Jogada10
·19 de agosto de 2026
Dívida de rico? Memphis Depay, Neymar e os contrastes do nosso futebol

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·19 de agosto de 2026

Os dois jogadores de maior grife em ação no futebol brasileiro defendem clubes que estão tecnicamente quebrados. Trata-se de Memphis Depay e Neymar, astros de projeção mundial que vestem as camisas 10 de Corinthians e Santos, respectivamente. Os dois clubes mais antigos entre os grandes de São Paulo acumulam dívidas de cifra bilionária, atrasam salários com frequência e vivem sofrendo bloqueios da Fifa por calotes em contratações. Ainda assim, contam com esses craques, com os quais, diga-se, já acumulam débitos também.
Esse paradoxo faz lembrar um samba clássico de Ismael Silva (1905 – 1978), pioneiro do gênero, chamado “Contrastes”. Nos versos iniciais da canção, o bamba do Estácio, fundador da Deixa Falar, primeira escola de samba do Rio de Janeiro, sapeca: “Existe muita tristeza/Na rua da alegria/Existe muita desordem/Na rua da harmonia”. Trazendo para o contexto do tema desta coluna, podemos dizer que no futebol brasileiro existe muito gasto de rico para quem está na penúria. De fato, não geram versos elegantes como o do autor de “Se Você Jurar” e “Antonico”, mas provoca o embaraço típico de situações contrastantes.

Após semanas de negociação, com idas e vindas, Memphis Depay renovou com o Corinthians Foto: Rodrigo Coca / Ag. Corinthians
Maior artilheiro da história da Seleção Brasileira, Neymar tem 34 anos e voltou para o Santos no início de 2025. O craque acabara de se recuperar de uma grave lesão que o tirou dos gramados por quase um ano. Com pouco espaço no saudita Al-Hilal e sem perspectivas de regressar para a elite do futebol europeu, topou retornar ao clube que o formou para ter condições de disputar a Copa do Mundo. Isso aconteceu, embora distante do brilho de outrora.
Maior artilheiro da história da seleção holandesa, Memphis Depay tem 32 anos e transferiu-se para o Corinthians já distante de seus melhores anos. Com carreira extensa na Europa, passando por clubes poderosos como Manchester United, Barcelona e Atlético de Madrid, aceitou vir ao futebol brasileiro como um desafio pessoal. Ao menos foi o que alegou na apresentação ao clube, em setembro de 2024. Curiosamente, o atacante chegou a citar Neymar, que é seu amigo, ao revelar com quais brasileiros conversou antes de fechar contrato.
Para contar com os astros, Corinthians e Santos partiram do pressuposto de que jogadores assim “se pagam” por atrairem patrocínios e interesse midiático. No entanto, o noticiário financeiro dos clubes não tem dado amparo a essa premissa. Um dos entraves para a renovação do clube paulistano com Memphis, que acabou ocorrendo após idas e vindas, era uma dívida de R$ 42 milhões. No acordo que estendeu o vínculo até 2028, além de vários ajustes em relação ao contrato anterior, firmou-se que o pagamento desse valor será feito em parcelas semestrais.
Em abril último, o Santos reconheceu dever R$ 90,5 milhões com a NR Sports, que administra os direitos de imagem de Neymar. De acordo com o programado, o clube pretende quitar essa dívida até 2030. Ou seja, assim como no caso do Corinthians com Memphis, o co-irmão alvinegro praiano não tem conseguido arcar com os custos do seu principal jogador e emenda acordos para parcelar dívidas enquanto sabe-se lá como pagará o que é “ordinário”.
A dívida bruta do Corinthians se avizinha dos R$ 3 bilhões, valor que embute algumas centenas de milhões do financiamento da Neo Química Arena. Em junho, veio a público a notícia de que a dívida do Santos bateu a casa do R$ 1 bilhão. O cenário financeiro periclitante fez o tema de uma SAF rondar a Vila Belmiro. Na prática, ao se darem o luxo de terem os craques, os clubes estão contratando novas dívidas.
Memphis liderou o Corinthians em três títulos. Com Neymar, o Santos, embora brigue mais uma vez contra o rebaixamento no Brasileirão, está vivo na Copa do Brasil e na Sul-Americana. Os êxitos esportivos representam premiações robustas, mas, pelo que constatamos, elas não fazem cócegas no rombo financeiro.
Assim, a cada assistência e gol dos craques, o torcedor vibra e o contraste grita. Se a “alegria é a prova dos nove”, como na máxima do modernista Oswald de Andrade, o futuro dirá o quanto ela custa.
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