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·16 de julho de 2026

Espanha x Argentina: o futebol terá a final que sempre mereceu.

Imagem do artigo:Espanha x Argentina: o futebol terá a final que sempre mereceu.

Argentina e Espanha disputarão a final da Copa do Mundo de 2026 no próximo domingo, no MetLife Stadium. De um lado, a atual campeã mundial, que superou a Inglaterra por 2 a 1 e chega à segunda decisão consecutiva. Do outro, uma seleção espanhola que venceu a França por 2 a 0 e transformou em resultado um trabalho construído durante mais de uma década.

Não será apenas o encontro entre as duas melhores seleções do torneio.


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A final coloca frente a frente dois modelos diferentes, duas maneiras de construir uma seleção vencedora e duas histórias que, embora tenham percorrido caminhos distintos, estão muito mais conectadas do que parecem.

A Espanha chegou até aqui sustentada por um projeto institucional. Uma ideia que atravessa as categorias de base, acompanha jogadores durante sua formação e prepara treinadores para dar continuidade ao mesmo modelo na equipe principal.

A Argentina percorreu um caminho mais instável.

A AFA já havia iniciado uma reorganização antes da chegada de Lionel Scaloni ao comando principal. Existia uma intenção, alguns profissionais importantes já estavam dentro da estrutura e Claudio Tapia demonstrava compreender a necessidade de recuperar uma identidade para a seleção.

Mas foi Scaloni, ao lado de sua comissão técnica, quem transformou essa intenção em um projeto funcional, vencedor e construído ao redor de Lionel Messi.

A Espanha preparou Luis de la Fuente durante anos para orquestrar seu sistema.

Scaloni precisou organizar o sistema argentino enquanto já era responsável por fazê-lo vencer.

É essa diferença que ajuda a explicar como as duas seleções chegaram ao mesmo lugar.

A Argentina continuava chegando, mesmo sem um caminho

A Argentina nunca deixou de produzir jogadores talentosos. Também nunca perdeu aquilo que historicamente define seu futebol: a entrega, a agressividade, a força emocional e a capacidade de transformar qualquer partida em uma disputa de sobrevivência.

Mesmo durante anos de desorganização, a seleção continuou competitiva.

Chegou à final da Copa do Mundo de 2014, disputou decisões consecutivas de Copa América e, em 2018, mesmo no momento mais caótico de seu ciclo, foi eliminada pela futura campeã França em uma partida aberta e equilibrada em diferentes momentos.

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Lionel Messi deixa o gramado após a derrota para a Alemanha na final da Copa do Mundo de 2014. Mesmo sem um projeto consolidado ao seu redor, a Argentina voltou a disputar uma decisão mundial muito impulsionada pelo talento do camisa 10.

Foto: FIFA.

Mas chegar não significava possuir um projeto.

Diego Maradona, Sergio Batista, Alejandro Sabella, Tata Martino, Edgardo Bauza e Jorge Sampaoli passaram pelo comando com perfis, ideias e formas de trabalho completamente diferentes. Não existia uma linha capaz de conectar um treinador ao outro ou de garantir que o processo continuaria após uma troca.

A Argentina sobrevivia ao próprio caos.

E boa parte dessa sobrevivência tinha nome e sobrenome.

Lionel Messi.

A sorte de ter Lionel Messi

A Argentina teve muita sorte de Messi nascer argentino.

Isso não diminui o país, sua história ou os jogadores que estiveram ao lado dele. Apenas reconhece uma realidade: ter um atleta que pode ser considerado o maior da história permite que uma seleção continue competindo mesmo quando a estrutura ao redor não funciona como deveria.

Durante muitos anos, Messi decidiu partidas, carregou responsabilidades e escondeu problemas que seriam fatais para praticamente qualquer outra equipe.

A Argentina chegou a finais, mas não conseguia transformar essas campanhas em continuidade. Após cada derrota, a pressão recaía principalmente sobre seu melhor jogador.

