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·18 de março de 2026
Com quase 200 jogos na Premier League, defensor escondeu homossexualidade com medo: 'Ouvia coisas horríveis'

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Tony passava os dias naquele banco. Segurava um laptop, bebericava um copo de vinho, lia livros e jornais. Expressão fechada, taciturna. O olhar não largava o computador, protegia assim a intimidade, a curiosidade de quem passava.
Atrás, a fachada decadente do Holloway Motel. Refúgio de almas exóticas, viajantes aventureiros, pessoas em busca de serenidade. West Hollywood, Los Angeles.
O ar resmungão, indisponível, intriga quem passa. Afasta a curiosidade, assusta até os mais sensíveis. Para o diretor Ramiel Petros, porém, a curiosidade é o mais importante. Sempre em busca de uma boa história, decide puxar conversa com o septuagenário.
"Quem é o senhor e o que faz aqui, sempre sozinho", pergunta-lhe, ainda sem saber que a resposta o levará a filmar o documentário The Last Guest of the Holloway Motel [O Último Hóspede do Motel Holloway].
"Meu nome é Tony Powell, tenho 78 anos e fui jogador profissional na Inglaterra. Em 1981 abandonei minha esposa e minhas duas filhas, fugi para os EUA", respondeu prontamente.
A resposta deixa Petros estarrecido. Que trajetória de vida poderia levar um ex-jogador de futebol àquele banco escuro, naquela área tão típica de LA? E que razões possíveis, e humanamente suportáveis, levariam um homem a deixar para trás as pessoas que mais amava?
"Tinha um segredo horrível sobre mim. Não consegui contar a verdade, falar da minha homossexualidade. Era impossível ser gay num vestiário de futebol nos anos 80. Fugi para poder viver", confessou Powell.
"Não podia falar com ninguém sobre mim"
O encontro absolutamente casual entre Powell e Petros é narrado na primeira pessoa ao The Guardian. Em 2026, já não há nada a esconder, já não há motivos para guardar segredos.
"Está vendo este motel aqui atrás Fui o gerente dele por 25 anos, até fechar em setembro (de 2025)", conta o ex-defensor, jogador do ano do histórico Norwich em 1979.
Entre 1974 e 1981, Powell soma 195 jogos pelos Canaries na First Division, predecessora da Premier League. É em Norwich, de resto, que compartilha o vestiário com o saudoso Justin Fashanu, o primeiro futebolista profissional a assumir a homossexualidade.
"Era um excelente futebolista e um cara fantástico", garante Tony, ao relembrar esses dias de tortura num vestiário carregado de testosterona.
"Eu sabia que ele era gay, mas o Justin não queria falar sobre isso. Sabia que a carreira dele terminaria no momento em que ele se assumisse publicamente", refletiu.
Ao assistir ao drama de Fashanu, Tony Powell antecipou o seu próprio. "Ouvia coisas horríveis. Sentia que não podia falar com ninguém sobre mim. Foi duro".
"Ao chegar aos EUA, me senti livre"
Reprimido, revoltado e incompreendido, Tony Powell larga tudo na Inglaterra e parte em secretismo para os Estados Unidos. Durante 35 anos, até 2016, a família desconhece seu paradeiro.
"Convenço-me de que minha família e amigos me abandonariam se soubessem da minha sexualidade", conta Tony, perto do Holloway Motel. "Ao chegar aos EUA, me senti livre de várias formas".
Até 1984, Powell joga no San Jose Earthquakes e no Seattle Sounders. Mas é em LA que escolhe viver, passar o resto da vida.
"Vim para West Hollywood para me sentir seguro. Aqui podia viver livremente, ser quem realmente era, sem ser perseguido e atormentado", explicou.
É assim que conhece o agora famoso, embora fechado, Holloway Motel. Torna-se gerente do espaço e seu último ocupante. O último hóspede.
A sua história estaria condenada ao anonimato, não fosse a curiosidade de Ramiel Petros. O documentário, construído a meias com Nick Freeman, está pronto para estrear.
A catarse de Tony Powell está completa. Durante as filmagens, a equipe de produção reuniu Tony com as duas irmãs e o irmão na Inglaterra. As filhas, ainda gerindo o choque relativo à perda do pai, optaram por não falar em frente às câmeras. Mas fizeram de forma discreta.
"Elas me aceitaram. Foi ótimo. Nosso amor continuava ali, vivo, apesar de tudo o que as fiz passar", desabafa Tony Powell.
O produtor do filme é Robbie Rogers, ele próprio homossexual e ex-futebolista. "O filme é lindo e até tem o testemunho de antigos colegas de equipe do Tony".
E como era em campo, afinal, o eterno gerente do Holloway Motel?
"Era duro como uma rocha, tinha coragem e compromisso", recorda Mick McGuire, um dos camaradas dos anos 70.
A estreia mundial de The Last Guest of Holloway Motel está agendada para o dia 02 de março. Este é o trailer oficial:


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