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·01 de junho de 2026

Cano, a idolatria e a proximidade com a mácula

Imagem do artigo:Cano, a idolatria e a proximidade com a mácula

Zero Um. Para muitos, essa é a grande referência do nosso camisa 14. Afinal, seria impossível vencermos o nosso maior título recente sem a presença dele. E foi, de fato, um dos grandes protagonistas dos nossos últimos anos. O que falar das suas atuações diante do Flamengo, nas finais de 22 e 23? Na Libertadores, então? Foi ele quem abriu o placar contra o Inter aqui e, quando todo mundo já dava como certa a pavimentação para a eliminação, quem fez o gol que deu o suspiro necessário para irmos cheios de esperança para o Sul? E lá? Um a zero os caras, e ele coloca JK na cara do gol para empatar. E depois, quando se imaginava caminhar para os pênaltis, não foi o Zero Um que selou o nosso destino rumo à Glória Eterna? E quem abriu o placar na final? Pois bem. Escrevo isso apenas para dizer que é desnecessário explicar o quanto a torcida tricolor tem no nosso querido Gérman um ídolo. Isto posto, vamos ao ponto dessa coluna de hoje — e olha que nem falei do gol que abriu o placar em 2025, contra a toda poderosa Inter de Milão… Mas, para o nosso objetivo, já se basta.

Cano, hoje, aos olhos apaixonados e marejados de todos os tricolores — ou quase todos, pelo que percebo nas rodas de botequim e nos grupos de zap —, é um ex-jogador em atividade. Ponto. Há uma espécie de consenso, um tipo único de sentimento que ainda segura as críticas mais efusivas ao jogador. A nostalgia segura as vaias e não permite que se desencadeiem sentimentos negativos ao nosso ídolo. Mas a questão é: até quando? O que se vê em campo é doloroso para qualquer fã apaixonado. É triste assistir, e reassistir, ao desfazimento de um atleta de ponta. Sim, porque por mais que nosso camisa 14 esteja em condições físicas — e aqui me refiro a estar sem lesões —, ele demonstra, a cada jogada que tenta participar, que não tem a menor condição de ali estar. Não consegue mais, infelizmente. Ele tenta, mas não consegue mais produzir o que se espera dele. Ontem, diante do Cruzeiro, mais uma vez ele provou isso. É uma pena, é duro, mas é a realidade.


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Traçando um paralelo com outro ídolo que aqui esteve para encerrar a carreira: Fred reconheceu que não tinha mais condições de jogar e se despediu, mesmo com a torcida e os demais companheiros pedindo para ele estender sua carreira mais um pouco. Resultado: dois jogos emocionantes no Maracanã, seu último gol, emoção e lembranças eternas de um cara que ajudou a resgatar a autoestima do tricolor. Renato Augusto — e aqui cabe um parêntese: não estou comparando a importância e a história dele com a dos ídolos supracitados, apenas traçando um viés comparativo. Ainda que pese sua importância para o título da Recopa — foi ele quem sofreu o pênalti —, ele entendeu que não conseguia mais render em alto nível, pegou seu boné e parou. A questão, que também é uma das muitas que diferenciam os dois, é que o meia não gozava, nem de longe, do prestígio que o camisa 14 tem com a torcida. A pressão pode ter sido parte importante na tomada de decisão? Talvez. Mas o fato é que ele não se permitiu ser lembrado pelos últimos e melancólicos momentos dentro de campo. Optou por ser celebrado por tudo que viveu, em grandes clubes mundo afora.

Mas o detalhe — nem tão detalhe assim — mais importante é que a insistência em seguir na carreira, a persistência em entrar em campo, está colocando em risco a sua idolatria, conquistada com muito suor e eternizada nas taças do Museu do Flu. O risco de Cano macular sua história aqui, de arranhar a sua idolatria, é real e, na visão de muitos, nem está tão longe assim de acontecer. Isso porque a torcida valoriza e celebra o passado, mas cobra desempenho e efetividade no presente. É natural e faz parte de todo ciclo. Uma hora a conta chega, e os anos de entrega pelo alto rendimento cobram o seu preço. E a dele chegou. Infelizmente.

Talvez nosso ídolo ainda encontre espaços em outros times, de outros mercados, onde o futebol não seja tão competitivo quanto é o Brasileiro. E olha que não falo de técnica e qualidade — pois isso ele tem —, mas falo de força, de explosão, de parte física mesmo. E isso, componentes essenciais ao futebol praticado atualmente, ele já não tem mais.

Portanto, Gérman, entenda seu momento. Respeite seu corpo e, mais ainda, a sua história aqui. Você já é eterno. Todos lembram de você com enorme carinho e amor. Nosso ídolo, parte do Fluminense Football Club. Nos permita lembrar de você assim, com aquele saudosismo saudável e com lembranças forjadas em títulos na memória e, sobretudo, em cada coração tricolor. Marcas indeléveis na alma, dos vivos e dos que já se foram.

Pense e repense: você é ídolo e não precisa mais se expor.

Com carinho, Washington de Assis

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