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·07 de junho de 2026

David Pastor e o 'sapatinho da humildade' sobre a alegria de jogar futebol

Imagem do artigo:David Pastor e o 'sapatinho da humildade' sobre a alegria de jogar futebol

Depois de superar vários obstáculos para chegar até o profissionalismo e no futebol búlgaro, o alegre Pastor, aos 26 anos, tem um foco bem definido para o seu futuro: chegar no alto escalão do futebol mundial. E para isso, não tem resposta melhor que o trabalho e que a humildade.

"Eu sempre gostei muito de trabalhar. Trabalhei bastante para chegar até aqui hoje. As pessoas que estão do meu lado são um combustível para mim e eu preciso correr para elas. O cara que chegou em Portugal com 50 euros no bolso e totalmente perdido, cinco anos depois vai jogar a Liga Europa", disse David Pastor, em entrevista exclusiva a oGol.


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Para entender o tamanho da vitória do hoje adulto David, é necessário voltar alguns anos no passado, para dialogar com o menino David. Como grande maioria dos brasileiros, Pastor começou jogando bola na rua e se formou no futsal, mas tem como inspiração de infância o volante Sandro, algo incomum.

"A gente brincava com golzinho e tal entre os viadutos, no espaço das construções no Arapoanga, em Brasília. E lá tinha o Sandro, que jogava Champions pelo Tottenham. Cara, todo mundo se inspirava nele, e eu falava que queria ser igual ele. Aí eu comecei a jogar futsal, e como goleiro (risos), mas fui para a linha, comecei a ganhar uns regionais e cheguei ao campo. Eu era muito veloz, era 'sequinho' e habilidoso, por conta do salão. Ali por 2017, eu não sei quantas vezes fui reprovado em testes, até o Elosport abrir as portas", pontuou.

 Foi na equipe de Capão Bonito que Pastor teve as primeiras oportunidades no futebol, disputando três vezes a Copinha e se tornando o único que teve sucesso de sua geração no clube, ao chegar no Londrina. O sarrafo subiu no Tubarão, assim como a competitividade, o reconhecimento e a animosidade. Mas o "sapatinho da humildade" sempre esteve no guarda-roupas de David.

"Eu não era o mais técnico, até pela idade, mas também pelo elenco do Londrina. Tinha Dagoberto, Germano, etc, era só gente absurda. Mas eu sempre estava ali me dedicando em prol da equipe. Eu ainda não tinha ganhado nada, eu era pequeno. O Anderson Oliveira, meu treinador lá, falava que 'você vai decidir onde você quer jogar'. Eu falava que queria ir para a Premier League e ele respondia 'vai, mas tem que treinar mais, tem que se dedicar mais'", acrescentou.

Depois de maturar no Paraná, e estrear profissionalmente com o azul e branco em 2019, Pastor viu seu contrato com o LEC acabar e acertou com a Ferroviária, equipe que, na altura, tinha um ambicioso projeto de deixar a Série D e chegar ao topo do cenário nacional. Em 2025, a Locomotiva chegou à Série B, mas enquanto o lateral lá estava o clube só bateu na trave, abrindo os cofres e seguindo na quarta divisão.

O sapatinho da humildade, algo imprescindível em sua carreira, faltou durante a pandemia. Enquanto equipe recém-adquirida, a Ferrinha manteve os pagamentos em 2020, montou uma equipe digna de Séries B e C para a quarta divisão nacional e enfrentou o Marcílio Dias no primeiro mata-mata da D. Enquanto os adversários tinham cerca de 15 baixas por Covid-19, a Ferroviária chegou com força total, mas você já sabe...

"A gente entrou de salto alto. Enquanto todos tinham dificuldades, a gente sustentou e manteve tudo. Você se sente mais em cima, rodeado de jogadores de calibre. Você pensa que não perde para mais ninguém. Tinha muito autoconfiança e a gente relaxou. Eles não tinham qualquer favoritismo, mas colocaram o coração na ponta do pé, como tinha que ser. Aí não deu", disse o defensor.

Europa no horizonte

Com apenas 17 jogos em dois anos na Ferroviária, Pastor foi tentar a sorte no Velho Continente. Portugal apareceu no horizonte e o primeiro destino foi o Leixões, por empréstimo da equipe grená. Mas foi só no Farense, seu terceiro clube no exterior, que as coisas começaram a caminhar.

A adaptação não foi dura por conta da cultura e da língua, isso David tirou de letra, mas a preocupação tática foi uma questão. Quando deixou o Brasil, Pastor era mais um ala que um lateral, com virtudes principalmente ofensivas, o que teve de mudar na marra, para o jogador ter sucesso ao lado dos tugas.

"Eu cheguei de teste e nem sabia. O mister disse 'tu tás aqui, tu vai ter que dar teu máximo'. Lá eu tinha que pensar primeiro na defesa e depois no ataque. Eu achava que pelo vigor dava para recuperar, porque eu sempre fazia isso. Mas precisei me adaptar ao jogo tático. A minha primeira tarefa tinha que ser defender, e eu tinha que ser perfeito taticamente. Depois do treino eu ficava lá para ajustar isso, e valeu muito à pena", disse.

