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·11 de junho de 2026

Captação bilionária, golden share e dívida da Arena: os detalhes da nova proposta da SAFiel ao Corinthians

Imagem do artigo:Captação bilionária, golden share e dívida da Arena: os detalhes da nova proposta da SAFiel ao Corinthians

Por Larissa Beppler | Redação da Central do Timão

A SAFiel, projeto que propõe a transformação do futebol do Corinthians em uma Sociedade Anônima do Futebol (SAF) controlada e financiada pelos próprios torcedores, apresentou em 2 de junho sua segunda Carta de Intenções Não Vinculante (Non-Binding Offer) à diretoria do clube. O documento foi encaminhado ao presidente Osmar Stabile, com cópias ao presidente em exercício do Conselho Deliberativo Leonardo Pantaleão e ao presidente do Conselho de Orientação (CORI) Miguel Marques e Silva.

Na proposta, a Invasão Fiel S.A., empresa idealizadora do projeto, argumenta que o quadro financeiro e institucional do Corinthians exige apreciação prioritária e imediata da matéria pelos órgãos competentes do clube. O documento enfatiza que o endividamento total do Timão já supera R$ 2,8 bilhões e apresenta caráter estrutural e crescente, que consome aproximadamente 40% da receita recorrente anual apenas com o pagamento de juros.


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Foto: Reprodução

Os responsáveis pelo projeto afirmam que a dívida cresce aproximadamente R$ 1,2 milhão por dia, o que torna cada atraso na apreciação da proposta uma perda financeira para o Corinthians. A SAFiel também cita os resultados deficitários registrados pelo clube no primeiro trimestre de 2026, a recorrente antecipação de receitas futuras para cobrir necessidades de caixa e a combinação entre folha salarial e serviço da dívida, que, segundo o documento, absorve praticamente toda a receita operacional do clube.

Entre os fatores apontados como justificativa para a urgência da análise estão ainda a dívida da Neo Química Arena com a Caixa Econômica Federal, os riscos de atrasos salariais, a necessidade frequente de venda de atletas para geração de caixa, os recentes transfer bans da FIFA, o aumento gradual das alíquotas do Regime Centralizado de Execuções (RCE), obrigações decorrentes de acordos tributários, impactos da Reforma Tributária, restrições para obtenção de incentivos fiscais, exigências de fair play financeiro e o risco de intervenção judicial motivada por questionamentos relacionados à governança do clube.

A proposta também considera que uma eventual recuperação judicial seria insuficiente para solucionar a crise financeira corinthiana, especialmente por não alcançar parte relevante do passivo, incluindo obrigações garantidas e a dívida com a Caixa. Os autores do projeto afirmam ainda que a adoção de um modelo de SAF com capital pulverizado seria capaz de preservar a identidade popular do clube e evitar a concentração do controle em um único investidor ou grupo econômico.

Estrutura da operação prevê captação entre R$ 2,5 bilhões e R$ 3 bilhões

A proposta prevê a constituição da SAFiel como uma sociedade anônima responsável por absorver integralmente o chamado “Perímetro do Futebol” do Corinthians. Entre os ativos que seriam transferidos estão direitos econômicos e federativos de atletas, contratos de patrocínio, licenciamento, transmissão, infraestrutura esportiva e administrativa, marcas, bancos de dados e passivos vinculados à atividade futebolística.

O modelo apresentado estabelece uma meta inicial de captação de R$ 2,5 bilhões, com possibilidade de ampliação para até R$ 3 bilhões em caso de excesso de demanda dos investidores.

Segundo o documento, os recursos captados serão destinados prioritariamente à reestruturação financeira do clube, incluindo o pagamento ou renegociação das dívidas do futebol, investimentos em elenco profissional, categorias de base, infraestrutura, tecnologia e programas de governança e compliance. A proposta prevê ainda aporte inicial de até R$ 50 milhões para o clube social.

Em contrapartida à transferência do futebol para a nova sociedade, o Corinthians receberia participação acionária na SAF, royalties pela utilização da marca e da identidade institucional – estimados em aproximadamente R$ 600 milhões ao longo de dez anos -, além de um fee, espécie de taxa de remuneração pela parceria e pela estruturação da operação, correspondente a 2% do valor captado.

O projeto também estabelece um modelo de participação popular. As ações ordinárias com direito a voto seriam destinadas exclusivamente a torcedores corinthianos, com investimento mínimo previsto de R$ 250. Cada CPF teria limite máximo de participação de 2% do capital votante, mecanismo que busca impedir a formação de grupos controladores e garantir a pulverização acionária. Investidores institucionais poderiam ingressar apenas por meio de ações preferenciais sem direito a voto, caso fosse necessário complementar a captação.

