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·28 de abril de 2026

De Feira de Santana à Toscana: quando a música brasileira invade o futebol italiano

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O futebol italiano, tradicionalmente associado a cânticos com origens em canções nacionais e referências culturais próprias, ocasionalmente abre espaço para influências inesperadas. Nos últimos anos – e, em alguns casos, há décadas – músicas brasileiras passaram a integrar o ambiente de estádios, transmissões televisivas e celebrações de clubes na Itália. Não se trata de um fenômeno isolado, mas de uma recorrência que revela conexões culturais curiosas entre os dois países.

O caso mais recente envolve o Arezzo, que retornou à Serie B após 19 anos de ausência. A comemoração do acesso amaranto foi embalada por “Cavalinho”, canção originalmente popularizada pela banda Gasparzinho – originária de Feira de Santana, tal qual este escriba – e posteriormente regravada em versão contemporânea por Pedro Sampaio.


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A escolha do time da Toscana não foi aleatória: o cavalo rampante presente no escudo do clube estabeleceu uma conexão simbólica imediata com a música, que rapidamente se tornou trilha sonora das festividades, tanto no estádio quanto nas celebrações pelas ruas da cidade. Facilitou a adesão da torcida a similaridade linguística do refrão: a frase “vai no cavalinho” é muito parecida com “vai, cavallino”, que em italiano aludiria a um incentivo à equipe, conhecida por seu apelido.

Embora curioso, o episódio está longe de ser inédito. No início da década de 2010, “Ai Se Eu Te Pego”, de Michel Teló, transformou-se em um fenômeno global. O sucesso extrapolou o universo do futebol, mas encontrou nos gramados europeus um de seus principais palcos de difusão, com comemorações de jogadores e adesão das arquibancadas. Na esteira desse sucesso, o sertanejo brasileiro ganhou tração na Itália e voltou a aparecer com “Balada Boa”, de Gusttavo Lima, que chegou a ser utilizada como música de celebração de gols pela Udinese. Teve muito Tchê Tcherere Tchê Tchê no Friuli, com o craque Antonio Di Natale em um dos momentos mais prolíficos de sua carreira.

A presença da música brasileira no futebol italiano, contudo, remonta a períodos anteriores. No fim dos anos 1990, o português Sérgio Conceição, então jogador da Lazio, ganhou uma canção própria entoada pela torcida – “Meu Amigo Conceição”, inspirada em “Charlie Brown”, de Benito di Paula. A longevidade dessa homenagem é notável: mais de duas décadas depois, o cântico segue presente nas arquibancadas, tendo sido entoado inclusive em 2022, quando o português já atuava como treinador e era adversário dos celestes num duelo de Liga Europa com o Porto.

Outro vetor importante dessa relação esteve nas transmissões televisivas. Durante os anos 2000 e início da década de 2010, a Rai International – cuja programação alcançava o Brasil – utilizava frequentemente músicas de Jorge Ben como trilha sonora para a exibição de gols e momentos das rodadas. Faixas como “Taj Mahal” e “Xica da Silva” tornaram-se parte da memória afetiva de quem acompanhava o futebol italiano nesse período.

A relação entre Jorge Ben e o futebol italiano, aliás, não se restringe às transmissões. Em 1983, o artista – que é amado na Itália e fez diversas turnês pelo país a partir do fim da década de 1960 – compôs uma música em homenagem a Paulo Roberto Falcão, ídolo da Roma, reforçando um vínculo que atravessa diferentes gerações e contextos. A canção embalou a conquista do segundo scudetto giallorosso.

Assim, entre celebrações de acesso, coreografias de jogadores, cânticos de arquibancada e trilhas televisivas, a música brasileira encontrou múltiplas formas de se inserir no cotidiano do futebol italiano. Mais do que episódios pontuais, esses momentos revelam uma circulação cultural que, por vezes, escapa às narrativas mais tradicionais do esporte. E, por extravasar essas fronteiras, ajuda a compreender a dimensão verdadeiramente global da modalidade e do nosso belíssimo cancioneiro.

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