Zerozero
·18 de agosto de 2026
Caos, acusações e «nem um euro recebido»: os 63 dias de António Folha na terra do Drácula

In partnership with
Yahoo sportsZerozero
·18 de agosto de 2026

63 dias na Transilvânia, região famosa pela lenda do Drácula. António Folha aguentou dois meses no CFR Cluj, numa aventura que meteu pagamentos falhados, problemas disciplinares com jogadores e uma instabilidade incompatível com o futebol de alta competição. O treinador português, de 55 anos, deixou o CFR Cluj ao fim de seis jogos: duas vitórias, um empate e três derrotas - sim, caro leitor, foram somente seis partidas à frente da equipa romena, que já não conquista o campeonato nacional desde 2022.
A saída do timoneiro deu-se após uma goleada sofrida em casa, perante o Tromso (0-5), na primeira mão da terceira pré-eliminatória da Conference League. Olhando para o panorama geral apresentado, parece, à primeira vista, um desfecho precoce, sobretudo tendo em conta a curta amostra e o pouco tempo.
E a verdade é que o fim desta história não se prende apenas com o que se passou dentro das quatro linhas. Em conversa com o zerozero, António Folha abriu o livro e contou todas as peripécias que o levaram a voltar a Portugal.
Uma experiência draculiana com contornos... vampirescos.
Para entender melhor o desenrolar dos acontecimentos, é importante começar pelo primeiro capítulo.
António Folha estava livre no mercado, depois de ter deixado o plantel secundário do FC Porto em 2024. Voltou ao ativo este ano e pelas portas de um instável CFR Cluj, que o «aliciou com o projeto».
«Foi-me apresentada uma ideia de alguma continuidade, porque o clube estava a tentar uma aproximação aos lugares mais cimeiros. O clube passava por algumas dificuldades e estava a tentar que fosse uma coisa que tivesse algum tempo para se poder trabalhar. Isso foi aquilo que me foi vendido, mas não teve nada a ver com o que se passou. Nada mesmo», começou por nos contar.
«Encontrámos um clube grande mas, passados três ou quatro dias, os problemas apareceram. Foi logo um caos: reuniões de jogadores a quererem sair, falta de pagamentos e inscrições que não podiam ser feitas», revelou.
Durante esse tempo, o polémico Ioan Varga - dono do emblema - liderou as negociações de uma possível venda da instituição, mas as coisas não andaram para a frente.
«Toda a gente a dizia que clube podia entrar em insolvência, mas isso era uma coisa que a nós, enquanto equipa técnica, não nos atrapalhava muito porque fomos para tentar trabalhar e dar o nosso melhor. Havia sempre um burburinho e algumas questões por causa das reuniões de jogadores, da falta disto e da falta daquilo», explicou.
Com isso, a situação prometia efeitos drásticos para a vida do português: «Também fomos por um presidente [Iuliu Muresan] que é uma pessoa séria e que nos tratou sempre muito bem. E que depois também abandonou o clube. Pôs o lugar à disposição, se calhar por já não aguentar mais aquela situação, e foi embora. A partir desse momento, sentimos que as coisas não iam ser iguais e que alguma coisa ia acontecer.»
A época desportiva não arrancou da melhor maneira, muito graças à falta de condições, de gestão e... de atletas. Logo na estreia, o luso viu-se privado de opções para o eixo defensivo.
«Quando fomos para o primeiro jogo, não tínhamos centrais disponíveis e não tínhamos jogadores que pudessem ser inscritos. Foi sempre assim que vivemos esta aventura. Ainda assim, em termos de resultados, conseguimos passar a primeira eliminatória [da Conference], uma coisa que foi muito difícil, face às circunstâncias», declarou, indo mais longe:
«Depois, os jogadores continuaram a pôr cartas para se desvincularem do clube e isso foi sempre um problema. Mas nós abstraíamo-nos disso e tentávamos sempre dar o nosso melhor», garantiu.
Importa referir que esta foi a primeira experiência do treinador no estrangeiro. Ter de lidar com tudo isto, e logo num país novo, foi de uma exigência tremenda.
«Foi-se gerindo, porque não era fácil. Não era fácil a exigência dos treinos e os jogadores com salários em atraso. Fomos sempre dizendo que a única coisa que podíamos fazer era tentar dar uma resposta em campo, mas sabemos que isto no futebol não é fácil. Eles tentaram, deram sempre o máximo, mas a instabilidade estava criada. O foco de instabilidade era mesmo muito grande e toda a gente sabe que a cabeça é parte fundamental para um atleta», frisou.
Os problemas financeiros foram uma constante ao longo da passagem do timoneiro - uma realidade completamente diferente da vivida na formação portista e no Portimonense.
«Os jogadores treinavam mas, claro, com estes problemas todos foi sendo difícil. Tinham reuniões em que lhes diziam que iam receber num dia, depois já iam receber noutro e por aí fora. Já nós, enquanto lá estivemos, não recebemos um euro», confidenciou.
«Houve uma altura que pagaram qualquer coisa aos jogadores e à equipa técnica deles, mas a nós, portugueses, não. Uma parte da equipa técnica - a preparação física - era do clube e esses chegaram a receber. Nós, que tivemos de pagar casas, não recebemos nada», aprofundou.
