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·28 de abril de 2026
De cria do Ninho a cidadão do mundo: Vizeu chega a 300 jogos na carreira e revisita sua história

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Chegar a marca dos 300 jogos como profissional aos 29 anos vai muito além de um número para Felipe Vizeu. É o retrato de uma trajetória construída com renúncias, aprendizados e recomeços. A entrada em campo e o gol marcado diante do Atlético Grau, pelo Campeonato Peruano, simbolizam mais um capítulo de uma carreira que atravessou continentes, culturas e momentos distintos dentro e fora de campo.
"É uma marca gigante. Tudo que eu tive que abrir mão, o tanto que eu abdiquei não só da minha juventude, mas também da minha infância. Não foi fácil, mas graças a Deus deu tudo certo. É uma satisfação e uma alegria muito grande estar completando esses 300 jogos", inicia o atacante, em bate-papo exclusivo com a reportagem de oGol.
A história de Vizeu começa longe dos grandes centros. Natural de Três Rios, no interior do Rio de Janeiro, ele relembra os primeiros passos com simplicidade e esforço: pedalava quilômetros para treinar futsal até buscar novas oportunidades na cidade de Cabo Frio.
O talento o levou ao América Mineiro e, pouco depois, ao Flamengo, onde sua trajetória ganhou projeção. Na base rubro-negra, o atacante empilhou gols e chamou atenção rapidamente.
"No meu segundo ano de base do Flamengo, fiz 44 gols. Foi uma temporada brilhante", recorda. O desempenho abriu as portas do profissional em 2016, após ser vice-artilheiro e eleito o melhor jogador da Copa São Paulo de Futebol Júnior daquele ano.
Já no elenco principal, Felipe Vizeu, que teve a oportunidade de subir ao lado de nomes como Lucas Paquetá e (posteriormente) Vinícius Júnior, dividiu espaço com nomes de peso, como Paolo Guerrero. Uma experiência que, para o centroavante, foi fundamental para o seu desenvolvimento.
"O Paolo foi uma pessoa que sempre me ajudou muito. Desde que cheguei no profissional, eu sempre soube da responsabilidade que era de estar junto com um ídolo, uma referência no ataque. Um cara que tinha sido campeão mundial (de clubes), fazendo gol na final. Eu sabia que seria muito importante ter alguém assim por perto para ver o que ele fazia no treino, nos jogos. Graças a Deus, deu tudo certo. Eu pude aprender muito com ele. Ter um espelho assim no início foi crucial", destaca.
Com o DNA rubro-negro e gols importantes, o jovem atacante rapidamente ganhou protagonismo no Ninho do Urubu e não demorou para cair nas graças da torcida. Mas foi no ano seguinte que veio a confirmação. Em 2017, foi um dos artilheiros da Copa Sul-Americana e peça importante na campanha do Fla que terminou com o vice-campeonato.
"Acho virou a minha chave como profissional. Mudou toda a visibilidade quanto a imagem do Vizeu pessoa e jogador. Eu sendo tão novo conquistando o vice-campeonato e sendo artilheiro. Um período que o Flamengo vinha numa crescente e eu ser de alguma forma uma peça importante em tudo isso, tendo essa responsabilidade de ser um espelho, uma referência para torcida, para as crianças, sem dúvidas foi um momento muito especial", complementa.
O bom momento no Brasil levou Vizeu ao futebol europeu, em transferência para a Udinese em 2018. A escolha, segundo ele, teve influência direta da ida de Cristiano Ronaldo para a Itália (à época CR7 tinha acabado de se transferir para a Juventus), o que aumentaria a visibilidade da liga. Apesar da expectativa, a adaptação não foi simples.
"O que me chamou a atenção e me fez escolher pelo futebol italiano foi a ida do Cristiano Ronaldo para lá (que assinou com a Juventus). Isso teve muito peso porque ele é um ídolo pra mim no futebol e eu sabia que ele levaria uma visibilidade ainda maior para a Liga, mas infelizmente as coisas não deram certo para mim", inicia.
"Tudo aconteceu muito rápido. Eu cheguei lá e não tive entendimento para poder esperar, para poder me adaptar. Minha cabeça daquela época era muito diferente. Acho que faltou um pouco de suporte de pessoas (staff), mas foi um momento de muito aprendizado e ganhei muita maturidade com isso".
Depois, vieram novas experiências, como o retorno ao Brasil para defender o Grêmio em 2019. No Tricolor Gaúcho, Felipe Vizeu teve sequência e participou de um ano em que o Imortal foi competitivo e chegou longe nas principais competições que disputou. Além disso, o centroavante teve, nesse período, a oportunidade de trabalhar com Renato Gaúcho, técnico que guarda na memória com carinho.
