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·18 de setembro de 2026

Entre amizades, reconstruções e altitude: a trajetória de Antônio Carlos Zago até a Bolívia

Imagem do artigo:Entre amizades, reconstruções e altitude: a trajetória de Antônio Carlos Zago até a Bolívia

"Sou um guerreiro. Batalhei bastante para chegar onde eu cheguei". É assim que Antônio Carlos Zago se define, olhando para trás e relembrando de sua carreira como treinador e jogador. Hoje, quase 20 anos depois de deixar os gramados, o paulista vê como as amizades que criou foram primordiais para o sucesso na sua trajetória futebolística.

"Acho que eu poderia ter sido mais político na carreira. As pessoas me enxergam com uma certa soberba, mas eu não sou assim. É o meu jeito, eu sou mais fechado. Acho que as amizades que criei e cultivei desde a infância são o mais importante. No futebol, é difícil criar amizades. Muitos estão atrás de você apenas por interesse. Se fosse para me definir em uma palavra seria batalhador", disse Antônio Carlos Zago, em entrevista exclusiva a oGol.


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A trajetória de Zago fora das quatro linhas começou em 2008. Depois de encerrar a carreira por conta de uma sequência ingrata de lesões, o paulista nascido em Presidente Prudente voltou ao Corinthians, agora como diretor de futebol. E tudo pelo chamado de Andrés Sanchez, um de seus mais velhos amigos.

"Eu conheço o Andrés desde a época que trabalhava carregando caixas de tomate em Campinas, lá em 1983. Ele assumiu a presidência em 2008 e me chamou. Ele precisava de alguém que conhecesse o mercado, de olho em uma reformulação no elenco. O Corinthians não tinha poder de investimento. A maioria dos jogadores que levei ao Corinthians foi na base da amizade. Um deles foi o Chicão, que tinha jogado comigo no Juventude e tinha proposta do Palmeiras. Lembro até que o Vanderlei Luxemburgo, meu ex-treinador e amigo, ficou bravo comigo", relembra o treinador.

Os resultados foram satisfatórios. Com um elenco montado "na base do sacrifício", o Timão se sagrou campeão da Série B em 2008, retornou à elite nacional e, na temporada seguinte, faturou a Copa do Brasil, com a base montada por Zago. Ele, porém, foi demitido da equipe após polêmicas com Ronaldo Fenômeno e resolveu seguir sua carreira em outro lugar, agora como treinador.

Ao deixar o Parque São Jorge, Zago foi treinar o São Caetano, onde fez uma campanha consistente na Série B e colocou a equipe do ABC Paulista em um digno sétimo lugar. Veio, então, o convite para retornar a outro lugar que foi sua casa enquanto jogador, o Palmeiras, mas em meio à uma grave crise.

"Eu peguei o Palmeiras em sua pior época. Era uma bagunça total, totalmente diferente de quando eu joguei e do que é hoje. Era o poste fazendo xixi no cachorro. Tanto que, no ano seguinte, com o Felipão, o time foi rebaixado para a Série B. Talvez eu tenha me precipitado. Eu pensei várias vezes em recusar, mas aceitei pensando na família", pontuou o comandante.

A trajetória no Parque Antártica passou longe de ser positiva. A equipe terminou o Paulistão na 11ª colocação e sequer avançou ao mata-mata. Na Copa do Brasil, o Palestra caiu nas quartas para o Atlético Goianiense. E, no Brasileirão, Zago deixou o comando alviverde após 20 rodadas na 11ª posição.

O comandante pediu demissão após uma discussão com o atacante Robert ter sido divulgada na imprensa. Em comunicado após a saída, o clube paulistano falou em "trazer um treinador que honrasse a história do clube”, reforçando o caráter turbulento de sua nova estadia na Barra Funda.

O Rio Grande do Sul é sua segunda casa

Zago, então, passou por Grêmio Barueri, Mogi Mirim, Vila Nova e Pão de Açúcar, hoje Audax, até ir para fora do país. Foi auxiliar na Roma e no Shakhtar, onde aprendeu bastante sobre a maturação de jovens e aspectos táticos, até retornar ao Brasil em 2015, para treinar outro clube que conhecia bem: o Juventude. Hoje, o treinador é tido como ídolo no Alfredo Jaconi, principalmente pela passagem como comandante.

"Caxias do Sul é praticamente a minha segunda casa. Em 2015, o Juventude estava praticamente falido. 2016 foi um ano super difícil, o clube não sabia o que fazer. Não tinha dinheiro para nada. Construímos um time de pessoas que eu conhecia, com jogadores que queriam aparecer para o futebol. Eram 50% de jogadores de fora e 50% da base", lembra o técnico.

