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·30 de junho de 2026

Dentro do ônibus, a menos de uma hora do jogo do Brasil

Imagem do artigo:Dentro do ônibus, a menos de uma hora do jogo do Brasil

“No dia do jogo do Brasil?”, perguntou a Luiza no WhatsApp. “O trânsito vai ser uma loucura quando estiver mais próximo do jogo”, alertou o Valter.

Mas eu não tinha muita escolha.


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O jogo do Brasil começaria às 14h. Uma hora antes, eu tinha um compromisso a uns dez quilômetros da minha casa. Entre a origem e o destino, o trânsito da cidade de São Paulo antes de uma partida da Seleção Brasileira.

Não tinha muito o que fazer.

Na ida, uma corrida de táxi a R$ 77 era o sinal de que eu tinha motivos para me preocupar. Saí de casa por volta das 12h10, levei 50 minutos para chegar e peguei trânsito durante praticamente todo o trajeto.

O compromisso foi rápido, resolvido em coisa de 10 minutos. Agora vinha o principal objetivo da missão: atravessar novamente a cidade a tempo de pegar o começo do jogo do Brasil.

O plano A era simples: pegar um táxi novamente. Não seria barato, mas escaparia de parte considerável do trânsito paulistano. Só que não havia táxis no ponto de confiança lá do bairro do Morumbi.

O plano B seria então apelar para um Uber, mas a bateria do celular estava no fim e eu não quis me arriscar nos preços dinâmicos.

A solução foi apelar para o ônibus.

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Eu cansei de fazer aquele trajeto de ônibus nos cinco anos anteriores. Sabia que, em um dia bom, o trajeto até minha casa levava uns 45 minutos. Em um dia ruim, era coisa para mais de uma hora. Olhei na tela do celular: 13h24.

Conformado que iria chegar atrasado, evitei pegar qualquer ônibus e fui na alternativa certeira. O jeito era aproveitar o caminho e observar gente que estava na mesma situação: dentro de um ônibus esperando um jogo decisivo do Brasil em uma Copa do Mundo.

O motorista não parecia preocupado em ouvir o jogo. Tampouco o cobrador. Dos poucos passageiros na condução, apenas três ou quatro vestiam camisa do Brasil. Que tranquilidade.

Para minha surpresa, o trânsito fluía bem. Tudo indicava que o pior do tráfego pré-jogo havia rolado mais de uma hora antes do pontapé inicial. O busão foi fazendo seu caminho e eu pude observar tudo ao redor, evitando mexer no celular para não ficar sem bateria.

Nos bancos do ônibus, uma senhora assistia a vídeos no celular com volume considerável, sempre acompanhados de músicas incômodas. Do lado de fora, havia pouca gente na rua. Os poucos pedestres vestiam quase sempre camisas alusivas ao Brasil.

No Itaim, os bares se enchiam de gente na torcida. As ruas estavam vazias. Parecia que quase todo mundo havia sido liberado mais cedo do trabalho.

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Quase (Imagem: Emanuel Colombari/Última Divisão)

Em algum momento, um grupo de jovens – dois meninos em um banco, três meninas espremidas em outro banco – entrou no ônibus. Era o que eu precisava naquele momento: nada melhor do que a aporrinhação provocada pelos jovens para a gente se esquecer um pouco daquela tensão e se distrair um pouco.

“Tem até ar condicionado no ônibus”, admirou-se uma.

“Melhor que na sua casa, Maria Clara”, debochou um dos meninos, como que esperando aprovação. A aprovação não veio, e resto apenas um breve silêncio constrangedor no grupo.

O jovem que carregava uma bola de vôlei tentou novamente:

“Coloca aquela música de farmar aura.”

(Juro por Deus que ele pediu isso.)

A Maria Clara não tocou nada, então jamais saberemos qual era a música – que, provavelmente, faria sucesso no Campeonato de Farmação de Aura em Serra Talhada (PE).

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O ônibus seguiu seu caminho, cruzou o Itaim e começou a subir a Avenida Brigadeiro Luiz Antônio sentido centro. O grupo de jovens indicou que desceria na região do Ibirapuera, mas não o fez. Uma das meninas se impressionou ao ver o Monumento às Bandeiras, de Victor Brecheret.

“Que da hora”, empolgou-se.

“Mas não é”, repreendeu a outra. “É o monumento para os bandeirantes. Aqueles dois sobre os cavalos são brancos, enquanto todos os outros atrás são negros”, completou. Nunca fui atrás de uma interpretação do movimento, admito, então fico devendo qualquer observação sobre o tema.

Enfim, o ônibus chegou à Avenida Paulista. Na Alameda Santos, mais gente se apinhando em bares. Desci para pegar outro ônibus sentido à minha casa, confiante de que o cronômetro jogava a meu favor.

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(Imagem: Emanuel Colombari/Última Divisão)

No segundo ônibus, menos gente ainda, e aparentemente ninguém de camisa do Brasil. Ainda assim, dava para ver a empolgação do pessoal nas ruas. Já no começo da Avenida Paulista, ouvi o inconfundível hino do Japão.

Seria uma execução em alto e bom som na Japan House?

Não era. Eram dois meninos assistindo ao jogo em um celular – e um deles vestia a camisa do Brasil.

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(Imagem: Emanuel Colombari/Última Divisão)

O ônibus seguiu e eu cheguei ao meu ponto. Corri, passei por bares lotados e cheguei ao meu prédio. Ao chamar o elevador, ouvi um burburinho inconfundível, marcando o início do jogo. Ao abrir a porta de casa, o relógio da TV marcada cerca de 1:30 do primeiro tempo.

Valeu a pena a correria: o Brasil venceu o Japão de virada por 2 a 1 e avançou às oitavas de final.

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