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·21 de agosto de 2026
Da revolução na CBF ao milagre em Riyadh: conheça Maurício Dulac, alvo do Botafogo

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Maurício Dulac e o futebol nunca andaram separados. Desde quando foi revolucionário na CBF com a criação do setor de análise de desempenho, passando pelas parcerias com Tite, Dunga, Abel Braga e Odair Hellmann, até o milagre da permanência do Al-Riyadh no Campeonato Saudita, em sua primeira experiência como treinador profissional. Agora, o gaúcho de 46 anos é nome em pauta para assumir o cargo de treinador do Botafogo.
"A gente sobrevive assim. Longe da família, sem conviver com os filhos. Abrimos mão de muita coisa para estar aqui. Eu não sei o que faria se não se não trabalhasse com futebol. Eu não conseguiria fazer mais nada. São 24 horas por dia nisso. A gente ama esse esporte. A nossa vida é isso", disse o treinador, em entrevista exclusiva a oGol.
Apesar de apaixonado pelo esporte bretão, Maurício seguiu rumo diferente à maioria dos brasileiros. Não tentou ser jogador. Sabia, desde sempre, que a área técnica era seu lugar. E não só como treinador, mas em todas as funções. E o resultado nem sempre é o mais importante.
"Eu gosto de liderar pessoas, de passar uma visão diferente da normalidade, com esse aspecto mais humano. É tentar entender as pessoas e desenvolver o jogo com esse olhar. Gosto de trabalhar com jovens. Eu sou fascinado por isso. É a minha vida desde sempre", pontuou.
A história do gaúcho de 46 anos com o futebol começa no início do século XXI. A grande e grisalha barba não o deixa mentir. Foi na faculdade que Maurício começou a experimentar a prancheta e a área técnica, e nunca mais deixou ambos de lado.
"Eu fiz faculdade educação física. Iniciei minha carreira como professor de colégio. Depois passei para um projeto que tinha ligação com o Inter junto ao Ortiz, pai do Léo Ortiz. Fomos colegas na pós-graduação, na PUC. Iniciei com essa parte de análise do movimento. Isso em 2005, já usando tecnologias inovadoras na época. Cada vez eu ficava mais interessado pelo futebol. Em 2006, antes do Mundial, eu conheci o observador do Abel (Braga), o Roberto Moreno. Ele me incentivou a entrar de vez no futebol, pelo Inter. E dali foi indo", adicionou.
Maurício ficou uma década no Colorado. Desde que entrou nesse projeto de aprimoramento, em 2005, até deixar o Beira-Rio, em 2015, foram inúmeros os aprendizados. E a sua função, hoje chamada de analista de desempenho, foi evoluindo em conjunto.
"A gente usava uma câmera que fazia fotos dos jogos, para depois analisar. Era tudo mais arcaico. Primeiro eu era 'observador', e depois isso virou o 'analista de desempenho'. Tudo me ajudou a ver os jogos. Eu comecei a entender o futebol de uma vez. Evoluí junto com a função", disse.
As amizades que fez no Inter o ajudaram a alçar voos maiores na carreira. Tanto que foi por meio de Dunga, com quem havia trabalhado no clube gaúcho em 2013, que veio o convite para montar o setor de análise de desempenho na CBF, algo que foi uma revolução na época.
"O Dunga me procurou em 2015, durante a Libertadores, enquanto eu trabalhava com o Aguirre. Pedi para ele esperar até o fim da Libertadores e depois eu fui. Nós conseguimos montar algo realmente bom na CBF, que não existia. Ajudamos os clubes também. Criei a análise de desempenho da arbitragem. Todo dia tinha um leão para domar, foi diferente da 'vida normal' do futebol. Mas foi um momento muito bom na minha vida", respondeu.
"A gente trabalhava com um banco gigantesco de dados. Fazíamos avaliação de vários jogadores, em tudo quanto é lugar a gente tinha o mapeamento. Quando você está na CBF, você capacidade para pegar muitas informações. Tudo através de um software desenvolvido pela CBF. Através de vídeos, a gente categorizava os jogadores. Tudo para fazer um filtro nos momentos de convocação. Você tinha uma lista larga, de 100 jogadores, e, a partir daí, filtra para chegar a convocação", acrescentou.