"A gente foi vice-campeão da Série C e vice-campeão gaúcho. Chegamos nas quartas de finais da Copa do Brasil. A gente foi eliminado pelo Atlético no Jaconi porque 'meteram a mão'. Anularam um gol impedido que estava válido por dois metros. Foi um ano muito vitorioso. Acho que é por tudo isso que lembram com carinho de mim no Juventude", acrescentou.

Depois de devolver o Ju à segunda divisão nacional, Zago recebeu o convite do Inter para a temporada de 2017. O Colorado vivia o momento mais fúnebre de sua história, com o primeiro rebaixamento para a Série B. E lá-se foi Antônio Carlos, tentando organizar mais uma reconstrução.

"Essa foi outra bucha, falando o português claro. Eu me via com um pouco mais de experiência para assumir o Inter, mas não sabia de todos os problemas. Diversos jogadores lá não queriam nada com nada. Tinham diversos salários atrasados e problemas arrastados do ano anterior. Aquele período de reformulação começou errado e as coisas caminharam errado. Tudo isso pesa nas costas do treinador. O futebol brasileiro, infelizmente, é assim", respondeu.

Zago relembra que seu primeiro desafio como treinador do Inter era a disputa do Gauchão. Por todos os percalços que os colorados tiveram em 2016, o Grêmio, que viria a ser campeão da Copa do Brasil no fim da temporada e faturaria a Libertadores em 2017, era o franco favorito à conquista do estadual, mas o Colorado seguia firme em busca do heptacampeonato, algo que só havia acontecido duas outras vezes na história.

"Todos já davam o Grêmio como campeão gaúcho. Por toda a nossa reconstrução e pelo grande time que eles tinham. Mas a gente eliminou eles na semifinal e enfrentamos o Novo Hamburgo na final. A gente empatou em casa em 2 a 2 e na volta, em Caxias do Sul, a gente massacrou o Novo Hamburgo. Fizemos de tudo, mas a bola não entrava. E acabamos perdendo o título nos pênaltis. Isso ficou na cabeça dos dirigentes", pontuou.

O carro chefe do Inter para aquele ano de 2017 era a Série B. E o objetivo do treinador era claro: devolver o clube à elite em uma temporada. No fim das contas, o clube celebrou o acesso, mas não foi com Zago no comando técnico. O comandante foi desligado do cargo após uma derrota para o Paysandu em Belém, na terceira rodada.

"A equipe estava começando a jogar bola, já estava tendo uma cara daquilo que eu queria. A gente vinha crescendo na Série B. A gente estava na terceira ou quarta colocação. O objetivo principal era subir. Um time grande que vai para a Série B vai ser campeão tranquilo, mas isso não aconteceu conosco. Mesmo assim, eu sabia que a gente ia subir. Nós tínhamos apenas cinco meses de trabalho. Por todos problemas que o Inter vivia naquele tempo e pela pressão da torcida (não deu certo). Quem sabe um dia a gente volta para terminar o trabalho", respondeu.

Uma injeção de ânimo para retornar à elite foi a volta de D’Alessandro. O ídolo máximo do Inter havia saído em 2016 para defender o River Plate por empréstimo, mas retornou ao Beira-Rio para ajudar a equipe nesse momento nebuloso. A presença do argentino, nas palavras de Zago, foi primordial para o clube.

"Ele é um monstro. Ele merece tudo o que fez de bom lá. E ele me ajudou bastante. Não só dentro de campo, mas com torcida, com diretoria. Ele conhece tudo lá. Tem uma personalidade impressionante. Era o líder daquela equipe. É um dos maiores, senão o maior ídolo do Sport Club Internacional. Só tenho coisas boas para falar dele", adicionou.

O projeto da Red Bull e a parceria com Zico no Japão

Depois de deixar o Inter após 30 jogos, Zago passou pelo Fortaleza e ainda retornou ao Juventude antes de embarcar em outro projeto de sucesso. Em 2018, o treinador foi contratado pelo Red Bull Brasil, um dos primeiros casos de sucesso de um clube-empresa no futebol brasileiro. E ainda antes da fusão com o Bragantino...

"Fazer parte de um clube-empresa (foi um motivo para aceitar). Isso sempre me atraiu. Nós sofremos um pouco ali na Copa Paulista, caindo na semifinal para a Ferroviária, mas isso foi praticamente a preparação para o Paulista e o Brasileiro do ano seguinte. O clube tinha uma metodologia clara. E a gente já sabia da fusão. O meu irmão Thiago Scuro me chamou e me adiantou isso. Eu sempre me vi em projetos como esse", disse o técnico.