"O Renato é uma pessoa maravilhosa. Um excelente treinador. Acho que todo atleta teria que treinar com ele pelo menos um dia. Para entender e ver como é a pessoa do Renato. Muitas vezes a imprensa o vê pelo jeito que ele fala, só que realmente internamente ele é uma pessoa maravilhosa. Uma pessoa que viveu o que a gente vive hoje como atleta e sabe os atalhos", enfatiza.
Após o término da passagem pelo Grêmio, que acabou marcada por lesão e cirurgia no joelho, Vizeu foi lançado a mais um desafio na carreira. Por um pedido da Udinese, clube que ainda detinha seus direitos e que buscava aclimatar o jogador com a vivência do futebol europeu, o centroavante foi emprestado para o Akhmat Grozny, na Rússia, em meio à pandemia.
O resultado não poderia ser outro: uma experiência ruim, poucos minutos em campo, além de uma vontade constante de voltar para casa.
O retorno ao Brasil, para atuar pelo Ceará, representou um recomeço, onde Vizeu pôde contribuir para uma classificação do Vozão para Sul-Americana via Campeonato Brasileiro. Depois, o atacante ainda viveu a experiência no futebol japonês, defendendo o Yokohama FC.
"O Japão é um país incrível, muito avançado... parece que está em 2060, 70 (risos), em tecnologia, saúde, tudo. O futebol é competitivo e tive sequência. Foi uma experiência muito positiva", disse, revelando que neste período esteve perto de acertar com o Vasco (á época comandado por Zé Ricardo, técnico que o revelou para o futebol). A negociação não se concretizou por questões burocráticas.
"De fato, eu fiquei bem perto de um acerto (com o Vasco). O que fez não acontecer minha ida ao Vasco foi a burocracia. Eu já tinha um contrato assinado com o Yokohama, a continuidade dele, fizemos de tudo para tentar dar certo, mas infelizmente não aconteceu naquele momento. Quem sabe futuramente, né? Estou trabalhando para isso (risos)", brinca.
De volta à Europa para a temporada 2021/2022, Vizeu iniciou a pré-temporada com a Udinese e recebeu um convite para atuar em mais um mercado alternativo da bola: a Moldávia. A proposta do Sheriff foi aceita por um motivo bem específico...
"Eu aceitei esse desafio de jogar no Sheriff por conta da disputa da Europa League. Apesar de não ser um clube de ponta na competição, eu apostei que seria uma oportunidade de ter uma visibilidade maior, por ser uma competição importante na Europa. Mas infelizmente nós não avançamos muito na competição e eu não vi mais motivo para seguir por lá. Apesar do contrato longo, optei por fechar esse ciclo e buscar mais um recomeço".
A saída da Moldávia permitiu que Vizeu vivesse um dos períodos mais marcantes de sua trajetória até aqui. Após iniciar 2023 disputando o Estadual pelo Atlético Goianiense, o atacante se transferiu para o Criciúma e viveu dois anos para lá de especiais, incluindo um acesso para a elite do futebol brasileiro, tendo o status de protagonista (marcando o gol decisivo), e o dia que recebeu a notícia do falecimento de seu pai Marco André antes de um clássico estadual em fevereiro de 2024. Felipe relembrou com emoção este momento
"Sou suspeito para falar do Criciúma. Foram anos muito especiais que vivi por lá. Eu fui acolhido e acarinhado em todos os momentos, nos bons e nos ruins. No episódio do meu pai especialmente, fui amparado não só pelo clube, mas também pela cidade, pelo estado... são coisas que marcam demais", inicia.
Em 2025, Vizeu chegou ao Remo cercado de expectativa. Apesar de um início promissor, enfrentou um período sem gols, algo que considera um dos maiores desafios para um centroavante.
"Foi um grande começo de temporada, com gols, marcas importantes, mas infelizmente as coisas pararam de acontecer. E para mim, além dos períodos de lesão (que a gente não controla), o pior momento na vida de um atacante é não fazer gols. E isso acabou acontecendo".
"Quando o gol para de vir, a confiança também cai. Mas esses momentos fazem parte, a pressão faz parte. Nem todos vão gostar de você. Mas encaro isso com muita tranquilidade. Acho que isso me tornou uma pessoa melhor e me fez chegar onde estou hoje".
Atualmente no Sporting Cristal, do Peru, transferência que surgiu através de um convite de Paulo Autuori, à época técnico do clube, Vizeu vive mais um recomeço, algo que se tornou constante em sua trajetória. Aos 300 jogos, o atacante não se apega apenas ao passado, mas ao que ainda pode construir.
"O Felipe cresceu muito na maturidade e na experiência. A gente nunca sabe tudo, aprende a cada dia. Mas entender o momento, o feeling de cada situação, isso fez toda a diferença na minha carreira até aqui".
De garoto que pedalava quilômetros em busca de um sonho a jogador que rodou o mundo, Felipe Vizeu transforma cada capítulo da carreira em aprendizado e prova, a cada recomeço, que sua história ainda está longe do fim.









































