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·18 de agosto de 2026

Do chão de La Paz ao céu da Arena MRV

Imagem do artigo:Do chão de La Paz ao céu da Arena MRV

Dois gols, números expressivos e uma tarde inesquecível na Arena MRV. Tomás Cuello foi um dos grandes protagonistas da vitória do Galo por 3 a 0 sobre o Grêmio e viveu, no último domingo, um daqueles dias que ajudam a marcar uma trajetória.

Os gols fizeram o argentino chegar a seis na temporada, igualando a marca de 2025. Com outras seis assistências, Cuello soma 12 participações diretas em gols em 2026. Pelo Atlético, são agora 78 jogos, 64 como titular, 12 gols e 13 assistências — 25 participações diretas em gols desde sua chegada ao clube.


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Mas a tarde de domingo não pode ser explicada apenas pelos números. Ela é resultado de uma caminhada que começou muito antes de Cuello vestir a camisa do Galo.

Para entender o jogador que hoje decide partidas e recebe o carinho da Massa na Arena MRV, é preciso voltar alguns anos no tempo. Voltar a Tucumán, passar pela primeira experiência no futebol brasileiro e chegar a uma história que diz muito sobre a personalidade do argentino.

Durante a pandemia, quando ainda defendia o Red Bull Bragantino, Cuello precisou deixar o Brasil e retornar à Argentina. Quando o futebol voltou, recebeu a notícia de que deveria retornar ao clube. Não havia voos disponíveis.

A solução encontrada com o pai foi viajar de carro até a fronteira de Foz do Iguaçu.

E foi ali que o jovem argentino precisou dar um passo que simboliza a própria carreira.

Com duas malas nas mãos, Cuello atravessou sozinho a fronteira entre Argentina e Brasil.

“Eu cruzei andando para viver um sonho aqui no Brasil. E deu certo no final”, relembra.

Aquele caminho, percorrido a pé durante a pandemia, foi apenas um dos obstáculos de uma trajetória marcada por escolhas, distância da família, perdas, uma grave lesão no tornozelo e a frustração de ficar fora de uma final continental.

Até chegar ao céu da Arena MRV, Cuello precisou conhecer alguns momentos no chão.

Um sonho que começou em Tucumán

A história de Cuello no futebol começou ainda muito cedo, em San Miguel de Tucumán, na Argentina. Foi no Atlético Tucumán que o atacante deu os primeiros passos e começou a construir uma trajetória que o levaria às categorias de base da Seleção Argentina.

A decisão que considera mais importante para sua carreira, porém, veio quando decidiu deixar o país.

“Mais fundamental foi tomar a decisão de vir para o Brasil. Quando eu vim para cá, não tinha certeza se era o certo ou não. Era mais uma aposta em vir, dar o máximo e mostrar o meu futebol”, conta.

A aposta rapidamente se transformou em uma nova vida.

Cuello chegou ao futebol brasileiro ainda jovem, inicialmente ligado ao Red Bull Brasil. Depois, acabou integrando o Red Bull Bragantino e começou a construir sua trajetória profissional no país.

Então, veio a pandemia.

De volta a Tucumán, sem saber quando poderia retornar ao Brasil, o atacante manteve a preparação como podia. Treinava nos fundos de casa, ao lado do irmão e de um profissional, e chegou a correr em uma propriedade da família para manter a condição física.

“Eu treinava lá no fundo da minha casa todo dia, com meu irmão e um professor. A gente pegava uma finca e corria em volta para fazer preparação física”, relembra.

O futebol brasileiro voltou, mas os voos ainda eram um problema.

Foi quando surgiu a ideia de seguir por terra.

A viagem até a fronteira foi feita com o pai e um tio. A partir dali, porém, Cuello teria que seguir sozinho.

“Quando chegamos na fronteira, tinha muito controle porque tinha que ter controle sanitário. Eu falei para o meu pai: ‘Você cruza comigo e me deixa lá’. Aí o cara da fronteira falou que o único que podia cruzar era eu.”

