Danilo Avelar relembra bastidores do Corinthians, analisa Diniz e Memphis e abre o jogo sobre trajetória no clube | OneFootball

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·13 de setembro de 2026

Danilo Avelar relembra bastidores do Corinthians, analisa Diniz e Memphis e abre o jogo sobre trajetória no clube

Imagem do artigo:Danilo Avelar relembra bastidores do Corinthians, analisa Diniz e Memphis e abre o jogo sobre trajetória no clube
  1. Por Mirella Ramos / Redação da Central do Timão

Danilo Avelar voltou a falar sobre a relação construída com o Corinthians e revisitou alguns dos capítulos mais marcantes de sua passagem pelo Parque São Jorge. Em participação no Resenha do Lounge, o ex-jogador comentou o momento atual do clube, avaliou a permanência de Memphis Depay, analisou o trabalho de Fernando Diniz e relembrou desde as dificuldades de sua chegada até o título paulista de 2019.

Avelar defendeu o Corinthians entre 2018 e 2020. Ao todo, disputou 110 partidas, sendo 105 como titular, marcou 12 gols e deu três assistências. A principal conquista aconteceu justamente em 2019, quando foi campeão paulista e teve participação decisiva na campanha.


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Foto: Rodrigo Coca/ Ag. Corinthians

Hoje aposentado dos gramados, o ex-lateral e zagueiro também contou como transformou uma preocupação antiga com o fim da carreira em uma atuação voltada ao empreendedorismo e à preparação financeira de outros atletas.

Avelar vê turbulências como parte da história do Corinthians

Logo no início da conversa, o ex-jogador foi questionado sobre o cenário vivido pelo Corinthians em 2026. Avelar relacionou os problemas atuais a outras temporadas turbulentas que acompanhou de dentro do clube e destacou a capacidade de recuperação que, em sua visão, acompanha a história alvinegra.

“Eu confesso que me chamavam mais de Avenida, né, e não de Avelenda. Avelenda foi poucas vezes. Mas fico feliz por estar aqui, num lugar que foi muito especial para mim. Vivi as maiores adrenalinas da vida. E, obviamente, acho que, assim, todo ano, em toda a história do Corinthians, foi sempre desafiador, né? Seja com craques, seja com time mediano, seja com grandes estrelas. Sempre é um ano desafiador. E esse ano, principalmente, né? Eu lembro que, quando eu jogava no Corinthians, todo ano que era ano político tinha também as suas turbulências dentro de campo. Isso é uma coincidência muito interessante. E esse ano não é diferente, né? O Corinthians vem aí surfando seus altos e baixos. Mas, no final, sempre dá bom. Essa é a grande verdade. Sempre o corinthiano, o clube, consegue se reerguer, né?”

Permanência de Memphis recebe aprovação

Outro tema abordado foi Memphis Depay. Depois de uma longa indefinição sobre sua continuidade, o holandês permaneceu no Corinthians. Para Avelar, independentemente do peso financeiro da operação, manter um jogador de projeção internacional é importante também para a marca do clube.

O ex-jogador ressaltou ainda o componente mental necessário para defender o Corinthians e comparou a adaptação de Memphis ao que viveu durante os nove anos em que atuou no futebol europeu.

“Eu acho que, independentemente da parte financeira, o Memphis ter ficado é um grande acerto. Lógico que isso pode complicar, nos próximos anos, a situação do clube financeiramente. Ou até mesmo o atleta não render, porque isso acontece, né? Não é nenhuma garantia de que, nos próximos dois anos, ele vai render bem, como eu acho que ele rendeu super bem nos últimos anos. Mas, para a marca Corinthians, ter um cara de nível internacional é muito importante. E, independentemente da fase em que um astro como o Memphis está, ele sempre pode ser um cara muito decisivo. Principalmente na parte mental, que é um dos pontos mais importantes e pouco treinados no futebol. E, se tratando de Corinthians, o atleta que não tiver o mental preparado, pode ter certeza de que ele não tem capacidade para ser um jogador de Corinthians.