Questionava-se sua personalidade, sua liderança, sua relação com a camisa e até sua identidade argentina. Muito menos se discutia sobre a incapacidade da federação de construir um ambiente que potencializasse aquilo que Messi representava.

Em 2018, o cenário atingiu seu limite.

Jorge Sampaoli chegou como um dos treinadores argentinos mais valorizados daquele momento, mas encontrou pouco tempo, um ambiente conturbado e um elenco que parecia não confiar completamente no trabalho.

Sua passagem terminou sem que a Argentina tivesse controle sobre a própria equipe.

Dentro daquela comissão, porém, havia um jovem auxiliar que conseguiu preservar uma relação positiva com os jogadores e Tapia resolveu banca-lo, de início, no sub-20 apenas.

Lionel Scaloni.

A reorganização começou antes dele

Seria injusto afirmar que tudo começou exclusivamente com Scaloni.

Quando Claudio Tapia assumiu a AFA, já existia uma preocupação em reorganizar as seleções e recuperar profissionais ligados a uma geração importante do futebol argentino.

Pablo Aimar e Diego Placente chegaram à estrutura antes de Scaloni assumir definitivamente a equipe principal. Os dois passaram a trabalhar com as categorias de base e se tornaram peças importantes na aproximação entre formação e seleção principal.

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Diego Placente e Pablo Aimar chegaram à AFA em 2017 e se tornaram peças fundamentais na reconstrução da seleção argentina. Enquanto Aimar passou a integrar a comissão técnica de Lionel Scaloni, Placente assumiu as categorias de base, consolidando uma estrutura que conecta a formação de jogadores à equipe principal.

Foto: Reprodução/AFA.

Isso demonstra que havia uma visão anterior.

A AFA buscava profissionais jovens, identificados com a camisa e capazes de conversar com uma geração de jogadores que talvez não se conectasse da mesma maneira com treinadores mais distantes.

Aimar possuía um valor ainda mais especial.

Messi nunca escondeu que cresceu admirando seu futebol. Colocá-lo dentro da estrutura significava aproximar a seleção de uma figura respeitada pelo principal jogador do país e por boa parte do elenco.

Aimar, Placente, Scaloni, Walter Samuel e Bernardo Romeo também compartilhavam uma ligação importante: todos fizeram parte da geração argentina campeã mundial sub-20 em 1997, sob o comando do lendário José Pekerman.

Não era simplesmente uma reunião de antigos jogadores.

Era a recuperação de profissionais formados dentro de uma das escolas mais importantes da história recente da seleção argentina.

Tapia entendia que aquela geração poderia ajudar a reconstruir o ambiente.

O que ele ainda não sabia era que um de seus integrantes se transformaria no principal responsável por organizar todo o projeto.

Uma aposta que poderia ter dado errado

Após a saída de Sampaoli, Scaloni não foi imediatamente apresentado como o grande treinador do futuro argentino.

Ele era uma solução interina.

Um profissional jovem, sem experiência relevante como comandante principal, mas que conhecia o ambiente, possuía boa relação com os atletas e havia chamado atenção pelo trabalho realizado nos bastidores.

A AFA ainda avaliava outros nomes.

Scaloni recebeu uma oportunidade porque estava disponível, conhecia os jogadores e demonstrava capacidade para conduzir aquele momento de transição.

Foi uma aposta.

E existe, sim, uma parcela de sorte no fato de essa escolha ter revelado um treinador tão competente.

Ninguém poderia garantir que Scaloni seria capaz de reconstruir o vestiário, renovar o elenco, criar um meio-campo dominante e montar o melhor ambiente possível ao redor de Messi.

Mas sorte não explica a permanência.

A AFA teve o mérito de perceber a confiança que os jogadores depositavam nele. Também teve competência para não interromper o processo quando a equipe ainda apresentava um futebol irregular.

