E o Brasil tem uma tradição conhecida: resolve um problema criando dois outros.
A eleição passa.
Os contratos ficam.
As dívidas ficam.
Os vícios ficam.
E o futebol, como quase sempre, fica com a conta.
(*) Marco Marcondes é jornalista, radialista, ator, diretor de cinema, teatro e televisão, promotor de eventos e CEO da Agência RTI Esporte.







































