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·17 de junho de 2026

Em jogo que marcou o fim da era Bearzot, a Itália foi eliminada da Copa de 1986 pela França

Imagem do artigo:Em jogo que marcou o fim da era Bearzot, a Itália foi eliminada da Copa de 1986 pela França

A Copa do Mundo do México começou para a Itália sob o peso de uma herança difícil de carregar. No Mundial anterior, na Espanha, os homens de Enzo Bearzot haviam transformado desconfiança em glória e levado a taça mais cobiçada do futebol para Roma após 44 anos. Ao longo de cerca de uma década, aquele grupo se transformou em parte da identidade nacional, símbolo de resistência e redenção esportiva. Em 1986, porém, a pergunta já não era se ícones daquela geração ainda possuíam talento suficiente para competir. A dúvida era mais incômoda: seria possível reviver o que pertencia a outro tempo? A merecida derrota para a França, nas oitavas, ratificou que não.

A verdade é que os sinais de desgaste não eram exatamente novos. Depois do título mundial de 1982, a Itália sequer conseguira se classificar para a Eurocopa de 1984, vencida pela França de Michel Platini – era cabeça de chave do Grupo 5 das eliminatórias, mas ficou na quarta posição, atrás de Romênia (classificada), Suécia e Checoslováquia, tendo empatado com o Chipre e somado, contra a modesta seleção cipriota, sua única vitória na chave depois de já ter a eliminação confirmada.


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Como já estava garantida na Copa de 1986 pela condição de campeã, a Itália passou mais de dois anos sem disputar uma partida oficial antes da estreia no México. Bearzot seguia no comando, respaldado pelo prestígio acumulado, mas o cenário ao redor era diferente e até a relação com a imprensa se deteriorara.

Dentre os 22 convocados, apenas 10 fizeram parte da campanha de 1982, embora quase todos tivessem papel central no time azzurro – as exceções eram o heroico Paolo Rossi, relegado ao banco por questões físicas, e Marco Tardelli. Aliás, as convocações do meia e de Pablito, vindos de temporadas muito ruins por Inter e Milan, respectivamente, eram contestadas. Assim como se lamentava a exclusão de Franco Baresi, capitão rossonero, que não era chamado desde que discutiu com o treinador nos Jogos Olímpicos de 1984; seu irmão, Giuseppe Baresi, porém, foi para o México.

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A Itália passou o jogo todo atrasada, correndo atrás dos franceses (AFP/Getty)

Ademais, dúvidas persistiam até sobre a escolha do goleiro entre Giovanni Galli e Franco Tancredi, com Walter Zenga como terceiro goleiro. A convocação refletia uma transição mal resolvida e se apoiava em seis nomes da Inter, quatro da Roma e três de Verona (campeão italiano em 1985) e Juventus (campeã europeia em 1985 e nacional em 1986).

Dentre os velhos campeões que permaneciam presentes e foram titulares em 1982, Gaetano Scirea, agora capitão, Giuseppe Bergomi, Antonio Cabrini e Bruno Conti seguiam como líderes do elenco, enquanto Alessandro Altobelli, que era opção a Rossi na Espanha e marcara gol na final, ganhava protagonismo no México. Ao mesmo tempo, outros reservas do tri (Galli e Pietro Vierchowod) e novas caras tentavam encontrar espaço num grupo cuja hierarquia já estava estabelecida. Nem todos os encaixes pareciam naturais. O próprio Bearzot buscava uma combinação que preservasse a experiência sem sufocar a renovação.

O Mundial mostraria rapidamente o tamanho do problema. A estreia no Grupo A, diante da Bulgária, terminou em 1 a 1. O modo como o resultado aconteceu alimentou inseguranças internas. Segundo os próprios jogadores, aquele empate revelou medos que permaneciam ocultos. A Itália deixou escapar a vitória a cinco minutos do fim do tempo regulamentar, aprofundando a ansiedade de um elenco que parecia viver entre a obrigação de honrar o passado e a incapacidade de reproduzi-lo.