Desde o começo do projeto, enquanto ainda mandava seus jogos em Campinas, o Red Bull Brasil tinha, como um de seus focos, o desenvolvimento de jovens jogadores. Foi assim com Claudinho e Léo Ortiz, por exemplo. Com o meia, Zago tem uma relação "de pai para filho".

"O pai do Claudinho me agradece até hoje. Ele é um dos meus filhos fora do casamento. Eu já conhecia ele, sabia que ele tinha potencial. Mas ele era um moleque chato. Quando eu cheguei lá ele tava encostado e seria emprestado, me falavam que 'era muito difícil melhorar ele'. Pedi para ele ficar e eu encontrei a posição certa para ele. Ele jogava como extremo, trouxe ele para o meio. Ele se transformou. Foi um cara que me deu bastante trabalho, mas que me dá prazer ao ver ele jogar. Foi um trabalho muito gostoso", pontuou.

Depois de pouco mais de dois anos, sendo coroado com o título da Série B de 2019, Zago foi atender o pedido de outro amigo, mas também ídolo: Zico. O lendário jogador do Flamengo era diretor de futebol no Kashima Antlers, do Japão, e convidou o treinador paulista para se aventurar na Ásia, um país que ele já conhecia enquanto jogador.

"Eu pensava que o Zico ia me convidar para um de seus jogos festivos. Eu era louco para voltar para o Japão, e trabalhar com ele então. Não dá para falar 'não'. Eu tenho uma admiração impressionante por ele. Ele sempre me procurava para explicar como era esse trabalho de treinador lá no Japão. Eu tive várias lições. O respeito e a admiração que eu tinha por ele só cresceram", falou Zago.

Zago passou um dos momentos mais delicados de sua vida no ano de 2020. Durante a pandemia, sua mãe veio a falecer em virtude de um infarto. O futebol foi muito importante para que o treinador seguisse firme, respeitando algo que seria o desejo dela.

"Quando eu soube, o Zico me falou para voltar ao Brasil, mas eu não fui. Ela estava muito contente que eu tinha voltado para o Japão, e ia me visitar no nosso aniversário em maio. Meu pai já havia falecido, e eu sei que eles iriam gostar que eu trabalhasse, que eu seguisse a minha vida. Não foi fácil, mas faz parte da vida. Tivemos um período sem jogos e eu pude me recuperar. Foi ter fé em Deus para passar por cima disso tudo", acrescentou.

Desbravando o futebol boliviano

Em 2021, depois de uma temporada e meia no Japão, somando 48 jogos no Kashima Antlers, Antônio Carlos Zago retornou à América do Sul, mas para desbravar o futebol boliviano. E essa opção veio por mais um convite para um projeto de clube empresa.

O chamado foi do Bolívar, que mantém uma relação com o Grupo City. Basicamente, a equipe boliviana tem um contrato de consultoria e de parceria com o conglomerado, mas não é uma equipe que pertence ao grupo. No ainda pouco desenvolvido futebol boliviano, isso é um fator diferencial.

"Eu fui para a Bolívia a convite do Grupo City. Esse convite veio em 2020, ainda antes de eu ir para o Japão. Naquele momento, não apareceu quase nada do Brasil. Foi um ano e meio no Bolívar, o que me abriu portas para seguir por aqui e, depois, treinar a seleção. Ganhei um Campeonato Boliviano e uma Copa Paçeña", respondeu.

A passagem no maior clube do país colocou o treinador no cargo da seleção nacional. Zago assumiu o cargo nas Eliminatórias para a Copa de 2026 e entende que, apesar de poucos resultados, somando três vitórias, um empate e dez derrotas em 14 jogos, o empenho foi diretamente responsável pelo sucesso posterior da seleção.

"Foi o começo de um trabalho que terminou com a Bolívia na repescagem da Copa. Foi um trabalho de reformulação que iniciou no Pré-Olímpico. Ficamos na terceira ou quarta colocação do Pré-Olímpico e eu levei uma molecada para a Copa América. O futebol boliviano está um pouco atrás. Não temos a mesma qualidade que Brasil, Argentina, Uruguai. A gente espera que melhore, mas falta um pouco de condições e um campeonato mais competitivo também", disse.

No entendimento do treinador brasileiro, o esporte na Bolívia vem em uma crescente considerável. Isso pode ser observado pela quantidade de atletas bolivianos que jogam fora do país, número que tem crescido com o decorrer do tempo. Ainda sim, é necessário bastante trabalho.