Na Copa América de 2019, a Argentina terminou na terceira colocação. Havia sinais de evolução, mas o time ainda estava distante do nível que alcançaria posteriormente.

Uma nova troca de treinador seria perfeitamente possível.

Claudio Tapia decidiu manter Scaloni.

A federação entregou espaço para que ele e sua comissão começassem a tomar as decisões mais importantes.

Foi nesse momento que uma intenção começou verdadeiramente a se transformar em projeto.

Quando o projeto passa a funcionar por Scaloni

Scaloni não recebeu uma estrutura pronta.

Recebeu jogadores talentosos, profissionais competentes ao seu redor e a responsabilidade de organizar uma seleção inteira em torno do maior jogador de sua história.

Foi ele quem precisou renovar o elenco sem romper completamente com suas principais referências.

Foi ele quem construiu um meio-campo capaz de competir, controlar partidas e oferecer a Messi liberdade para decidir.

Foi ele quem reuniu uma comissão próxima dos atletas e criou um ambiente em que o principal jogador da equipe finalmente se sentisse completamente respaldado.

O projeto argentino não nasceu exclusivamente na cabeça de Scaloni. Tapia já havia iniciado uma reorganização, Aimar e Placente estavam dentro da estrutura e, posteriormente, Bernardo Romeo ajudaria a fortalecer ainda mais o trabalho das categorias de base.

Mas a seleção principal passou a funcionar profundamente por causa do treinador.

A Argentina já havia tentado colocar grandes nomes e campeões do passado no comando. Maradona carregava identificação, respeito e uma história incomparável com a camisa.

Não funcionou.

Com Scaloni, funcionou.

Porque ele não era apenas um símbolo.

Era um treinador capaz de transformar proximidade emocional em decisões técnicas e comportamentos coletivos.

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Lionel Scaloni durante partida. Mais do que conquistar títulos, o treinador reorganizou a seleção argentina, construiu uma identidade coletiva e potencializou uma geração liderada por Lionel Messi.

Foto: Getty Images.

A Argentina passou a jogar por Messi sem transformar os outros atletas em simples coadjuvantes. O time corria por ele, protegia seus espaços e criava condições para que recebesse a bola onde ainda poderia decidir.

Ao mesmo tempo, Messi se entregava a um grupo que demonstrava estar disposto a vencer também por ele.

A Copa América de 2021 retirou o peso que acompanhava toda aquela geração. O torneio surgiu em um momento favorável do processo, quando a equipe já apresentava uma evolução clara e ganhou uma nova oportunidade de encerrar seu jejum antes da Copa de 2022.

Mas a conquista não foi sorte.

A Argentina venceu porque já possuía outra identidade, outro ambiente e uma mentalidade completamente diferente.

Após aquele título, deixou de entrar em campo carregando o medo de uma nova frustração.

Passou a jogar sabendo que poderia ser campeã.

Scaloni transformou uma seleção que dependia de Messi em uma equipe capaz de potencializá-lo.

E, ao fazer isso, também construiu um projeto que provavelmente não funcionaria da mesma maneira sem sua presença.

Do outro lado da final, a Espanha vive uma realidade diferente.

Seu projeto não passou a existir por causa de Luis de la Fuente. Mas poucos profissionais poderiam conhecê-lo, interpretá-lo e conduzi-lo com a profundidade de quem passou 13 anos sendo preparado dentro dele.

Luis de la Fuente: moldado para orquestrar

A Espanha chega à final por um caminho diferente.

Seu projeto não começou com Luis de la Fuente. A identidade moderna da seleção espanhola nasceu anos antes, a partir de uma revolução que teve no Barcelona de Pep Guardiola, em 2008, um de seus principais pontos de partida.

A valorização da posse, o domínio do meio-campo, a ocupação dos espaços e a formação de jogadores capazes de interpretar o jogo coletivamente passaram a definir uma nova era do futebol espanhol.

Quando De la Fuente entrou na estrutura da Federação Espanhola, esse modelo já existia.