Contra a Argentina, o desafio aumentava de dimensão. Do outro lado estava Diego Armando Maradona, em plena maturidade. O craque argentino, que visitara o companheiro napolitano Salvatore Bagni (e Fernando De Napoli, que seria seu colega de clube) na concentração italiana, conduzia uma seleção destinada a marcar época. A Itália saiu na frente graças a um pênalti convertido por Altobelli logo aos 6 minutos. Parecia o reencontro com sua tradicional capacidade competitiva. Mas a resposta argentina veio pelos pés de Diego, cujo toque preciso decretou novo empate: 1 a 1.

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Estrela da Juventus, Platini levou a melhor sobre uma Itália liderada pelo interista Altobelli (TempSport/Corbis/VCG/Getty)

Duas partidas, dois empates. A classificação passou a depender do confronto com a Coreia do Sul, tratada pelos italianos como um adversário perigoso. O jogo transformou-se numa batalha nervosa e violenta, com muitas faltas. A Itália venceu por 3 a 2, com doppietta de Altobelli e um gol contra sul-coreano, mas a atuação esteve longe de dissipar dúvidas. O segundo lugar do grupo foi conquistado mais pela capacidade de resistir do que pela demonstração de força.

O “prêmio” pela sobrevivência seria enfrentar a França. E não era qualquer França. Era a seleção campeã europeia, liderada por Platini, ícone da Juventus, e sustentada por um meio-campo extraordinário. Luis Fernandez, Jean Tigana e Alain Giresse ofereciam equilíbrio, inteligência e qualidade técnica. O conjunto treinado por Henri Michel transmitia maturidade, embora o técnico – que dirigiu a seleção olímpica que ficou com o ouro em 1984 – tivesse apenas 39 anos. Os franceses não precisavam provar que pertenciam à elite do futebol mundial; precisavam apenas confirmar isso numa Copa do Mundo.

De um lado, a dona do último Mundial. De outro, uma equipe ascendente, campeã olímpica e europeia. No meio, uma rivalidade de séculos representada por um embate geracional. Seria um dos mais pesados duelos das oitavas daquela Copa, ao lado do protagonizado por Argentina e Uruguai.

À qualidade técnica do meio-campo francês, com Platini, Tigana e Giresse, Bearzot tentou responder com prudência. Beppe Baresi, escalado no lugar do criativo Antonio Di Gennaro, recebeu a missão de acompanhar o camisa 10 da Juventus. O meio-campo, composto ainda por De Napoli e Bagni, ganhou mais um operário. A aposta privilegiava intensidade, disciplina e capacidade de combate. Era uma escolha coerente com a tradição italiana, mas também uma admissão involuntária de limites. Frente ao primor daquela geração francesa, restava competir através da organização e da entrega.

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No México, o talento do meio-campo da França se sobressaiu perante uma Itália meramente operária (AFP/Getty)

A esperança era que, diante da grande ocasião, surgisse novamente a velha centelha de 1982. Mas ela nunca apareceu. A França assumiu o controle do jogo desde cedo, sem necessidade de agressividade permanente. Jogava com a serenidade de quem conhecia sua superioridade e não via motivo para precipitação. Aos 12 minutos, Cabrini cobrou falta diretamente para o gol, obrigando o goleiro Joël Bats a intervir. Foi uma breve ilusão de equilíbrio.

Três minutos depois, aos 15, os franceses mostraram a diferença entre intenção e execução. Conti tentou uma jogada individual, foi desarmado por Manuel Amoros e a bola sobrou com Fernandez. O volante avançou e encontrou Dominique Rocheteau infiltrando. O toque rápido do atacante passou por Bergomi e chegou a Platini, que corria sozinho pelo centro. Le Roi invadiu a área e superou Galli com uma delicada conclusão por cobertura, na saída do arqueiro. O gol refletia a natureza daquela França: movimentos coordenados, verticalidade, inteligência na ocupação dos espaços e refinamento técnico nos momentos decisivos.

A Itália respondeu com dificuldade. Aos 18 minutos, num escanteio, Altobelli desviou de cabeça para Vierchowod finalizar torto, enquanto Giuseppe Galderisi tentou completar na pequena área e também errou. No fim das contas, Fernandez afastou o perigo, embora a bola fosse para fora. Foi o principal susto produzido pelos campeões mundiais durante boa parte da partida.

