Calciopédia
·27 de janeiro de 2026
Em 1998, semifinal europeia entre Juventus e Monaco foi prelúdio de uma era no futebol

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A semifinal da Champions League de 1997-98 entre Juventus e Monaco pode ser descrita como um daqueles confrontos cujas nuances só se revelam totalmente com o tempo. À época, tratava-se “apenas” de mais um passo rumo à final europeia, algo que a Velha Senhora já conhecia bem na década de 1990 – afinal, foram três decisões de Liga dos Campeões e duas da Copa Uefa. Depois, para além do show do artilheiro Alessandro Del Piero, que marcou quatro vezes, aquele embate passou a ser visto como um duelo que antecipou trajetórias, consolidou destinos e lançou sementes que germinariam tanto na Copa do Mundo de 1998 quanto em reencontros futuros entre os dois times, nas edições de 2014-15 e 2016-17 da principal competições de clubes do continente.
Juventus e Monaco chegaram àquela edição como detentores dos títulos de suas respectivas ligas e Supercopas nacionais, mas representantes de contextos muito distintos. A Juve era vice-campeã europeia, derrotada pelo Borussia Dortmund na final de 1997, e vivia um período de disputa nas cabeças sob Marcello Lippi, técnico que havia moldado uma equipe capaz de competir em alto nível dentro e fora da Itália. O Monaco, por sua vez, simbolizava um projeto mais leve, sustentado por juventude, talento bruto e ousadia, comandado por Jean Tigana. Não havia ainda o peso histórico que separaria os clubes nas décadas seguintes, mas o favoritismo italiano era claro desde o sorteio.
A caminhada juventina até as semifinais foi menos exuberante do que se poderia imaginar. Em um formato de competição restritivo – 24 clubes, seis grupos e apenas oito vagas para as quartas de final –, a Juve não brilhou na primeira fase. Terminou como vice-líder do Grupo B, com 12 pontos, atrás do Manchester United (15), mas à frente de Feyenoord (9) e Kosice (zerado). Avançou como uma das duas melhores segundas colocadas graças ao saldo de gols, superando o Paris Saint-Germain no quesito.
Foi no mata-mata que o time de Lippi reencontrou sua identidade europeia: nas quartas, enfrentou o Dynamo Kyiv de Andriy Shevchenko e Serhiy Rebrov, sensação do torneio, e o atropelou com autoridade, revertendo qualquer dúvida com um agregado de 5 a 2, com direito a show de Filippo Inzaghi e goleada por 4 a 1 em plena Ucrânia, após empate no Delle Alpi. Assim, os italianos se recolocaram no centro do debate pelo título continental. Algo natural para uma equipe que tinha nomes como Angelo Peruzzi, Edgar Davids, Didier Deschamps, Zinédine Zidane e os já citados Del Piero e Pippo, além de tantos outros.
Com estrelas, a Juventus era favorita no duelo contra um Monaco cheio de jovens, nas vestes de franco-atirador (Allsport)
O Monaco também chegava credenciado. Liderou o Grupo F, com os mesmos 13 pontos do Bayer Leverkusen, mas melhor saldo – Sporting e Lierse ficaram pelo caminho. Nas quartas de final, protagonizou uma das grandes surpresas daquela Champions League ao eliminar o Manchester United após dois empates, por 0 a 0 e 1 a 1, valendo-se do gol fora de casa. Era um time subestimado – e, por isso mesmo, perigoso –, repleto de nomes que logo teriam seu status atualizado: Fabien Barthez no gol, uma defesa física e agressiva, que tinha Willy Sagnol, um meio-campo combativo, com um Costinha ainda garoto, e um ataque que misturava juventude e potência, com Thierry Henry e David Trezeguet despontando.