Antes disso, sua trajetória no futebol de clubes havia sido pouco expressiva. Ele não chegou à seleção como um treinador consagrado, cercado por títulos ou disputado pelos maiores times da Europa.

Aceitou começar de baixo.

Em 2013, assumiu a seleção sub-19. Depois, passou pelo sub-21 e comandou a equipe olímpica. Foram dez anos trabalhando nas categorias de base antes de receber, em 2023, a oportunidade de dirigir a seleção principal.

Hoje, são 13 anos dentro da estrutura espanhola: dez formando jogadores e compreendendo o funcionamento do projeto na base, além de três conduzindo sua versão mais alta.

De la Fuente não recebeu apenas uma ideia para administrar.

Precisou aprender a interpretá-la em diferentes momentos.

Durante sua passagem pelas categorias inferiores, o futebol evoluiu, os adversários encontraram novas respostas e a Espanha precisou incorporar outras ferramentas ao mesmo modelo.

Quando Luis Enrique assumiu a seleção principal, essa atualização ficou mais clara.

A Espanha não abandonou sua essência. Continuou valorizando a posse, o controle, a superioridade no meio-campo e a formação de meias tecnicamente excepcionais. Não por acaso, chega a esta final com Pedri, Gavi, Rodri, Fabián Ruiz, Mikel Merino, Martín Zubimendi e Dani Olmo, além de outros nomes que sequer cabem em uma única convocação.

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Mesmo após a evolução do modelo espanhol, o meio-campo continua sendo a principal força da seleção. Aos 23 anos, Pedri simboliza a continuidade de uma tradição que passou por Xavi, Iniesta, Busquets e hoje segue ao lado de Rodri, Fabián Ruiz, Gavi, Zubimendi e Merino.

Foto: FIFA.

O DNA permaneceu.

O que mudou foi a quantidade de respostas dentro dele.

O futebol passou a exigir mais amplitude, velocidade e capacidade de vencer duelos pelos lados. A Espanha compreendeu que precisava continuar dominando por dentro, mas também formar pontas desequilibrantes e laterais mais agressivos.

Não era uma troca de modelo.

Era uma ampliação.

E De la Fuente, ainda trabalhando na base, precisou acompanhar essa evolução.

Seu mérito não foi ser o principal responsável por atualizar o futebol espanhol. Naquele momento, o grande nome dessa transformação na seleção principal era Luis Enrique.

O mérito de De la Fuente foi entender a nova necessidade, adaptar seu trabalho e participar diretamente da formação dos jogadores capazes de fazê-la funcionar.

Ele se tornou uma espécie de camaleão dentro do sistema espanhol.

Conhecia profundamente a identidade original, mas não ficou preso a uma única versão dela. Continuou formando meias para controlar o jogo, ao mesmo tempo em que preparava pontas para desequilibrar, laterais para atacar zonas mais avançadas e equipes capazes de acelerar sem perder a posse como referência.

De la Fuente não inventou cada versão do modelo.

Mas ajudou a formar os jogadores que permitiram que esse mesmo modelo se tornasse mais completo.

Por isso, dizer que o projeto espanhol é maior do que seu treinador não diminui seu trabalho.

A estrutura ofereceu uma direção.

De la Fuente passou uma década transformando essa direção em formação.

Quando finalmente recebeu a seleção principal, não encontrou um sistema estranho. Encontrou o ponto mais alto de um trabalho que acompanhava e ajudava a executar havia dez anos.

Scaloni precisou transformar uma intenção em projeto enquanto já comandava a Argentina.

De la Fuente foi moldado na base para se tornar o orquestrador de uma estrutura consolidada.

Um precisou construir enquanto competia.

O outro precisou absorver, adaptar e formar jogadores para diferentes exigências da mesma ideia até estar preparado para conduzi-la.

A Espanha não encontrou um treinador por acaso.

Ela o formou para esse momento.