"Aqui é um jogo muito rápido, porque tem um posicionamento tático. Essa é uma diferença muito grande do Brasil e muitos jogadores que vêm para cá tem dificuldade nesse aspecto. Às vezes alguns chegam com qualidade de sobra aqui, mas falta a questão tática. O que me ajudou muito nisso foi o 'querer aprender'. Tudo é sobre querer", continuou.

Pastor chegou no Farense no meio da temporada 22/23, quando a equipe ainda disputava a segunda divisão, mas estava em bons lençóis para subir à elite. Tão bons que a promoção veio e o clube ficou duas temporadas na elite, ambas com o brasileiro de titular.

"Quando eu cheguei não tinha muito espaço, o treinador antigo falou que eu teria de ralar, pois ele já tinha dois laterais direitos. Uma semana depois, o treinador cai e chega o José Mota, que tinha me pedido no Leixões. Olha como o mundo do futebol é. Aí eu assumi a posição, joguei o restante da época e segui titular na primeira liga", afirmou.

Para se fixar na Europa

Depois de quatro temporadas e três clubes em Portugal, Pastor decidiu mudar de ares. Mesmo com Corinthians e Vitória SC no radar, o lateral fechou com o CSKA Sofia, maior campeão da Liga Búlgara que vinha em anos de jejum. E essa foi a melhor escolha ao defensor.

"É uma realidade totalmente diferente, porque quando você sai de um país para outro na Europa, você imagina que ou vai ser parecido. Mas tudo aqui é muito diferente. Eu me surpreendi com a estrutura que o CSKA tem, o suporte que eles dão para os jogadores, as condições financeiras, tudo. É um gigante, e depois eu fui entender isso", pontuou.

E a adaptação do brasileiro foi praticamente imediata no futebol búlgaro. Apesar de alguns problemas no primeiro semestre de sua temporada de estreia, Pastor "se virou", deu a volta por cima e terminou 25/26 como a temporada com mais jogos em sua carreira até aqui, e com seu primeiro título profissional.

"Eu sempre gostei de trabalhar, mas tive uns problemas que me tiraram da linha. Quando eu voltei, eu estava mais inspirado do que nunca, com a cabeça focada no título. Eu sou extrovertido, e isso me ajudou. Eu fui acolhido muito rápido, transmitia energia e o pessoal curtiu. Foi tudo muito bom", afirmou.

"Quando você sai da lama, é muito fácil voltar para lá. Se eu acordo todos os dias com saúde, eu tenho que agradecer. Não tem motivo para ficar triste. Tem que fazer tudo com alegria, e isso ajudou na adaptação. É muito bom quando você chega e as pessoas te abraçam. Eu me senti em casa e fui campeão", continuou falando.

Apesar do fim glorioso, com o título da copa local, o CSKA Sofia não começou a temporada voando. Muito pelo contrário, o início de 25/26 foi turbulento. A equipe só foi vencer na sétima partida da temporada e, nos dez primeiros jogos, somou uma vitória, seis empates e três derrotas. Foi quando a força do elenco falou mais alto.

"Acho que cada um olhou para dentro de si e repensou tudo. 'Será que a gente é tão ruim?' Tinha muita pressão, da diretoria, da torcida. Nós entendemos que a chavinha tinha que virar. A nossa cabeça estava detonada, imploramos por um psicólogo na equipe. Só dependia da gente", pontuou.

"Aí a gente mudou nossa mentalidade, começamos a acreditar mais em nós mesmos. Era nós por nós. Com o novo treinador, que implementou mais assertividade, mais agressividade, viver mais o clube. Se não fossem aquelas derrotas lá atrás, acho que não brigaríamos pelo título. Está tudo escrito, Deus escreve tudo. E agora é Liga Europa, né?", acrescentou.

E como esquecer a importância da torcida nesse processo vitorioso. Se, ao fim da temporada, o CSKA Sofia terminou na quarta colocação e conquistou a copa nacional, superando Lokomotiv Sofia, CSKA 1948, Ludogorets e Lokomotiv Plovdiv, todos rivais sejam recentes ou históricos, foi muito pelas pessoas que fizeram barulho na arquibancada.

"A gente fala do Brasil, mas aqui é muito louco. A torcida tem muita voz na Bulgária. Eles tiram metade do salário deles em ingresso, enchem estádios fora. Eles não falham nunca. E perguntavam 'o que falta para vocês jogarem bola?' Com dedicação, sempre. Mas ninguém sabia responder. Isso ajudou muito para chegar onde a gente chegou. Tem um vídeo da nossa torcida que diz que estamos todos unidos, que nada pode parar o CSKA. Essa frase define muito o CSKA em si. Eles não iam abandonar a gente e a gente se fortaleceu por eles", completou.

David, que virou Pastor ainda nas categorias de base, quando azucrinado pelos colegas mirins em uma viagem ainda na "escolinha" por ouvir louvor, nunca perdeu sua fé e sua humildade. E é isso que pode levá-lo aos maiores sonhos de sua carreira.

"Eu vou estar na Premier League, e eu tenho que trabalhar, trabalhar e trabalhar, não posso me deixar levar. E trabalhando também posso chegar à seleção. Nossa, isso seria uma honra para mim, para a minha família e para a minha cidade. Eu não vou parar, e eles vão ter muito orgulho lá na frente", concluiu.

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