O primeiro jogo, em Turim, aconteceu em um contexto simbólico para a Juventus. Dias antes, o time havia humilhado o Milan de Fabio Capello por 4 a 1 no Delle Alpi e seguia envolvido em uma disputa histórica pelo scudetto com a Inter de Ronaldo. A sensação era de que aquela Juve havia atingido um grau de maturidade competitiva raramente visto. Mesmo sem Ciro Ferrara, lesionado, Lippi tinha à disposição uma espinha dorsal sólida, liderada por Peruzzi, Zidane, Del Piero e Inzaghi. O Monaco, desfalcado de John Collins, entrava em campo disposto a sobreviver e explorar transições.
A estratégia francesa foi clara desde o início: linhas baixas, ocupação de espaço e paciência. Durante boa parte do primeiro tempo, o jogo se desenrolou com a Juve rondando a área adversária, tentando romper um bloco compacto. A ruptura veio aos 35 minutos e carregou a assinatura do talento que definia aquele time. Zidane, em arrancada central após tabelar com Del Piero, foi derrubado na entrada da área. A cobrança da falta sintetizou o momento do camisa 10: Pinturicchio bateu com precisão absoluta, encobrindo a barreira e vencendo Barthez, que ainda tocou na bola.
O Monaco, porém, não se desorganizou. Pouco antes do intervalo, encontrou o empate em um lance improvável: após escanteio mal batido por Ali Benarbia, a bola passou por todo mundo e sobrou para Costinha, recém-entrado no lugar de Christophe Pignol, que finalizou de primeira. O chute desviou em Inzaghi, passou por Moreno Torricelli, traiu Peruzzi e deu aos monegascos um precioso gol fora de casa.
Embora enfrentasse um time francês, a Juventus contava com dois craques dos Bleus: Deschamps e Zidane (Arquivo/Juventus FC)
Só que a resposta da Juve foi imediata e devastadora, ainda durante os acréscimos. Del Piero enfiou a bola para Inzaghi, que acionou Zidane em velocidade. Barthez saiu da baliza de forma temerária e cometeu pênalti sobre o seu compatriota. Del Piero cobrou no mesmo canto em que bateu a falta, com um chute seco e alto. O destino foi o mesmo: o arqueiro resvalou na pelota, mas ela morreu na rede. Assim, o craque ampliava sua sequência na competição e chegava a oito gols em oito jogos naquela Champions League.
O segundo tempo manteve o mesmo roteiro. Monaco fechado, Juve insistente. Lippi mexeu cedo, buscando mais intensidade, e o domínio territorial italiano se traduziu em mais um pênalti, sofrido por Inzaghi após jogada construída por Zidane e Antonio Conte, um dos que foram a campo na etapa complementar. Aos 62 minutos, Del Piero bateu novamente no canto direito, Barthez saltou na bola e, igualmente, não conseguiu defendê-la: tripletta para o craque e nove gols na competição para ele.
Nos minutos finais, a dupla de grandes lendas da Juventus ainda combinaria a jogada do quarto gol, que foi anotado aos 87. Zidane tabelou com Del Piero, atacou o espaço vazio na entrada da área do Monaco e bateu no canto – dessa vez o esquerdo –, sem chances para Barthez. O 4 a 1 encaminhava a classificação e, principalmente, explicitava a distância entre uma candidata ao título europeu e um time ainda em formação.
Duas semanas depois, no estádio Louis II, os times voltaram a se encontrar em cenários diferentes: enquanto a Juventus havia vencido seus dois jogos pela Serie A sem sofrer gols e seguia à frente da Inter na disputa pelo scudetto, o Monaco tropeçou e se viu distante da briga pelo título francês – de modo que apostaria todas as suas fichas na Champions League. O gol fora de casa oferecia uma fresta de esperança aos Rouge et Blanc, que ainda assim tinham que vencer por 3 a 0 ou por quatro tentos de vantagem para avançar diretamente à final. Assim, Tigana decidiu arriscar, alterando o esquema para um 4-3-3 mais agressivo, com a entrada de Henry no lugar de Sagnol – além da volta do escocês Collins.