A situação já era insustentável, mas ficou ainda pior após a tal derrota pesada na prova europeia. A (pouca) relação acabou mesmo por ir água abaixo, na sequência de uma grave acusação.
«Claro que nos chamaram e puseram em causa a nossa dignidade. Rescindiram connosco e disseram que faltámos a um treino, o que é pura mentira e toda a gente sabe, nós temos provas disso», referiu, não negando que o timing da sua saída foi, no mínimo, muito conveniente para o emblema.
«As intenções ficam para quem as toma. Os atos e as palavras ficam para quem as pratica. Acho que todas as pessoas do clube sabem o que se passa. É uma pena porque é um clube grande, com simpatizantes fantásticos e uma massa adepta espetacular. As pessoas são fantásticas e vivem o futebol romeno com uma paixão muito grande. Mas é uma pena para as pessoas, que trabalham todos os dias no clube, estarem a passar por isto», sublinhou.
Já em Portugal, «de consciência tranquila» e com o «processo a ser resolvido pelo advogado nos trâmites legais», António Folha detalhou como se deu a ousada abordagem dos dirigentes romenos:
«Foram eles próprios que nos propuseram um acordo: receber um valor, principalmente aquilo que também não tínhamos recebido, e mais alguma coisa pela saída. E vir embora. Nós aceitámos tranquilamente, até porque tinha saído o outro presidente, que era uma pessoa top e que estava a tentar fazer alguma coisa pelo clube.»
«A partir do momento em que aceitámos, queríamos apenas receber aquilo a que tínhamos direito. Nunca nos deram nada, nunca fizeram nada e chegaram ao dia em que nos mandaram uma rescisão por mail sem nós sabermos. Pensávamos que ainda poderiam tentar pagar, mas acabaram por mandar uma rescisão a alegar coisas que põem o bom nome das pessoas em causa», acrescentou, não se ficando por aqui.
«Isso é algo com que eu não posso compactuar, nem vou deixar que façam. Dizer que tínhamos faltado aos treinos ou falar de determinados resultados é mentira, é tudo mentira. Mas as pessoas sabem quem diz as coisas e já sabem muito bem quem são essas pessoas», assegurou o antigo jogador do FC Porto e internacional português.
Existe um forte contingente português no CFR Cluj. O capitão é o luso-romeno Mário Camora; Simão Rocha e Marian Huja já lá estavam, enquanto Bruno Costa e André Moreira foram reforços para esta temporada.
Cadu, antigo central de Paços de Ferreira, Boavista e Gil Vicente, é ainda o diretor-desportivo.
A situação atual para esses lusos é agora uma incógnita, uma vez que está «tudo uma grande confusão». Ainda assim, Folha acredita que havia potencial para se alcançar o sucesso.
«Claramente que podíamos. As coisas estavam a funcionar. Obviamente que, com todos estes problemas, não foi fácil. Foi um pequeno milagre passar a primeira eliminatória com todas as dificuldades e com os impedimentos de inscrições. Claro que não fizemos um bom último jogo, mas, tirando isso, tudo o resto estava a andar», lamentou.
«Foi pena, porque acho que, mesmo com alguns problemas, se as coisas tivessem sido feitas de forma diferente, podíamos, sem dúvida nenhuma, ter feito um bom trabalho. Havia bons jogadores, mas alguns andavam a pedir para sair e havia vários com processos. E, quando há este tipo de situações dentro de uma equipa, não há como ter estabilidade para trabalhar», disse ainda.
Apesar disso, o mais difícil para o técnico foram mesmo «os falsos testemunhos»: «Foi apresentarmo-nos todos os dias e eles dispensarem-nos para irmos a reuniões durante dois ou três dias seguidos e, depois, dizerem que éramos nós que faltávamos aos treinos. Isso põe em causa a dignidade das pessoas e isso eu não admito. Não admito mesmo.»
O timoneiro, que afirmou olhar com um «bocadinho mais de apreensão a propostas futuras» - pese embora não tenha «receios em aceitar novos desafios» -, mostrou-se preparado para as críticas da imprensa romena.
«Na imprensa, cada um fala e diz o que quer. A imprensa quis falar comigo, mas eu nunca quis falar, porque não queria criar qualquer instabilidade no clube, mesmo depois de sair. Se calhar, já vão dizer que eu é que sou o culpado de perderem os últimos dois jogos, quando isso não corresponde à verdade. As pessoas sabem que no futebol muita gente quer pôr as culpas nos outros, quando primeiro têm é de olhar para elas e verem o que estão a fazer ao clube», afiançou.
Porém, nem tudo são memórias negativas. O treinador ganhou «simpatia pelo clube e pelas pessoas» - e o inverso também se verifica.
«Recebi centenas de mensagens de adeptos, de jogadores e de outras pessoas. Isso, para mim, é o que mais conta, porque essas pessoas sabem o que se está a passar e sabem que o que fizeram não foi justo», concluiu.
[NOTA: esta terça-feira, em conferência de imprensa, o dono do CFR Cluj (o polémico Ioan Varga) anunciou a intenção de se afastar do clube dentro de três meses. No mesmo evento, apresentou os novos investidores suíços, cuja primeira tarefa será injetar 15 milhões de euros para o pagamento de dívidas]







