Então, eu acho que, no final, foi muito bom. Eu confesso que, em determinado momento, eu achei que não ia dar certo, porque é muito… A gente também. É muito raro você ver um jogador estrangeiro, quando acaba um contrato, meio que permanecer ainda no país. Ele estava ali mostrando, ele deu algumas entrevistas, né? Meio que, tipo: ‘Estou aí, gostei do Brasil, amo o Corinthians, tenho uma baita identificação’, né? Então, eu acho que o final dessa novela holandesa foi muito positivo para todos os lados. Eu acho que o Memphis está muito feliz também, ele entendeu. E é muito importante esse tempo para o estrangeiro. Eu fiquei nove anos na Europa. Você chegar lá em um, dois anos e achar que está preparado é muito difícil. Então, acredito que agora… Acho que ele ficou dois anos no Corinthians, né? Sim, chegou em 2024, vai fazer dois anos agora, no mês de setembro. Então, eu acho que a adaptação dele vai ser muito melhor em aspectos culturais, em aspectos de torcida, em aspectos de idioma. E eu acho que isso vai facilitar muito também a parte em campo.”

Avelar também se disse surpreendido pela maneira como o holandês absorveu características da cultura corinthiana. Para ele, a experiência acumulada por Memphis em diferentes países contribuiu para o processo de adaptação.

“É, eu confesso que eu saí do Brasil e fui para a Ucrânia. Depois, eu fui para a Alemanha, depois para a Itália e para a França. Você mudar radicalmente a cultura do país, onde envolve idioma, comida, temperatura, fuso horário, é muito difícil. E, ao mesmo tempo, você tem que ter alta performance dentro de campo, e o torcedor não está nem aí se você está se adaptando. Então, para o atleta, é um desafio muito grande, né? Por mais que a gente fale que, dentro de campo, a gente tem um idioma global, você pode jogar em qualquer lugar do mundo e vai conseguir entender, pelo menos, o que está acontecendo.

Mas o Memphis é um cara muito rodado, isso ajuda muito. E, quando você roda vários países, a sua adaptação ao novo país é muito mais fácil. Desde o idioma, desde respeitar a cultura, desde entender as raízes. Eu vou ser bem sincero, eu não imaginava, quando o Memphis chegou, eu imaginava que ele ia ser um cara muito mais midiático, muito mais popstar. E ele mostrou uma identificação e respeito com o clube que me surpreendeu. Coisa que, assim, ele ensinou muitos brasileiros como olhar para um clube diferente. A verdade é essa, né? As suas raízes, na sua cultura, no seu respeito, no seu comportamento, na sua postura, os altos e baixos. Então, você vê que a mentalidade de quem roda o mundo em vários lugares te dá amplitude para você ter um bom relacionamento, um bom comportamento. Óbvio que, se não render em campo, vai ser criticado do mesmo jeito. Mas ele mostrou um lado muito mais, assim, educacional e importante.”

Ex-Corinthians analisa modelo de Fernando Diniz

Ao falar sobre Fernando Diniz, Avelar destacou principalmente a personalidade do treinador para sustentar sua proposta de jogo independentemente do clube que comanda.

O ex-defensor também explicou, a partir da visão de quem já enfrentou equipes de Diniz, por que considera o modelo complexo e dependente de entrosamento. Na avaliação dele, a construção desde a defesa exige coragem, repetição e conhecimento profundo do comportamento dos companheiros.

“Cara, eu acho que o Diniz… O que eu gosto do Diniz, independentemente de resultado, é a personalidade dele de manter a mesma essência onde ele vai. Lógico, cada clube tem o seu elenco, que pode se adaptar ou não ao estilo de jogo dele. Falar para você que é fácil você se adaptar ao estilo do Diniz, não é. Eu nunca joguei com ele, mas todo mundo que jogou com ele fala. É muita intensidade, os treinos aumentam muito mais a força, porque ele exige muito em campo a posse da bola, a construção da jogada. E, lógico, quando você joga contra o Diniz, são muito óbvias duas coisas. Uma, que é um cara que vai agressivar você porque ele quer tomar a bola. E a outra, que ele te convida muito para entrar na zaga do time dele. Porque ele… É muito óbvio, né? Eu falo que futebol é um pouco de matemática. Se você tem 11 jogadores no meio do campo defendendo, você precisa criar uma superioridade numérica para ter uma vantagem. Como é que você faz isso? Colocando todo mundo para frente.