Del Piero decidiu a eliminatória com uma de suas maiores atuações na carreira: em Turim, anotou uma tripletta (Arquivo/Juventus FC)
Tal qual seu homólogo, Lippi promoveu mudanças, mas com o objetivo de poupar algumas peças, como Davids e Angelo Di Livio – Paolo Montero e Deschamps, por outro lado, foram desfalques. A equipe italiana também teve que lidar precocemente com a saída de Inzaghi, que caiu estranho no chão após disputa aérea com Djibril Diawara e deixou o campo com a boca machucada aos 5 minutos, dando lugar a Nicola Amoruso. Ainda assim, a lógica do confronto se impôs cedo. Curiosamente, a troca ajudou a Juventus, que marcaria com o seu novo atacante aos 15, numa escorada para a rede após assistência de Del Piero, em desfecho de linda jogada entre Zidane e o camisa 10.
O Monaco, empurrado pela torcida e pela chuva persistente, teve seus momentos. Peruzzi precisou intervir diversas vezes, inclusive antes do gol de Amoruso, num chute de Philippe Léonard – aliás, o arqueiro protagonizou uma atuação que seria lembrada como uma das grandes da sua carreira europeia. Depois, foi a vez de Benarbia testá-lo numa cabeçada.
O empate do Monaco saiu ainda no primeiro tempo, aos 38 minutos, em lance fortuito. Léonard cobrou mal uma falta, mas a bola desviou na bunda de Conte e matou Peruzzi, que já se movia para o lado oposto. Na sequência, o goleiro – com a ajuda de Alessandro Birindelli – evitou um gol de Henry, cara a cara. A virada monegasca começava a amadurecer naquela noite chuvosa.
O Monaco voltou melhor do intervalo. Na primeira chance após o descanso, Collins trabalhou a bola com Benarbia na área da Juventus e tentou um cruzamento, que desviou em Alessio Tacchinardi e mudou completamente de trajetória, a ponto de quase encobrir o gol juventino. Peruzzi, mostrando tempo de reação e instinto, espalmou para escanteio.
Além da tripletta na Itália, Delpi marcaria mais uma vez e forneceria duas assistências nas semifinais, participando dos seis gols (Reuters)
Os mandantes seguiram pressionando de forma incessante e, aos 50 minutos, acabaram chegando ao gol da vantagem – quando Zidane perdeu uma posse e a bola sobrou para Henry. A linha defensiva da Juventus tentou subir para provocar o impedimento, mas a manobra falhou. Titi disparou livre, sem oposição, e deu uma cavadinha precisa por cima de Peruzzi, fazendo 2 a 1 para o ASM.
Na saída de bola, a Juventus respondeu de imediato. Zidane conduziu até a outra extremidade do campo e obrigou Barthez a fazer uma grande defesa. Até aquele momento, o goleiro francês praticamente não havia sido exigido na partida. O jogo passou a ficar aberto, com ações de um lado a outro do campo, mas, aos 74 minutos, a Juventus pôs fim de vez às já reduzidas esperanças do Monaco de chegar à final – e com um gol espetacular.
Torricelli tabelou com Tacchinardi, arrancou em velocidade até a linha de fundo e cruzou para o flanco oposto, onde Del Piero apareceu às costas de Lilian Martin, livre. O camisa 10 esperou a pelota cair e emendou um voleio magnífico, que desviou no defensor adversário, ganhou ainda mais velocidade e superou Barthez, que nada pôde fazer. Aqueles confrontos com o Monaco foram um marco na carreira de Delpi: em dois jogos, ele marcou quatro gols e deu assistência nos dois em que não balançou as redes. A temporada 1997-98 seria a mais prolífica de sua vida: foram 32 tentos anotados em todas as competições. Com 10, foi o artilheiro da Champions League.
Antes de a partida terminar, o Monaco ainda diminuiria com uma cabeçada de Robert Spehar, que encobriu Peruzzi. Porém, a derrota por 3 a 2 no principado foi irrelevante diante do agregado de 6 a 4. A Juventus estava, pela terceira temporada consecutiva, na final da Champions League. Mais do que isso, embalada pelo auge de Del Piero, consolidava uma campanha ofensiva impressionante: 23 gols marcados na competição, que resultaram na versão mais prolífica das equipes de Lippi.