Na seleção brasileira principal, Maurício trabalhou com Dunga e Tite e teve grande responsabilidade nas convocações. Mas o trabalho não se restringia à equipe de cima, mas sim a todas as categorias da CBF. Em 2016, Maurício integrou a comissão brasileira nos Jogos Olímpicos do Rio, quando a Canarinho conquistou a inédita medalha de ouro.
"Naquela época, eu estava como coordenador do setor. Eu trabalhei com o Micale em todo o processo, com o Odair como auxiliar. Eu fui um dos responsáveis pela formação da equipe técnica e pela escolha dos jogadores. Nós necessitávamos aquela medalha, foi muito bem-vinda para todos na CBF. Foi muito interessante", falou.
O treinador também lembra sobre os momentos de tensão que precederam a convocação final das Olimpíadas. Com muita alegria, mas sem esquecer as longas horas de trabalho que, no fim das contas, resultaram em um dos dias mais memoráveis de sua carreira e de sua vida.
"A gente ficou horas e horas analisando vídeos e pensando na melhor estratégia. O Micale passou a preparação toda jogando em um 4-4-2, e testou um sistema com três meio campistas também. A gente conversava muito sobre isso. O treinador precisa de pessoas que conversem com ele. Não é fácil tomar essas decisões. Acho que as nossas conversas sobre o sistema, e o tato dele em ter achado o posicionamento do Neymar, diferente do que ele vinha fazendo, foram muito boas. Foi muito merecido aquele ouro olímpico", acrescentou.
Depois do tempo glorioso na CBF, Maurício seguiu a carreira ao lado de Odair Hellmann, voltando aos clubes brasileiros. Para essa nova empreitada ao lado do também gaúcho, Dulac escolheu a função de auxiliar técnico, cargo esse que exerceu até o ano de 2025.
"Acho que, naquele momento, tinha chegado ao topo da minha ideia como analista. O Tite vinha me dando mais tarefas de campo na seleção. Eu fui aflorando, melhorando na minha capacidade de comunicação. Fiz essa transição e foi muito bom. Eu passei por todas as funções na comissão técnica. Eu vim me preparando e pensando como eu iria atingir o meu objetivo, de ser treinador", disse.
Apesar de ter seguido a carreira ao lado de Odair, Maurício lembra com muito carinho como a influência de Tite foi importante para que ele se tornasse o que é hoje. E não só ele: Abel Braga, Dorival Júnior e Celso Roth também têm grande importância nessa questão.
"O Tite é um cara que eu me espelho muito. Pela tranquilidade que ele tem, pela maneira dele de controlar e gerenciar as pessoas dentro de uma comissão técnica, além de ser um cara muito bom de campo. É um cara que me ajudou muito. Tem outros que eu posso falar. O Celso me ajudou a entender o mundo do futebol. O Dorival também me ajudou. O Abel foi um pai para mim, abrindo as portas da comissão técnica", pontuou.
"O Odair é um cara que eu tenho como exemplo. Também pela grande amizade que eu tenho com ele e pela maneira dele gerenciar as pessoas. É um cara que eu gosto bastante. Ele tem um coração enorme, sabe lidar com todo tipo de pessoa. Me ajudou muito. Ele viveu o futebol desde os 13 anos, morando no Beira-Rio, jogando na seleção. É um cara excepcional, que tem que ser exaltado. Quanto mais gente puder ter pessoas ao lado como ele, melhor", adicionou.
Mesmo após as temporadas por grandes clubes do Brasil, como Inter, Fluminense e Santos, Maurício nunca deixou de nutrir seu sonho de ser o treinador principal de uma comissão técnica. E, com o passar do tempo, ficou mais claro que era isso que ele queria para sua carreira.