Lógico que não dá para fazer isso. Então, o Diniz, em tese, ele chama todo mundo para a zaga do Corinthians e fala assim: ‘Vem aqui roubar a bola de mim’, porque você vai tirar o teu time da zaga e vai abrir espaços para eu fazer os contra-ataques. Essa é um pouco da lógica. Claro que você precisa ter qualidade, o jogador precisa ter confiança para fazer, porque é uma zona de risco. Ele precisa estar muito bem entrosado, porque, na maioria das jogadas, você precisa nem observar onde o jogador está.

Você precisa saber onde o teu companheiro está. E isso demanda concentração, treino, repetição, entrosamento, manter o elenco o máximo possível e não rodar tanto, porque você começa a entender muito mais o comportamento do meu adversário. Eu lembro, quando eu jogava no Corinthians, eu era lateral-esquerdo. Se eu tinha o Henrique como zagueiro, o Manoel como zagueiro ou até mesmo o Gil, eu sabia exatamente o que cada um fazia quando recebia a bola do Cássio, por exemplo. Se recebia com a perna direita, se recebia com a perna esquerda, se eu tinha que virar o corpo. Então, isso é você entender o teu companheiro, porque, com base no que ele for fazer, você consegue projetar a jogada. E, com o Diniz, é um pouco disso. Além da parte técnica que ele exige, a tática precisa estar muito bem organizada. Por isso que tem jogos em que o Corinthians vai muito bem, que ele manda no jogo, que ele tem uma superioridade muito forte, e tem outros em que ele não consegue fazer nada. E isso não é porque os jogadores desaprenderam a jogar bola ou deram, sei lá, algum pane.

É porque, às vezes, não entrosou, o jogador que precisava estar em uma posição não chegou a tempo. Isso compromete vários pilares, que é um joguinho de xadrez, o futebol, para poder fazer funcionar. Porém, o estilo de jogo do Diniz é um jogo bem agressivo. Mas, para funcionar, você precisa ter jogadores que entendem o que ele quer. E, para você entender o que um treinador te demanda para fazer, precisa de tempo. Que, infelizmente, é uma coisa que no Brasil não tem. Então, se um treinador fica uma temporada no Corinthians mal, muito possivelmente ele vai embora. Então, o time que começou a pegar o jeito, a manha, a ideia, os macetes, os atalhos, que iria performar melhor nos outros anos, vai perder tudo aquilo. Porque vai chegar outro treinador, com outra metodologia.

O que era um Diniz muito intenso pega um treinador que gosta de baixa intensidade, posse de bola, e aí os treinos caem muito, aumenta a lesão, aumenta o desânimo, um monte de coisa. Então, de modo geral, eu gosto do estilo de jogo do Diniz. É um cara que encoraja muitos jogadores a jogar. E falta um pouco disso no Brasil. Porque, eu não vou mentir, teve vários jogos que eu joguei aqui em que eu não estava confiante. E, às vezes, dava medo de pegar na bola, porque eu sabia que ia errar. Agora, se tem um líder do lado e fala assim: ‘Eu não me importo com o teu erro, desde que você tente, acredite, tenha coragem’, isso dá uma motivação a mais para o jogador fazer aquilo que ele sabe fazer melhor. E aí saem as grandes jogadas, os grandes lances, que é o que, às vezes, a gente consegue enxergar durante um jogo.”

Pressão de 2018 e aposta pessoal para permanecer no Corinthians

Ao revisitar a própria passagem, Avelar apontou 2018 como o período mais complicado. Ele chegou emprestado pelo Torino em meio a uma temporada turbulenta do Corinthians e sofreu críticas enquanto tentava se adaptar ao clube e convencer a diretoria a comprá-lo em definitivo.

O ex-jogador revelou ainda um detalhe do acordo realizado para viabilizar sua chegada. Segundo ele, aceitou o risco de retornar ao clube italiano recebendo um salário muito inferior caso não fosse adquirido pelo Timão.