Enquanto isso, os franceses seguiam impondo o ritmo. Aos 23, Fernandez arriscou de longa distância e viu a bola passar rente à trave. Seis minutos depois, Scirea mostrou que não vivia o seu melhor momento ao perder o tempo da pelota e ser superado com facilidade por Yannick Stopyra, que o encobriu – o jeito foi derrubar o adversário com uma infração que, hoje, lhe renderia tranquilamente o cartão amarelo; no entanto, foi agraciado pelo árbitro Carlos Espósito. Platini cobrou a falta e Galli mandou para escanteio.

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Platini não teve uma tarde genial, mas foi o responsável por abrir o placar no Olímpico Universitário (AFP/Getty)

Na sequência, aos 30, Fernandez voltou a assustar com um disparo espetacular, do meio da rua. O canudo do franco-espanhol, que mais tarde seria um técnico famoso, explodiu no travessão. A sensação era clara: sob o sol de meio-dia na Cidade do México, a França acelerava apenas quando julgava necessário.

Do lado italiano, Conti ainda oferecia lampejos do talento que o consagrara, embora distante da exuberância de quatro anos antes. Scirea tentava compensar com experiência aquilo que as pernas já não entregavam com a mesma rapidez. Altobelli lutava isolado entre Maxime Bossis e Patrick Battiston. Aos 35 minutos, Conti cruzou da esquerda para Cabrini cabecear por cima do gol.

No intervalo, Bearzot reconheceu o fracasso parcial de seu plano. Beppe Baresi, que não ofereceu a pegada necessária no meio-campo, foi substituído por Di Gennaro. Mas a entrada do jogador do Verona não mudou o panorama e o segundo tempo apenas aprofundou a impressão de impotência da Itália.

A França controlava espaços, trocava passes com naturalidade e submetia o adversário a uma perseguição desgastante. Aos 51 minutos da etapa final, Platini desperdiçou boa oportunidade após tabela com Giresse. Pouco depois, aos 57, uma jogada coletiva, iniciada após ingênua perda de bola de Galderisi, definiu a classificação francesa e a queda italiana.

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Com boa atuação, Rocheteau deu muito trabalho a Bergomi e aos demais defensores da Nazionale (Getty)

Platini participou da construção. Fernandez encontrou Rocheteau. Tigana acelerou rompendo linhas até penetrar na área e devolver para Rocheteau, que venceu a dividida com Vierchowod e rolou para Stopyra concluir forte e com tranquilidade diante de Galli. A defesa italiana, conhecida por sua força, estava totalmente bagunçada – e Scirea, atrasado. Aos olhos de quem assistia, o jogo parecia decidido não apenas pelo placar, mas pela diferença de convicção. Havia em campo uma equipe plenamente consciente do que podia fazer e outra tentando desesperadamente recordar o que já fora. Naturalmente, sem sucesso.

Um minuto depois do segundo gol francês, Amoros recebeu lançamento preciso de Fernandez, ganhou facilmente de Scirea na corrida e desperdiçou a chance de ampliar com um arremate sem direção. A França flertava com a goleada e talvez só não tenha ido adiante porque o seu volante franco-espanhol saiu lesionado, substituído por Thierry Tusseau.

Bearzot lançou Gianluca Vialli no lugar de Galderisi, mas a Itália não melhorou. A Nazionale só conseguiu ameaçar em tentativas isoladas, como um chute de Conti e, já aos 90 minutos, uma conclusão de longa distância de Di Gennaro defendida por Bats. Antes disso, aos 89, Jean-Marc Ferreri recebeu de Giresse e, diante de uma zaga estática, quase transformara a superioridade francesa em um placar ainda mais severo. Galli, com grande defesa, cedeu escanteio. No fim das contas, o resultado foi modesto.

A derrota para a França condensou todas as contradições da expedição mexicana da Itália. Era uma equipe fria, pesada e frequentemente inofensiva, que tentava preencher com vontade a ausência de fantasia. Um time que nutria a expectativa de que antigos líderes reparassem um vazio que não podia ser ignorado.