Governança prevê golden share e proteção à identidade do clube

A estrutura societária proposta reserva ao Corinthians a condição de acionista fundador da SAF, com uma golden share que garantiria direitos especiais de veto em temas considerados estratégicos.

O modelo também prevê conselhos independentes, comitês de governança, conselho cultural e mecanismos específicos para impedir alterações em símbolos históricos do clube, como nome, escudo, cores, uniforme e hino.

Outro ponto destacado é a chamada “cláusula de reversibilidade”, que permitiria ao Corinthians reassumir o controle do futebol em situações previamente definidas, como eventual descontrole financeiro, gestão temerária comprovada, violação da identidade histórica do clube ou descumprimento de obrigações essenciais da SAF perante a associação.

Cláusula vinculante prevê pagamento antecipado da dívida da Arena

Embora o documento tenha natureza predominantemente não vinculante, a proposta estabelece uma exceção importante na Cláusula 9, considerada obrigatória caso a carta seja assinada pelas partes.

O item determina que a Invasão Fiel se compromete a buscar recursos antecipados ainda durante a fase de diligências e auditorias, antes mesmo da realização da captação pública prevista para financiar a operação.

Entre as possibilidades previstas está a quitação da dívida do Corinthians com a Caixa Econômica Federal referente ao financiamento da Neo Química Arena. O texto afirma que o pagamento antecipado teria como objetivo liberar imediatamente receitas atualmente comprometidas com o financiamento, especialmente recursos vinculados à operação do estádio e ao futebol.

A proposta estabelece ainda que, caso a operação da SAF não seja concluída posteriormente, os valores utilizados para quitar a dívida da Arena não seriam tratados como aporte perdido. Nesse contexto, a Invasão Fiel assumiria a posição credora do contrato originalmente mantido com a Caixa Econômica Federal, com reembolso ao investidor em condições a serem definidas futuramente, observando parâmetros de mercado e condições semelhantes às obtidas pelo Corinthians em operações recentes.

Além disso, o documento prevê que todos os custos da auditoria independente, a ser conduzida por uma empresa do grupo das chamadas Big Four, seriam integralmente custeados pela Invasão Fiel, independentemente do desfecho das negociações.

Pelo cronograma apresentado, a conclusão das diligências e avaliações independentes ocorreria em aproximadamente seis meses. A eventual aprovação da SAF pelos associados do Corinthians está prevista para cerca de 300 dias após a assinatura da carta de intenções, enquanto a implementação definitiva da estrutura e o início das operações ocorreriam em aproximadamente um ano.

Para aprofundar os detalhes da nova oferta e esclarecer os próximos passos do projeto, a Central do Timão entrevistou o advogado Eduardo Perez Salusse, um dos idealizadores da SAFiel e diretor jurídico da Invasão Fiel. Durante a conversa, Salusse comentou os fundamentos da proposta apresentada ao clube, o modelo de captação popular pretendido e as expectativas do grupo em relação à análise do projeto pelos órgãos deliberativos do Corinthians. A íntegra da entrevista será exibida nesta quinta-feira (11), às 21h, na TV Central do Timão.

Campanha busca pressionar clube a analisar proposta

Paralelamente à apresentação da nova proposta, a SAFiel iniciou uma mobilização junto à torcida corinthiana para defender a análise formal do projeto pelos órgãos competentes do clube. Na última terça-feira (9), o grupo lançou uma plataforma digital voltada à coleta de manifestações favoráveis à apreciação da oferta encaminhada à diretoria do Corinthians.

A iniciativa tem como objetivo ampliar a participação dos torcedores no debate sobre os caminhos para a reestruturação financeira e administrativa do futebol alvinegro, além de demonstrar à atual gestão o interesse da Fiel em discutir alternativas para o futuro do clube.

Por meio do site SAFiel Já!, os corinthianos podem registrar apoio à abertura das discussões sobre a proposta apresentada pela Invasão Fiel. Segundo os organizadores, a campanha não busca aprovar previamente o projeto, mas incentivar que ele seja oficialmente analisado e submetido às instâncias deliberativas previstas no estatuto do Timão.

De acordo com dados divulgados pela própria SAFiel, mais de 40 mil torcedores já haviam aderido à iniciativa até a manhã desta quinta-feira.

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