“Legal. Cara, eu acho que a mais difícil para mim foi em 2018, que foi o ano em que eu cheguei. O Corinthians vinha de três anos seguidos sendo campeão paulista. Uma autoridade absurda. E eu chego em junho de 2018 e o time não estava bem. A gente passou mal no Brasileirão e, mesmo assim, chegamos na final da Copa do Brasil, que a gente perdeu aqui para o Cruzeiro. Por que foi difícil para mim? Porque a forma como eu cheguei no Corinthians, e isso talvez poucas pessoas saibam, eu vim emprestado do Torino por um ano. Então, eu tinha um ano para provar para o Corinthians que eu tinha capacidade para ele me comprar. Quando eu faço 2018 e a gente perde aquela final, eu falei: ‘Fodeu’. Porque, se a gente fosse campeão, eu tinha grandes chances de o clube me comprar.

E foi um ano em que a torcida não me conhecia, em que eles eram acostumados com o Arana, que era agressivo, driblava, e eu era um perfil muito mais conservador, muito mais defensor, muito mais técnico e tático. Então, a torcida não entendeu o meu perfil e eu demorei para pegar um pouco o dinamismo do Corinthians. Então, foi um ano em que eu fui muito, mas muito criticado. E eu viro 2019 com muitas pontas de interrogação. Eu falo assim: ‘Eu tenho só o Paulista para provar que faz sentido eu ficar aqui, senão eu ia ter que voltar para o Torino’. E eu fiz um acordo com o Torino, que posso abrir aqui, muito curioso. Eu tinha um bom salário no Torino e o Torino não queria me liberar para o Corinthians. Por quê? Porque o Corinthians não queria pagar pelo empréstimo. Ele falava: ‘Eu não conheço o Avelar, ninguém conhece o Avelar, o Avelar vem de uma temporada mediana e eu não tenho capacidade financeira para comprar’. Nessa reunião, que eu vi que ia dar errado, eu levantei a mão para o diretor e falei assim: ‘Vamos fazer o seguinte, então: eu abro mão do meu contrato. Caso o Corinthians não me compre, eu volto para o Torino com um salário mínimo de 1.500 euros’.

E eu tinha mais dois anos de contrato. Então, em tese, o que isso quer dizer? Que eu fiquei 2018 inteiro com dois pesos na cabeça. Um, para o Corinthians me comprar, e dois, se eu voltasse, eu ia voltar recebendo um salário mínimo de 1.500 euros. Então, literalmente, eu arrisquei a minha vida. Graças a Deus, e respondendo à sua pergunta, 2019 foi o melhor ano da minha vida. Foi o ano em que a gente foi campeão, foi o ano em que eu fiz bastante gol, em que eu fui eleito o melhor lateral do Campeonato Paulista, fui comprado pelo Corinthians, tirei um piano gigantesco das costas e o gol mais importante, sem dúvida, foi contra o Palmeiras, na casa do Palmeiras, onde ali mudou a minha vida absurdamente.”

Título paulista de 2019 marcou passagem

A reviravolta aconteceu em 2019. Avelar terminou a competição estadual como campeão, foi eleito o melhor lateral do torneio e marcou um dos gols da final diante do São Paulo, na Neo Química Arena.

Ao recordar a decisão, contou que o lance havia sido repetido nos treinamentos e colocou a conquista ao lado da Copa da Alemanha, vencida pelo Schalke 04, entre os dois títulos profissionais de sua carreira.

“Então, para comentar um pouquinho dessa final. É engraçado que a gente estava absurdamente confiante de que a gente ia ser campeão, e é uma coisa que é inexplicável. Isso é muito interessante, né? E, óbvio que eu, principalmente, estava muito confiante. Eu já cheguei na final sabendo que eu tinha sido eleito o melhor lateral. Isso aumentou mais a minha confiança. E o primeiro jogo lá no Morumbi eu não tinha jogado. Eu estava suspenso ou machucado, eu não lembro, jogou o Carlos Augusto. Então, no jogo da final, o meu gol que aconteceu foi um gol 100% treinado. Dava para perceber. 100% treinado. Era a bola do Sornoza lá no Ralf, eu, Henrique e acho que o Manoel no segundo pau para disputar uma bola ali e brigar. E aconteceu exatamente como a gente treinou. É impressionante. Então, foi assim, um jogo muito legal, lógico. Depois teve, até esses dias eu estava com o Antony e a gente estava lembrando, porque o Antony que fez o gol do empate em cima de mim, inclusive. Falei: ‘Pô, Antony, caraca, aquele jogo lá quase você me fudeu’.