E, quando finalmente chegou à equipe principal, De la Fuente encontrou do outro lado da final um profissional que, anos antes, também havia passado por sua sala de aula.

Professor e aluno, agora em lados opostos

A ligação entre Luis de la Fuente e Lionel Scaloni começou muito antes desta final.

Durante sua formação como treinador na Espanha, Scaloni foi aluno de De la Fuente. Não se tratou de uma convivência longa entre técnico e auxiliar, nem significa que o espanhol tenha criado a identidade do treinador argentino.

Mas também não foi uma coincidência sem importância.

Scaloni encontrou naquele período uma escola de futebol baseada no controle da bola, na força do meio-campo, na ocupação racional dos espaços e na compreensão coletiva do jogo.

Anos depois, parte desses elementos apareceria em seu trabalho na Argentina.

Não como uma cópia, como repertório.

A principal qualidade de Scaloni foi perceber que sua seleção não precisava abandonar a própria identidade para se tornar mais organizada.

A Argentina continuou sendo uma equipe agressiva, intensa, emocionalmente forte e disposta a transformar cada duelo em uma disputa física e mental.

Continuou pressionando.

Continuou sabendo sofrer.

Continuou carregando aquela sensação de que cada bola pode ser a última.

Mas passou a fazer tudo isso com uma relação muito mais confortável com a posse.

Scaloni construiu um meio-campo capaz de controlar partidas, circular a bola com paciência e decidir o momento correto de acelerar. Sua equipe aprendeu a atrair a pressão, encontrar o homem livre e utilizar a posse não apenas para atacar, mas também para controlar o ritmo do jogo.

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A principal transformação promovida por Lionel Scaloni passou pelo meio-campo. Ao redor de Lionel Messi, a Argentina encontrou equilíbrio, intensidade e controle do jogo, formando um setor capaz de unir a qualidade técnica do futebol espanhol à tradicional competitividade argentina.

Foto: Getty Images.

A Argentina de Scaloni não é uma Espanha vestida de azul e branco.

É uma seleção argentina que incorporou novas ferramentas sem perder aquilo que sempre a tornou reconhecível.

Esse equilíbrio ajuda a explicar por que o trabalho deu tão certo.

Scaloni não tentou substituir a raça argentina por uma ideia estrangeira. Ele entendeu que poderia adicionar organização, domínio territorial e controle com a bola à intensidade histórica do país.

O futebol espanhol ampliou seu repertório.

A identidade argentina definiu como esse repertório seria utilizado.

Dois treinadores, responsabilidades diferentes

A final coloca frente a frente dois profissionais que tiveram papéis distintos dentro de seus projetos.

De la Fuente passou dez anos nas categorias de base antes de assumir a seleção principal. Foi preparado dentro de uma estrutura já estabelecida, acompanhou suas transformações e ajudou a formar jogadores capazes de executar diferentes exigências do mesmo modelo.

Scaloni assumiu uma responsabilidade maior na organização do projeto argentino. A AFA já havia dado passos importantes, recuperado profissionais ligados à escola de Pekerman e iniciado uma aproximação entre base e seleção principal, mas foi ele quem transformou essa estrutura em uma equipe competitiva.

Scaloni reorganizou o vestiário, conduziu a renovação do elenco, construiu um meio-campo capaz de controlar partidas e encontrou a melhor maneira de potencializar Lionel Messi sem transformar o restante da equipe em coadjuvante.

De la Fuente transformou uma estrutura consolidada em execução.

Scaloni transformou uma intenção em funcionamento.

Isso não torna um trabalho superior ao outro. Apenas mostra que foram construídos de maneiras diferentes.

O espanhol precisou compreender profundamente um sistema maior do que ele para se tornar seu principal orquestrador. O argentino precisou assumir o protagonismo de um processo que provavelmente não funcionaria da mesma maneira sem sua presença.

Mais do que a história de uma aula

A narrativa de professor e aluno é inevitável, mas precisa ser interpretada da maneira correta.