"É aquele sentimento de querer liderar, de querer ser o cara a tomar as decisões. Eu percorri todos os caminhos na comissão técnica. Eu quis subir mais um degrau no futebol. Comecei no futebol em 2005, são 21 anos de carreira. Não foi de uma hora para outra essa decisão de virar treinador. Eu vim construindo ela com base e com ideias para chegar onde estou hoje", disse.
A proposta para virar treinador efetivo veio na temporada 25/26, na equipe sub-23 do Al Riyadh. Mas isso pouco durou: eu maus lençóis no Campeonato Saudita, a equipe da capital promoveu o brasileiro ao comando do time profissional, visando uma "missão impossível" para evitar o rebaixamento.
Maurício Dulac assumiu o comando da equipe profissional na 22ª rodada da competição. Na altura, o Al-Riyadh era o 16º colocado, primeiro dentro da zona de rebaixamento, com 13 pontos ganhos. Para confirmar a permanência, o clube precisava somar cerca de 18 pontos nos 14 jogos remanescentes. E o gaúcho abraçou o desafio.
"A equipe mudou completamente. O que fizemos aqui é muito mais do que um milagre. Nem mesmo as pessoas do clube acreditavam. Tínhamos 12% de aproveitamento até aquela altura. Eu só tinha que mudar a confiança dos jogadores, e foi isso que eu trabalhei. Era mostrar aos jogadores que eles tinham capacidade de fazer. Tá marcado na minha carreira. Ficou de lição para mim", respondeu.
O comandante até lembra com alegria desse período. Quando assumiu o cargo, Maurício conversou com o presidente da equipe sobre as pretensões para o restante da temporada. Foi aí que o gaúcho entendeu que a missão não era tão impossível assim. Os aprendizados são inesquecíveis.
"As vezes eu tinha caminhadas intermináveis com o presidente. Elas eram infinitas. Era mais para a cabeça do que para o corpo. Falávamos sobre a projeção do time. A meta era os 18 pontos. E, antes da última rodada, eu liguei de novo para ele e falei 'consegui os 18 pontos'. Nós fizemos projeções, de quais times poderíamos ganhar e quais times achei que perderíamos, nada daquilo funcionou. Mas nós conseguimos", respondeu.
"A lição que eu digo é que a gente, enquanto ser humano, fica ansioso para que as coisas se resolvam da maneira mais rápida. Se a gente trabalhar firme, respeitando as pessoas, o homem lá de cima nos ajuda. Eu acho que livrar a equipe do rebaixamento, da forma que foi, ficou marcado na história do clube e todas as pessoas aqui em Riyadh. Não só porque a gente se livrou, mas porque nós mudamos a identidade do clube, porque nós colocamos os moleques para jogar e porque no final a gente salvou o time no rebaixamento", adicionou.
E teve promessa envolvendo a dura tarefa. Em 2023, quando Maurício ainda era o auxiliar de Odair no mesmo Al-Riyadh, o gaúcho prometeu que tiraria a longa barba em caso de permanência. Três anos depois, a promessa se manteve, e todo o elenco cobrou...
"Em 2023 eu estava com uma longa barba. No fim do último jogo, o capitão do time chegou e raspou ela. Quando eu assumi o time, na última temporada, os jogadores sabiam disso, e pediram para eu tirar em caso de permanência. E o capitão tirou ela no fim, novamente. Mas, para a temporada atual, eu já falei com meus jogadores, já falei com as pessoas do clube. Espero não ter que eixá-la tão grande porque eu não quero lutar contra rebaixamento", disse em meio aos risos.
Agora, pela primeira vez em sua carreira, Maurício Dulac montará a equipe que vai treinar. O brasileiro participou ativamente da montagem do elenco e conseguiu trazer nomes como o atacante egípcio Trezeguet, o atacante senegalês Mamadou Sylla e o meia ganês Bernard Mensah. Tudo em busca de ter mais tranquilidade dentro de campo.
