Deus me Dibre
·02 de setembro de 2026
Cruzeiro e a transformação de grandes expectativas em pequenos objetivos

In partnership with
Yahoo sportsDeus me Dibre
·02 de setembro de 2026

O Cruzeiro começou a temporada com a expectativa de voltar a disputar títulos, ser protagonista e fazer jus ao investimento realizado para montar um elenco que, no papel, oferecia alternativas para isso. O Campeonato Mineiro veio de maneira surpreendente, com dificuldades imensas para vencer adversários de menor expressão, gols nos últimos lances e derrotas inexplicáveis no Mineirão, mas, quando chegou a decisão, prevaleceram o peso da camisa e a força de uma torcida que empurrou o time para o título. Depois vieram quase dez rodadas de Campeonato Brasileiro na lanterna, a eliminação na Libertadores e, agora, a queda na Copa do Brasil, justamente quando a equipe tinha a classificação nas mãos. A temporada ainda não acabou, mas a distância entre o que se imaginava em janeiro e o que o Cruzeiro entrega em setembro já ficou grande demais para ser ignorada.
A eliminação para o Atlético escancarou problemas que já vinham sendo empurrados com a barriga. Artur Jorge teve participação direta no desfecho, principalmente pelas escolhas que fez durante a partida. No primeiro tempo, o Cruzeiro tinha uma lateral esquerda improvisada, o jogador já estava amarelado e aquele setor era explorado repetidamente pelo adversário. Havia um problema evidente, mas o treinador português optou por não corrigi-lo no intervalo. Em um jogo de mata-mata, com o adversário encontrando um caminho claro para atacar, deixar a situação como estava foi uma aposta difícil de entender, principalmente porque o cartão amarelo aumentava o risco e limitava ainda mais a atuação daquele lado.
Quando Villalba recebeu o vermelho, veio uma decisão ainda mais difícil de compreender: o comandante cruzeirense retirou Kaio Jorge e Matheus Pereira, além de Gerson, que pediu para sair por causa do desgaste. A saída de Gerson pode ser explicada pelo próprio cansaço, mas abrir mão de Kaio Jorge e Matheus Pereira naquele momento significava retirar do campo dois dos jogadores mais importantes para uma eventual definição da partida, justamente quando o Cruzeiro ainda tinha a vantagem no placar. E, se a disputa fosse para os pênaltis, ambos também estariam entre os nomes capazes de fazer diferença. O técnico escolheu uma estratégia, mas abriu mão de referências demais no caminho.
A explicação veio depois, com Artur Jorge defendendo a ideia de uma linha de cinco e jogadores mais rápidos para explorar os espaços. O problema é que futebol não é laboratório, e uma partida de mata-mata não oferece muitas oportunidades para testar experiências. O treinador resolveu mexer onde não precisava, retirou referências quando mais precisava delas e apostou que a organização desenhada na prancheta seria suficiente para compensar a perda de qualidade em campo. Não foi. E, depois de tudo isso, ainda faltou o mais importante: reconhecer que a leitura não deu certo.
Do lado da diretoria, o cenário não é muito diferente. Depois da eliminação, veio a promessa de que o clube vai agir mais, cobrar mais e estar mais presente no futebol. A pergunta é inevitável: por que somente agora? O Cruzeiro teve meses para perceber os problemas, corrigir rotas e cobrar quem precisava ser cobrado. Houve uma passagem pela lanterna do Brasileiro, a eliminação da Libertadores, uma sequência de atuações que já indicava dificuldades e, ainda assim, a postura mais firme apareceu depois que outra competição foi perdida. É uma reação tão tardia que parece mais resposta à pressão do que planejamento.
O pedido de desculpas à torcida também chega depois da conta. O torcedor não precisava de uma promessa de que a diretoria vai acompanhar mais de perto o futebol a partir de agora. Precisava que isso tivesse acontecido antes. Não existe problema em reconhecer que houve falhas, o problema é precisar de uma eliminação para finalmente perceber aquilo que estava diante dos olhos há meses. Se a gestão pretende ser protagonista, não pode funcionar como um espectador que só entra em cena quando o jogo termina.
E é justamente por isso que a eliminação da Copa do Brasil não pode ser analisada como um episódio isolado. Ela é o resultado mais doloroso de uma temporada que foi reduzindo seus objetivos conforme os erros se acumulavam. O Cruzeiro começou querendo títulos, passou quase dez rodadas na parte de baixo do Brasileiro, caiu na Libertadores e agora está fora da Copa do Brasil. Restou o Campeonato Brasileiro e a disputa por uma vaga na Libertadores, uma meta importante, mas muito menor do que aquilo que se esperava quando o ano começou.
A temporada continua, mas a régua não pode continuar descendo. O Cruzeiro tem investimento, tem elenco e tem uma torcida que não precisa que ninguém explique o tamanho do clube. O que precisa ser explicado é como se chegou a setembro com tão pouco depois de se projetar tanto em janeiro. E, antes de qualquer nova contratação, promessa ou discurso, talvez seja necessário fazer algo bem menos sofisticado: reconhecer os erros, inclusive aqueles que ainda insistem em parecer acertos.







