De la Fuente não chega à final para avaliar o antigo aluno.

Scaloni não entra em campo tentando provar que superou o professor.

Os dois já construíram trajetórias grandes demais para que esse encontro seja reduzido a uma disputa pessoal.

A conexão serve para mostrar como as ideias circulam dentro do futebol.

Um treinador pode aprender determinados princípios, levá-los para outra realidade, misturá-los com uma identidade completamente diferente e construir algo próprio.

Foi isso que Scaloni fez.

De la Fuente participou de sua formação.

Mas o treinador argentino transformou esse conhecimento através de suas experiências, de sua comissão e das características de seus jogadores.

O resultado é um confronto entre duas seleções que acreditam profundamente no coletivo, mas expressam essa crença de maneiras distintas.

A Espanha procura controlar o jogo para atacar continuamente.

A Argentina controla para escolher o momento de atacar.

A Espanha encontra segurança na continuidade de seu sistema.

A Argentina encontrou segurança no grupo construído ao redor de Scaloni e Messi.

As duas possuem jogadores capazes de resolver uma partida individualmente.

Nenhuma depende apenas disso.

Talvez seja justamente essa compreensão que explique o respeito entre os treinadores.

Antes da final, não existe necessidade de provocação.

Existe reconhecimento.

De la Fuente sabe o tamanho do trabalho realizado por Scaloni.

Scaloni compreende a importância do espanhol em sua formação e a complexidade do projeto que encontrará do outro lado.

O professor enfrentará um aluno que já construiu sua própria escola.

E essa relação entre aprendizado, formação e identidade não termina na área técnica.

Porque a ideia de futebol que atravessa os dois treinadores possui uma ligação profunda com outra escola.

Uma escola que não estará representada apenas no modelo espanhol, mas também nos dois principais jogadores desta final.

A La Masia.

A final da La Masia

A relação entre professor e aluno não é a única ponte entre Argentina e Espanha.

Existe outra escola no centro desta final.

Luis de la Fuente nunca pertenceu à La Masia. Sua formação como jogador está muito mais ligada ao Athletic Bilbao, enquanto sua trajetória como treinador foi construída principalmente dentro da Federação Espanhola.

Ainda assim, é impossível compreender a identidade moderna da Espanha sem reconhecer a influência do Barcelona.

O futebol espanhol não nasceu em 2008, assim como a posse de bola e a valorização dos meio-campistas não foram inventadas por Pep Guardiola. Mas foi aquele Barcelona que levou esses princípios ao seu nível mais dominante e ajudou a estabelecer o modelo que definiria a melhor geração da história da seleção.

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A relação entre Guardiola e Messi marcou o nascimento do futebol que redefiniu a Espanha e o futebol. O modelo desenvolvido no Barcelona tornou-se a principal referência da seleção espanhola e, anos depois, influenciou treinadores como Luis de la Fuente e, indiretamente, Lionel Scaloni durante sua formação na Espanha.

Foto: Getty Images.

Controle da bola.

Superioridade no meio-campo.

Pressão imediata após a perda.

Jogadores tecnicamente preparados para interpretar diferentes espaços e solucionar problemas coletivamente.

A Espanha campeã mundial em 2010 não era simplesmente uma cópia do Barcelona, mas carregava sua influência em praticamente todos os movimentos. Sete jogadores que pertenciam ao clube catalão começaram aquela final contra a Holanda. Seis deles haviam passado pela La Masia: Gerard Piqué, Carles Puyol, Sergio Busquets, Xavi Hernández, Andrés Iniesta e Pedro Rodríguez. Cesc Fàbregas, também formado na academia, entrou durante a partida e participou diretamente do gol do título.  

O Barcelona não cedeu apenas jogadores.

Ofereceu à seleção a base de uma linguagem comum.

Atletas que já conheciam os mesmos espaços, compreendiam os movimentos dos companheiros e estavam acostumados a controlar partidas através da bola formaram o núcleo de uma equipe que conquistou duas Eurocopas e uma Copa do Mundo entre 2008 e 2012.