"Eu to bastante entusiasmado para a temporada. O clube renovou comigo por dois anos. Eles acreditam na minha ideia, gostam de produzir jogadores, produzir mais jovens. A gente construiu uma equipe melhor que a do ano passado. Peguei jogadores mais competitivos. para buscar estar um pouco mais acima na tabela. Tenho que ser honesto comigo mesmo e com o clube. A minha ideia é ficar ali entre o décimo e décimo segundo na tabela. Acho que a gente consegue", acrescentou.
Antes de assumir a equipe profissional do Al-Riyadh, Maurício treinou o time sub-23 e fez algo que considera primordial no futebol: preparar jovens. Como seu clube não é um dos mais endinheirados do país, a realidade obriga a venda de jovens para angariar fundos e reinvestir no futebol.
"Eu gosto, principalmente, de trabalhar esses jovens. A gente conseguiu um grande feito a partir disso, e eu vou seguir apostando nessa ideia. Se nós não desenvolvermos os jovens, não vai mais ter como fazer. Dos 22 atletas do meu grupo, 11 têm menos de 21 anos. É uma cultura que nós temos. Hoje nós estamos apostando nesses jovens para que a gente possa produzir mais", pontuou.
Outra coisa que Maurício gosta de trabalhar em seus jogadores é a confiança. Para o gaúcho, esse aspecto é primordial para que os atletas consigam desenvolver um bom futebol a fim de que o Al-Riyadh tenha os melhores resultados possíveis no fim das contas.
"Eu estudo muito mais a parte mental do que a parte tática. A confiança, para mim, é indispensável. Ela vem das repetições nos treinos. Quando tu consegue fazer bem feito no treino, tu leva para o jogo e tem sucesso. O meu princípio é de dar confiança para que o atleta possa decidir dentro de campo da maneira dele. Hoje, isso faz parte da cultura do nosso clube", pontuou.
Dentro das quatro linhas, Maurício entende que combinar a juventude e a experiência com a confiança podem dar ao time o que eles tanto esperam: resultados mais expressivos. E não há como ter mais sucesso no campo sem treinar. Mas, principalmente, sem competir.
"Um aspecto primordial para mim, dentro do nosso contexto, é competir. Defensivamente eu sei que vamos produzir, eu quero competir ofensivamente. Eu quero que eles joguem, quero que disfrutem. Espero que consigamos jogar um futebol bonito. Não quero ser o inventor da bola. Eu tenho trabalhado esse equilíbrio com meus atletas, mas principalmente a palavra competição. Ela tá inserida diariamente nos meus treinos e palavras com os jogadores", disse.
A temporada 26/27 já começou na Arábia Saudita. O Al-Riyadh de Maurício Dulac entrou em campo duas vezes: foi derrotado na estreia do Campeonato Saudita pelo Al-Ettifaq, por 4 a 2, e venceu o Al-Zulfi, por 2 a 0, na primeira partida da Taça da Arábia Saudita. Agora, resta ver o que sairá dessa mescla de juventude, esforço, treinamento e dedicação. Não só por parte dos atletas, mas também do gaúcho de 46 anos que, antes de treinador, é um ser humano como todos.
"A gente lida com muitas coisas. A carga que o treinador acaba acumulando nas costas, ela não é só do jogo, ela é gigantesca. Perdeu, tu é ruim, ganhou, tu é o melhor do mundo. Somos seres humanos também. É muito difícil de fazer. Mas eu amo tudo isso. Isso é a minha vida", respondeu.
O futuro de Dulac, porém, talvez não seja na Arábia Saudita. Com a demissão de Franclim Carvalho, o Botafogo, que vive um período de mudanças na diretoria, entrou em contato com uma sondagem e considera tirar o treinador gaúcho do Al-Riyadh. E um retorno ao futebol brasileiro não está descartado. "Acho que em breve vamos nos ver no Brasil", finalizou.
Essas são as características de um treinador que fez um "trabalho fantasma" na seleção brasileira, evitou um rebaixamento na Arábia Saudita, ganhou um novo contrato de dois anos e, agora, começa a chamar a atenção do futebol brasileiro. Talvez seja de juventude, confiança e experiência que o Botafogo esteja atrás ao sondar Maurício...
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