Ele falou: ‘Vocês é que não fuderam nós’, virou uma brincadeira assim. E depois, no final, o Love consegue fazer, equilibra esse gol e coroa. Eu, sim, foi um momento… Eu tenho só dois títulos profissionais na carreira. Um como campeão da Copa da Alemanha pelo Schalke e o outro pelo Corinthians. E eu confesso que, para um atleta, às vezes é pouco, né? Porque o atleta, talvez, tirando a maioria dos atletas, ele perde muito mais do que ganha. Perde muito mais do que ganha. Tirando as exceções, né? Cristiano Ronaldo, Messi, esses caras. E, quando a gente ganha um título, é impressionante a sensação de que a gente fica assim: ‘Meu Deus, isso aqui é mágico, isso aqui é estratosférico, olha que delícia, que prazer, quero mais’. Você vira uma sede de ambição por mais títulos, que é impressionante. Então, ter realizado o sonho de jogar no Corinthians, ter sido capitão, isso para mim é muito importante, porque eu joguei com o Cássio, e você ser capitão com o Cássio em campo, isso mostra um outro lado do atleta. E ganhar um título, fazendo o gol na final, eu acho que não teria roteiro melhor que esse na minha trajetória, que eu jamais na vida imaginaria.”

Virada contra o Avenida também ficou marcada

Outro jogo lembrado foi a vitória sobre o Avenida pela Copa do Brasil de 2019. O Corinthians chegou a ficar em situação delicada, mas reagiu durante a partida. Avelar marcou o gol de empate e protagonizou uma comemoração que se tornou uma das imagens de sua passagem.

“Cara, por que enlouquecedor? Com todo respeito ao Avenida, mas você perder da maneira que a gente ia perder são dois problemas. Um, que você ia ser eliminado, o outro, que você ia ser massacrado pela torcida, ia ter guerra o resto do ano. E o jogador sabe disso, isso vira uma pressão. Se o cara não souber transformar em uma pressão positiva, ele sofre. Então, quando acontece aquilo lá, a gente faz o primeiro gol e eu faço o gol do empate, aí vem uma força de camisa do Corinthians que é inexplicável. Você fala assim: ‘Agora ninguém me segura, porque eu vou atropelar todo mundo’. Então, foi um misto de alívio, porque, quando você empata, você sabe que vai vir a força da virada. Então, eu descarreguei realmente ali uma adrenalina.

E é engraçado que várias pessoas falam, porque você ter essa comemoração no clássico é muito óbvio. Você ter essa comemoração contra um Avenida, com todo respeito, não é normal. É diferente. É diferente. Então, eu literalmente lavei a alma, porque eu sabia que a gente ia conseguir fazer uma virada ali importante e, de fato, foi muito assim, à la Corinthians, sofrendo. Mas aí que a gente mostra. Até a gente brinca no vestiário: ‘Pô, precisa ser tão difícil assim, cara? Precisa ser um enfrentando? Para que ser um enfrentando, cara?’. Óbvio que são consequências. Ninguém é besta hoje. Todo mundo tem formação. Todo time chega preparado. E, na hora que o juiz apita, é o teu emocional ali. Se você não ligar a chavinha, vai ser atropelado. E foi o que aconteceu contra o Avenida ali no começo. Graças a Deus, deu tudo certo. Senão, ia virar uma chacota aí.”

Avelar troca gramados pelo empreendedorismo

A carreira profissional terminou em 2023, após passagem pelo América-MG. Diferentemente de muitos ex-atletas que seguem imediatamente para funções dentro do futebol, Avelar decidiu desenvolver um caminho que já vinha construindo enquanto ainda jogava.

O ex-corinthiano contou que começou a empreender ainda adolescente e passou a investir em diferentes setores quando foi para a Europa. Com o passar dos anos, a preocupação com o pós-carreira se tornou parte importante de seu planejamento.

Atualmente, Avelar atua especialmente na gestão financeira, criação de negócios e conexão de jogadores com oportunidades de investimento. Na visão dele, preparar atletas para a aposentadoria é uma maneira de devolver ao esporte parte do que recebeu durante a própria trajetória.