O jogador colocou as duas malas nas mãos e começou a caminhada.

“Acho que foi meia hora andando, com duas malas, sozinho. Não tinha ninguém e era só mata em volta.”

A cena permanece na memória.

“Eu cruzei andando para viver um sonho aqui no Brasil.”

A distância e a resiliência

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A travessia da fronteira acabou se tornando uma espécie de símbolo de uma carreira que exigiu sacrifícios desde cedo.

No Brasil, Cuello passou períodos longe dos pais e da esposa. Em determinado momento, chegou a ficar cerca de sete meses sem a presença da família.

“Por mais que no futebol falem que o atleta ganha milhões, para eu vir para o Red Bull foi uma aposta”, explica.

A distância também trouxe perdas.

Cuello lembra que passou um aniversário sozinho em Bragança Paulista e que, naquele período, perdeu o avô. A experiência fez com que passasse a enxergar de outra maneira o tempo ao lado das pessoas que ama.

“Essas etapas da minha vida, desde que cheguei aqui no Brasil, me fizeram aprender a valorizar muito mais as pessoas que estão ao meu redor, o dia a dia e o tempo que eu passo aqui no futebol.”

Quando precisa escolher uma palavra para definir sua trajetória até aqui, a resposta vem rapidamente:

Resiliência.

Do Bragantino ao Galo

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No Bragantino, Cuello ganhou espaço e viveu uma campanha que terminou com o clube na final da Copa Sul-Americana. Depois, seguiu para o Athletico-PR, onde permaneceu por três temporadas.

Foi em Curitiba que seu futebol ganhou ainda mais projeção.

Até que o Galo apareceu.

A proposta chegou em um momento curioso. Depois de uma temporada desgastante no Athletico, Cuello havia decidido passar alguns dias de descanso com a esposa e ficar longe das notícias do futebol.

Estava em uma ilha quando recebeu a mensagem do empresário.

“Meu empresário mandou mensagem e falou: ‘Chegou uma proposta do Galo’.”

Pouco depois, uma coincidência chamou sua atenção.

“Chegou um cara com uma camiseta do Atlético Mineiro.”

Para Cuello, aquilo parecia uma daquelas pequenas mensagens que aparecem no caminho.

“São aquelas coisas de Deus que aparecem às vezes na vida.”

A decisão veio depois, com calma. E, hoje, ele olha para trás convicto de que fez a escolha certa.

A chegada ao Atlético

Em 2025, Cuello rapidamente conquistou espaço.

Foram 41 partidas, 36 como titular, seis gols e sete assistências. Ao longo da temporada, tornou-se uma das principais peças ofensivas do elenco e conquistou seu primeiro título pelo clube, o Campeonato Mineiro.

A relação com a torcida também cresceu.

Mas, justamente quando vivia um dos melhores momentos físicos e técnicos de sua passagem pelo Galo, a trajetória sofreu uma interrupção.

“Não doeu a perna, mas doeu o coração”

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Foto: Pedro Souza / Atlético

Em La Paz, diante do Bolívar, Cuello sofreu uma grave lesão no tornozelo.

O atacante havia encontrado seu espaço e se sentia em grande momento.

“Naqueles primeiros seis meses eu tinha me sentido muito bem na parte física e técnica. Era onde eu mais estava me sentindo à vontade. Dentro de campo eu estava encontrando meu lugar. E vem aquilo que marca.”

A lesão trouxe uma preocupação imediata sobre o restante da temporada.

Mas a dor emocional foi ainda maior.

“Vou ser sincero: não doeu a perna, mas doeu o coração um pouco.”

Cuello decidiu que faria tudo o que estivesse ao seu alcance para voltar ainda em 2025.

O sonho de jogar a final

O Atlético avançou na Copa Sul-Americana e garantiu uma vaga na decisão. Enquanto os companheiros se preparavam para a final, Cuello acelerava a recuperação.

Depois da classificação, conversou com o fisioterapeuta Guilherme e estabeleceu um objetivo.