"O futebol na Bolívia é praticamente o que era no Brasil há 30 anos. Não temos a mesma estrutura. Poucos aqui têm centro de treinamento, a maioria tem ali um campinho para treinar e é isso. Nós do The Strongest temos de ter todo o cuidado possível para ter esse campo durante todo o ano. O diferencial aqui é o Bolívar. Estamos tentando melhorar, só que está sendo a passos curtos. A gente espera que a Bolívia possa ter esse desenvolvimento que conseguiram os outros países aqui da América do Sul", afirmou.

As equipes bolivianas sempre renderam problemas para os brasileiros pelo fator da altitude. E o treinador entende que isso é sim uma arma a ser usada, também visando equilibrar os confrontos e dar mais chances aos bolivianos nas competições internacionais.

"A Bolívia joga no alto porque é permitido jogar no alto. E tem que tirar proveito disso. Quando eu treinei a seleção, eu dei a ideia de saírmos do Hernan Siles, a 3500m de altura, para El Alto, a 4150m. Isso fez diferença para a seleção nas ultimas eliminatórias. E nunca ninguém morreu na altura. As pessoas falam 'estamos fazendo trabalho com máquinas de oxigênio'. Isso é a maior balela do mundo. Para se adaptar bem vai um mês", respondeu.

"A altura sempre vai favorecer o futebol boliviano. Até quando for permitido eles vão tirar proveito. É uma dificuldade para todo mundo que vem aqui. Mas as coisas estão mudando, a seleção está evoluindo. Cada vez mais temos bolivianos espalhados pelo mundo", adicionou.

A última, e atual, experiência de Antônio Carlos Zago no futebol boliviana é no The Strongest. O comandante brasileiro assumiu a equipe nesta temporada e, em dez jogos, soma sete vitórias e três derrotas. Depois de um início turbulento sob outro comando, o The Strongest voltou à briga pelo título. Atualmente, o clube soma 42 pontos empatado com o Bolívar na segunda colocação e a três pontos do líder Always Ready.

"Entramos agora na briga pelo título e faltam 11 jogos. Nosso foco é o título. Vamos entrar agora na pausa da data Fifa e só voltamos a jogar pelo Campeonato Boliviano em outubro. Temos um tempo para preparar a equipe. Se não der para buscar o título, uma vaga na fase de grupos da Libertadores seria bom", pontuou.

Zago relembra uma situação nos tempos de jogador do Palmeiras para explicar a força de seu grupo no The Strongest. Na visão do comandante, ter uma conexão sólida entre os atletas dentro das quatro linhas é algo primordial para que os resultados cheguem.

"No Palmeiras, eu não falava com o Edmundo, mas a gente se amava dentro de campo. Aqui, os jogadores têm um ótimo relacionamento fora e estão levando isso para dentro de campo. Acho que isso pode fazer a diferença para nós. Os jogadores estão se adaptando às minhas ideias e a equipe melhorou desde que eu cheguei. Os jogadores estão com vontade de melhorar, de incomodar o Bolívar e o Always Ready, que são os times a serem batidos", falou.

"Acho que o principal de tudo (para o sucesso da equipe) é a qualidade técnica. Mas o mais importante é ter o vestiário na mão, o teu relacionamento com os jogadores, fazer eles comprarem a ideia. Se o jogador entrar em campo e não quiser nada com nada, tu não tem o que fazer. A condução do grupo é importantíssima para ter sucesso", adicionou Zago.

Apesar de estar adaptado ao futebol boliviano e tirar proveito da experiência, o treinador não fecha as portas para um eventual retorno ao Brasil. Porém, no atual momento, o paulista vê algumas portas fechadas, também pela multiplicação de treinadores estrangeiros no futebol brasileiro.

"Eu vejo de classificar para a Libertadores e permanecer o próximo ano aqui. Eu tenho vontade de ter uma oportunidade no futebol brasileiro. Nunca fui contra estrangeiros, mas os estrangeiros têm que fazer algo diferente. Aqui na Bolívia, eu tenho que trabalhar mais que os outros. Eles têm que dar algo a mais", falou.

"Não é sendo saudosista, mas eu relembro minha época de jogador e, vendo atletas que hoje chegam ao Brasil, muitos não jogariam a Série C naquela época. Chegam muitos estrangeiros no Brasil e alguns tiram a oportunidade de um jovem crescer. Os estrangeiros que estão no futebol brasileiro, salvo alguns como Abel Ferreira, não estão acrescentando em nada no futebol brasileiro. Os treinadores brasileiros estão fazendo seus bons trabalhos, como o Guanaes, o Seabra, o Filipe Luís. Tem que ter a mesma paciência que tem com os estrangeiros com a gente. Acredito que os dirigentes têm que olhar um pouco para os conterrâneos, e não tanto lá para fora", finalizou.

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