Portal dos Dragões
·12 de julho de 2026
Bicampeonato não é almofada

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No primeiro treino de uma nova temporada há sempre um despertar emocional que não se mede pelos quilómetros feitos nem pelos cones dispostos em triângulos sobre o relvado, mas pela forma como um clube volta a aprender a acreditar em si próprio depois de um verão cheio de silêncios, aeroportos e rumores. O FC Porto apresentou-se no Olival com o sabor da festa do 31.º título ainda bem presente, mas já com o estômago vazio de que Francesco Farioli falava. Os verdadeiros campeões sabem que as medalhas são apenas fotografias do passado e que o futuro pede outra fome.
Enquanto o país ainda digere a desilusão de um Mundial que terminou cedo demais, no Centro de Treinos Jorge Costa respirava-se uma atmosfera quase insolente de felicidade, face ao desalento geral. Sem triunfalismo, sem transformar a palavra “bicampeão” numa almofada confortável. Sem procurar o conforto. Diogo Costa não treinou depois de ter carregado Portugal às costas no Mundial. E, ainda assim, antes de partir de férias, passou pelo Olival para ver os companheiros num gesto que vale mais do que muitas conferências de imprensa. O capitão escolheu aparecer antes de partir, como quem deixa uma lufada de entusiasmo aos colegas. Quando o mercado transforma jogadores em códigos de barras e os aeroportos em salas de espera para despedidas, a visita de Diogo Costa entrou no manual da resistência afetiva, com a certeza de que é esta baliza que alimenta as raízes da cidade.
Entretanto, o calendário aproxima-se com a disciplina inevitável. Já amanhã, o estágio em St. George”s Park. Depois, o Aston Villa no Dragão em jogo de apresentação, a Supertaça com o Torreense no dia 1 de agosto, seguida da estreia na Liga na semana seguinte. Exigência, críticas, nervos, contas precipitadas e classificações. Mas o primeiro dia de treinos deixou uma mensagem profunda, porque a esperança não regressa através de grandes discursos, mas sim de pequenos sinais: uma praxe bem-humorada, a música escolhida pelos jogadores, um treinador que pede intensidade sem arrogância ou um capitão que passa pelo Olival antes de ir descansar.
Do que se viu no Olival, confirma-se que a casa está em ordem, ainda que persista o luto pela memória de Jorge Costa, cujo nome, gravado à entrada, insiste em não deixar esquecer. Farioli fala em recomeçar do zero, com o estômago vazio, sem regressar aos museus onde se guarda o passado para não o confundir com aquilo que falta fazer numa época que se anuncia de afirmação e não de gestão da conquista. O FC Porto, depois de quebrar um jejum de quatro anos, decidiu que a única forma de continuar campeão é fingir, todos os dias, que ainda não o é.
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