Embora desse toque de classe no meio-campo italiano, Zidane foi ofuscado por Del Piero numa semifinal que antecipou tendências (Arquivo/Juventus FC)
O que veio depois, porém, conferiu ao confronto uma dimensão quase melancólica. Na final, em Amsterdã, a Juve entrou como favorita contra um Real Madrid que não ganhava a competição havia 32 anos, mas voltou a falhar no momento decisivo. O gol de Predrag Mijatovic selou mais uma derrota dolorosa – parcialmente aplacada pela conquista do scudetto, numa acirrada e polêmica disputa com a Inter. Para Del Piero, aquela campanha continental marcou o fim de um ciclo: lesionado na decisão, ainda disputaria uma Copa do Mundo aquém do esperado e, meses depois, já na temporada seguinte, sofreria uma grave contusão no joelho em Údine, que afetou a sua explosão e lhe obrigou a modificar o seu estilo de jogo.
O duelo entre Juventus e Monaco de 1998, contudo, não se esgotou nas semifinais. Em campo, estiveram 10 jogadores que se reencontrariam poucos meses depois na Copa do Mundo da França, agora como adversários nas quartas de final. Barthez, Henry, Trezeguet e Deschamps enfrentariam Del Piero, Inzaghi, Di Livio, Torricelli e outros italianos em um duelo dramático, decidido nos pênaltis, com vitória dos donos da casa. A vingança francesa estava consumada, e culminaria na conquista do título mundial, com os juventinos Zidane e Deschamps no centro da celebração.
Não por acaso, a Juventus olharia para aquele Monaco como um celeiro. Levou Henry em 1999, mas Titi não teve sucesso em Turim. Entretanto, a Vecchia Signora, acertaria em cheio no ano seguinte ao contratar Trezeguet, peça-chave da equipe que voltaria à final europeia em 2003 – quando foi derrotada pelo Milan. O embate franco-italiano de 1998, assim, funcionou como um prólogo de relações esportivas, narrativas cruzadas e encontros simbólicos que atravessariam décadas.
Quando Juventus e Monaco voltaram a se enfrentar na Champions, em 2014-15 e 2016-17, o roteiro se repetiu com variações geracionais: novamente o favoritismo italiano, de novo a juventude monegasca como promessa e ameaça, outra vez a Juve avançando à final. Em retrospecto, fica claro que tudo começou ali, naquela primavera europeia de 1998, quando um duelo aparentemente circunstancial revelou-se como antessala da história do futebol mundial.
Juventus: Peruzzi; Torricelli (Conte), Iuliano, Montero, Pessotto (Birindelli); Di Livio (Tacchinardi), Deschamps, Davids; Zidane; Del Piero, Inzaghi. Técnico: Marcello Lippi. Monaco: Barthez; Sagnol, Christanval (Carnot), Konjic; Martin (Henry), Djetou, Diawara, Pignol (Costinha); Benarbia; Trezeguet, Ikpeba. Técnico: Jean Tigana. Gols: Del Piero (35′, 45 + 3′ e 62′) e Zidane (87′); Costinha (45′) Árbitro: Nikolai Levnikov (Rússia) Local e data: estádio Delle Alpi, Turim (Itália), em 1º de abril de 1998
Monaco: Barthez; Martin, Christanval, Diawara, Léonard (Sagnol); Collins, Benarbia, Djetou; Henry, Trezeguet, Ikpeba (Spehar). Técnico: Jean Tigana. Juventus: Peruzzi; Torricelli, Birindelli, Iuliano, Dimas; Conte, Tacchinardi, Pessotto; Zidane (Pecchia); Del Piero, Inzaghi (Amoruso, Davids). Técnico: Marcello Lippi. Gols: Léonard (38′), Henry (50′) e Spehar (83′); Amoruso (15′) e Del Piero (74′) Árbitro: Urs Meier (Suíça) Local e data: estádio Louis II, Mônaco (Principado de Mônaco), em 15 de abril de 1998









