“Eu empreendo desde os meus 16, 17 anos. É porque meu pai vinha para São Paulo trabalhar e eu vinha com ele comprar pipa na 25. Chegava no Paraná, vendia o dobro para os meus amigos, fazia um dinheirinho, ia na lan house, gastava tudo, mas fazia um dinheirinho. E comecei a fazer várias coisas logo. Fui muito cedo para a Europa. Fui com 19 anos para a Europa, onde comecei a ganhar meu primeiro dinheirinho, ganhava em dólar. E comecei a colocar umas metas na minha cabeça porque queria investir, queria apartamento. Eu sabia, sempre soube que nunca fui um cara muito talentoso. Sempre soube que não seria um desses caras craques, que ganhariam milhões e milhões de reais de salário. Isso estava muito claro para mim. Então, tinha que ganhar a minha vida de uma outra forma, com persistência, consistência, com inteligência fora de campo, construir um patrimônio. Eu sabia que a minha carreira não é eterna, acaba muito jovem. Eu aposentei com 35 anos, é bizarro falar isso. Então, sempre me preocupei com o pós-carreira. Durante a minha jornada de atleta inteira, sempre fui empreendedor, investidor. Investi em tecnologia, em rede de franquias, em restaurantes, em bar, em empresas de eventos. Lógico que eu apanhei muito mais do que ganhei dinheiro.

É a dor do empreendedor. Faz parte. Porque botava o dinheiro na mão de alguém, você confia. Então, é um pouco disso. Quando eu já começo a preparar a minha aposentadoria, eu já estava ativo nas minhas empresas. E eu falei: ‘Bom, eu coloquei na balança um ponto muito importante’. Eu fui um cara que tive algumas lesões importantes e eu vi que a minha carreira estava caindo muito fisicamente e também financeiramente. E eu comecei a comparar com os meus negócios. Falei assim: ‘Se o meu negócio começar a me dar um tempo, prazer e dinheiro mais do que o futebol, eu paro’. E eu sempre me preocupei em parar de uma forma igual um DJ que faz uma música. Ele nunca para uma música para começar outra. Ele faz o loop automático. Por quê? É muito comum um atleta parar e falar assim: ‘Nossa, agora eu tenho liberdade para fazer o que eu quiser’, e é isso. E o atleta… Existe uma coisa que se chama crise de identidade pós-futebol. Eu vivi num mundo de 20 anos de pressão, de cobrança, de crítica e de previsibilidade. Eu sabia que meu ano inteiro seria jogando, treinando, jogando, treinando, viajando, jogando, treinando. Quando eu parei, eu falei assim: ‘Fudeu, hoje eu posso tudo’. Eu posso não treinar, eu posso comer doce, eu posso tomar cerveja, posso fazer o que eu quiser.

Essa liberdade hoje virou o meu maior inimigo. Porque eu posso procrastinar, eu posso não fazer, e vira um perigo. Então, sabendo disso, eu comecei a ativar os meus negócios e, hoje, como eu gostei muito do empreendedorismo, eu quis fazer empreendedorismo com atletas, porque as estatísticas são muito tristes. Tem uma estatística da FIFA e da Forbes que fala que, após cinco anos de aposentadoria, a maioria dos atletas perde tudo. Porque ele se dá o luxo de ficar um ano sem fazer nada, ele não consegue abaixar o padrão dele, ele não consegue fazer dinheiro novo. Imagina só, a maioria daquelas pessoas são do mundo corporativo. Me fale como é que faz para ganhar 500 mil reais, hoje, no mundo corporativo. É muito difícil. Como é que um atleta, hoje, que ganha meio milhão, 300 mil, um milhão, vai parar e vai ganhar os mesmos meio milhão, um milhão, fora do futebol? É muito difícil. Tem que ser um baita executivo, ele não vai ter tempo para se preparar para ser um grande CEO de uma multinacional, que vai ter seus bônus, seus prêmios. Então, pensando nisso, eu falei assim: ‘Cara, preciso, de uma certa forma, contribuir com esses atletas no pós-carreira, na transição, na gestão financeira’, que é o que eu me especializei hoje. Então, hoje, eu tenho muitos atletas, inclusive que foram do Corinthians, de outros clubes, que estão dentro do meu ecossistema, que a gente ajuda na parte de gestão financeira, abertura de empresas, empreendedorismo junto.