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Uma defesa bagunçada deixou Galli vendido e permitiu a Stopyra ampliar o placar para a França (STAFF/AFP/Getty)

Bearzot não procurou culpados e assumiu a responsabilidade integral pela eliminação. O técnico rejeitou críticas aos jogadores e insistiu na coesão do grupo. Reconheceu a superioridade francesa em todos os setores do campo. Explicou suas escolhas táticas como tentativa de compensar um meio-campo tecnicamente inferior. Não colocou a responsabilidade no calor, na arbitragem ou no acaso.

Sua postura reforçou a dimensão humana daquele adeus. Em 10 anos de trabalho, conduzira a Itália ao quarto lugar de 1978, ao título mundial em 1982 e às semifinais da Eurocopa de 1980. Tornara-se uma das figuras mais influentes da história azzurra. No México, entretanto, sua trajetória alcançava o ponto final. Apesar de ter contrato até 1990, o treinador decidiu se demitir e, aos 58 anos, pendurou a prancheta. Em seu lugar entraria Azeglio Vicini, técnico com trajetória similar à sua – vinha do sistema da FIGC, a Federação Italiana de Futebol, comandando equipes de base do país. A queda da Nazionale também marcou as despedidas de Galli, Scirea e Conti, além de Beppe Baresi. Rossi e Tardelli, que não jogaram, não voltariam a ser chamados pela seleção.

A eliminação precoce foi recebida por parte da imprensa como algo mais profundo do que uma derrota em mata-mata. Ela inaugurou um debate doloroso sobre o futebol italiano: havia criatividade suficiente? A renovação fora conduzida adequadamente? Até que ponto a reverência aos campeões de 1982 impedira decisões mais radicais? De certa forma, houve estardalhaço, visto que a Nazionale foi terceira colocada em 1990 e vice-campeã em 1994, além de semifinalista da Euro 1988.

Vale destacar que o encontro entre França e Itália em 1986 reuniu, oito anos depois, muitas das figuras que haviam dividido o campo na Copa de 1978, quando jovens talentos das duas seleções começavam a anunciar o que representariam para o futebol global. De um lado, a Itália de Bearzot transformou aquela promessa em conquista ao erguer a Copa do Mundo em 1982. Do outro, a França amadureceu ao redor de Platini até dominar o continente com o título europeu de 1984.

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Altobelli foi um dos poucos italianos que se salvaram na Copa de 1986, mas não pôde muito nas oitavas (Getty)

O duelo das oitavas de final, portanto, colocou frente a frente duas gerações vitoriosas, cada uma à sua maneira. Desta vez, porém, o desfecho foi diferente: os Bleus finalmente derrotaram os azzurri num grande palco internacional, libertando-se de antigos complexos e encerrando o ciclo da campeã mundial, ainda que seu próprio caminho terminasse sem a taça, com o terceiro lugar no México.

Na memória italiana, a Copa de 1986 permanece sobretudo como a última fotografia de uma geração extraordinária. Alguns dos homens que haviam encantado o país na Espanha ainda vestiam a mesma camisa. Uma parte deles conservava lampejos do talento que os transformara em heróis. Outros sustentavam apenas o prestígio acumulado. Todos carregavam a expectativa de repetir o irrepetível. Contra a França de Platini, descobriram aquilo que o futebol costuma revelar com brutalidade: nenhuma geração vence o tempo.

Aquela tarde não apagou 1982. Tampouco diminuiu a importância de Bearzot e seus campeões. Apenas estabeleceu uma fronteira histórica. De um lado, o esplendor de uma equipe que devolvera a Copa do Mundo à Itália. Do outro, a necessidade inevitável de recomeçar. A então campeã voltava para casa nas oitavas de final. E, assim, tinha fim uma das eras mais marcantes da história da Nazionale.

Itália 2-0 França

Itália: Galli; Bergomi, Vierchowod, Cabrini; Scirea; G. Baresi (Di Gennaro), De Napoli, Bagni; Conti, Altobelli, Galderisi (Vialli). Técnico: Enzo Bearzot. França: Bats; Ayache, Battiston, Bossis, Amoros; Tigana, Fernandez (Tusseau), Giresse; Platini (Ferreri); Rocheteau, Stopyra. Técnico: Henri Michel. Gols: Platini (15′) e Stopyra (57′) Árbitro: Carlos Espósito (Argentina) Local e data: estádio Olímpico Universitário, Cidade do México (México), em 17 de junho de 1986

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