“Eu vou me dedicar ao máximo para ver se consigo chegar. E, se não chegar, vou ficar tranquilo que dei meu máximo.”

A esperança durou até os últimos momentos.

Cuello chegou a viajar para acompanhar a equipe, mas não conseguiu estar em campo.

E a frustração aumentou depois da derrota na decisão.

“O sentimento foi mais de tristeza por não conseguir ajudar meus companheiros e também porque a gente perdeu uma final que acho que a gente mereceu.”

Mesmo impossibilitado de jogar, tentou contribuir de outra maneira.

“Eu queria passar uma energia positiva para meus companheiros para eles conseguirem levantar essa taça.”

Não aconteceu.

Mas aquela experiência também deixou marcas.

Um antes e um depois

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Cuello voltou a jogar ainda no fim de 2025, contra o Vasco, mas o retorno não significou o fim imediato dos efeitos da lesão.

O primeiro semestre de 2026 ainda foi marcado por alguns incômodos no tornozelo.

Foi durante a intertemporada que o atacante encontrou uma oportunidade importante para recuperar a condição física e trabalhar características que considera fundamentais para seu jogo.

“Eu peguei essa intertemporada para me colocar melhor fisicamente, que é uma das características do meu jogo, para melhorar algumas coisas.”

O resultado aparece nos números mas, para ele, o número mais importante é outro: a evolução.

“Eu acho que ainda tenho muito mais para dar. Tenho muito mais para aprender. Quero continuar evoluindo.”

O céu da Arena MRV

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Foto: Pedro Souza / Atlético

Depois do gol decisivo diante do Bragantino, justamente contra um clube que faz parte de sua história, Cuello viveu uma tarde especial contra o Grêmio.

Dois gols.

Uma vitória por 3 a 0.

E uma Arena MRV em festa.

Mas o próprio Cuello se recusa a tratar o momento como ponto de chegada.

“Futebol muda de um segundo para o outro e a gente não pode se relaxar. Eu sou um cara que não vai ficar por aqui, não vai se conformar com o que vem fazendo. Vou buscar mais.”

É uma postura que parece conversar diretamente com tudo que viveu.

O jogador que atravessou sozinho uma fronteira durante a pandemia, que passou meses longe da família, que enfrentou perdas, que ficou no chão de La Paz e que assistiu de fora a uma final que gostaria de ter disputado agora comemora gols diante da Massa.

O caminho entre aqueles momentos foi longo.

O baile de todos os dias

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Depois dos gols contra o Grêmio, Cuello revelou que uma de suas músicas preferidas é “BAILE INoLVIDABLE”, de Bad Bunny.

A canção fala sobre lembranças, relações marcantes e momentos que permanecem mesmo depois que passam.

Para Cuello, a música acabou encontrando um significado particular em sua própria trajetória.

A distância da família, as dificuldades da pandemia, a travessia da fronteira, as perdas e a lesão ensinaram o argentino a valorizar mais aquilo que tem hoje.

“Quando eu machuquei, às vezes a gente reclama. O atleta reclama por muitos jogos, muitos jogos. Mas quando acontece aquilo, você fala: ‘Eu quero voltar a jogar’. Por que não está jogando?”

A conclusão veio em uma palavra que aparece novamente.

“Dar valor ao que eu tenho hoje em dia é por tudo que eu passei.”

Cuello aprendeu a valorizar o presente.

“Eu trato de valorizar o dia a dia aqui.”

E encontrou na própria música uma frase que resume a maneira como escolheu viver essa fase da carreira:

“A vida é uma festa que um dia termina.”

Por isso, cada jogo importa. Cada treino importa. Cada momento ao lado da família importa.

E cada oportunidade de vestir a camisa do Atlético também.

“Eu estou muito feliz de estar aqui.”

Do outro lado daquela fronteira, um jovem argentino carregava duas malas e um sonho.

Na Arena MRV, anos depois, Cuello encontrou um lugar para viver o sonho que decidiu perseguir.

E ainda quer mais.

“Tenho muito para dar ainda. Vou procurar melhorar.”


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