Hoje, eu tenho um fundo de investimento americano que a gente investe em negócios do esporte e eu trago atletas para investir junto, para respirar esse mundo do empreendedorismo. Porque, na minha tese, e eu tenho um amigo meu, jogador, que é muito, muito rico, jogou na China há muito tempo, virou até chinês, e ele ainda está curtindo a vida, e dificilmente vai acabar o dinheiro dele. E eu brinco com ele e falo assim: ‘Cara, às vezes, a única coisa que você tem hoje é dinheiro’. Porque, em algum momento da sua vida, você é jovem, o dinheiro não vai fazer sentido na sua vida. Porque você vai precisar da adrenalina, da rotina, da responsabilidade, de pagar um boleto, de entender como é que fala com pessoas, só tem 36 anos, a vida está longa pela frente. Então, se não tiver alguém do lado instruindo esse cara, ele vai fazer merda e vai entrar nas estatísticas que eu acabei de falar. Então, hoje, eu me posiciono muito nesse lado do empreendedorismo, do ex-atleta e empreendedor, porque, jogando no Corinthians, eu entendi uma coisa: o Corinthians abre portas absurdamente em qualquer setor de negócio. Todo empresário, empreendedor, quando fala de esporte, ele abre o coração. E eu entendi isso. E eu falei: ‘Vou usar isso a meu favor para que, quando eu parar, eu consiga conectar com essas pessoas’, que é o que estou fazendo hoje. Então, hoje, eu consigo ter acessos que jamais imaginaria na minha vida que eu teria, de grandes fundos, de grandes empresários, de grandes executivos, de grandes CEOs. Então, vira e mexe, mando uma mensagem, tomo um café, porque é a minha forma de aprender com esses caras, de estudar, de aperfeiçoar, de saber qual é o caminho, qual é o trilho e puxar toda essa galera junto comigo.

Então, esse é um pouco do meu movimento hoje. Eu digo que todo atleta precisa deixar um legado para o esporte que lhe deu tanto. O esporte me deu muita coisa. E, de certa forma, eu preciso ter uma gratidão. Estar na beirada de campo, estar dentro de um clube, para mim, eu não me vejo ainda. Então, a forma que eu enxerguei de contribuir com o esporte é ajudando os próprios atletas nessa transição para que, futuramente, todo mundo fale: ‘Que legal essa empresa que o Wagner Love tem, que o Yuri Alberto é sócio, que o Memphis está investindo’. Para mim, isso é um baita negócio. E não tem ninguém fazendo. Então, é um pouco do que me espelho nos atletas americanos, que estou tentando replicar aqui para esses atletas com um pouco de consciência. É uma galera que é muito imediatista, não consegue prever o futuro, não consegue entender um pouco de imposto, de Selic, de juros, de política. E a gente precisa entender isso. A verdade é essa. O Brasil vive em uma situação muito difícil em que não adianta nada você só jogar bola.

E eu entendi isso depois, porque o atleta vive em uma bolha muito blindada. Eu não entrei no futebol, eu nasci dentro do futebol. Eu não tenho culpa por isso. E, quando saí, com 35 anos, fui entender o real mundão que tem pela frente. Então, brinco que o atleta vive em uma bolha em que não sabe o oceano que tem por fora. Na hora que ele sai desse aquário e vê que tem um oceano, ele se perde. E é onde ele se afunda. E é onde ele fica perdido. É onde o ego, a vaidade dele, não consegue pedir ajuda. E, infelizmente, são todas as notícias tristes que a gente vê de ex-atletas falidos, quebrados. Então, se eu estou vendo isso e eu sei que posso agregar, é muita injustiça da minha parte eu não poder ajudar. Então, é um pouco desse movimento que é mais difícil, mas é mais duradouro, que é do lado do empreendedorismo para os atletas.”

A passagem de Danilo Avelar pelo Corinthians terminou com 110 jogos, 12 gols e o título paulista de 2019. Anos depois de deixar os gramados, o ex-jogador segue tratando o período no Parque São Jorge como um dos pontos centrais de sua trajetória, tanto pelas experiências dentro de campo quanto pelas conexões que levou para a vida depois do futebol.

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