A geração passou.

A influência permaneceu.

A Espanha enfrentou anos de queda, eliminações frustrantes e questionamentos sobre a eficácia de seu modelo. O próprio Barcelona também atravessou uma crise esportiva, institucional e financeira.

Nenhum dos dois, porém, abandonou completamente sua identidade.

A Espanha continuou formando meio-campistas capazes de controlar o jogo. O Barcelona continuou recorrendo à academia mesmo quando os resultados imediatos sugeriam caminhos mais simples.

O futebol passou a exigir mais amplitude, aceleração e capacidade de vencer duelos pelos lados. A resposta não foi destruir o que existia, mas complementar o modelo.

Ao meio-campo técnico, foram acrescentados pontas desequilibrantes.

À circulação paciente, uma maior capacidade de atacar em velocidade.

Ao domínio por dentro, a ameaça constante pelos corredores.

A seleção espanhola de 2026 é o resultado dessa evolução. Continua controlando partidas através de Rodri, Pedri, Gavi, Fabián Ruiz, Dani Olmo, Mikel Merino e Martín Zubimendi, mas encontrou em Lamine Yamal, Nico Williams, Alex Baena, Yéremy Pino e outros jogadores de lado a capacidade de transformar controle em desequilíbrio.

A convocação para esta Copa voltou a apresentar uma presença expressiva do Barcelona, com oito atletas ligados ao clube no elenco espanhol.

Mas o peso da La Masia nesta decisão vai além de quantos jogadores vestem atualmente a camisa azul-grená.

Pau Cubarsí representa a continuidade da formação defensiva.

Gavi e Pedri carregam a tradição de meio-campistas intensos e tecnicamente preparados, mesmo que Pedri não tenha passado pela base, chegou ainda muito jovem e basicamente se transformou num produto que o Barcelona precisava desde a saída de seus meias históricos. 

Dani Olmo saiu ainda jovem, desenvolveu-se fora e retornou com a mesma compreensão associativa.

Marc Cucurella foi formado no Barcelona e chega à final como o único jogador ligado ao Real Madrid, contratado antes da Copa, embora ainda não tivesse estreado pelo novo clube.

Até o representante do maior rival carrega a formação da academia catalã.

Isso não transforma a seleção espanhola no Barcelona.

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La Masia nunca formou apenas jogadores. Formou uma ideia de futebol. Foi ali que Lionel Messi iniciou sua trajetória e, anos depois, Lamine Yamal deu os primeiros passos daquele que já é considerado o maior talento da nova geração.

A Espanha possui contribuições de diferentes clubes, regiões e escolas. Athletic Bilbao, Real Sociedad, Valencia, Real Madrid e tantas outras instituições continuam fundamentais para a formação de seus jogadores.

Mas nenhuma academia teve impacto tão profundo na maneira como a Espanha passou a compreender o futebol nas últimas décadas.

O Real Madrid construiu grande parte de sua grandeza reunindo os melhores jogadores do mundo.

O Barcelona também construiu a sua formando uma ideia capaz de ultrapassar o próprio clube.

Uma ideia que influenciou a seleção espanhola, atravessou gerações e chegou até a formação de treinadores que jamais pertenceram diretamente à academia.

De la Fuente cresceu profissionalmente dentro de um futebol espanhol profundamente transformado por esse modelo.

Scaloni, aluno do treinador espanhol, incorporou parte desse repertório à Argentina.

E a ligação se torna ainda mais forte quando o olhar sai das comissões técnicas e chega ao gramado.

Porque nenhuma estatística representa a importância da La Masia nesta final tão bem quanto os dois jogadores que carregarão as camisas 10 e 19.

Lionel Messi e Lamine Yamal.

Messi e Yamal: o mestre e o sucessor

Se a La Masia representa a escola que atravessa esta final, Lionel Messi e Lamine Yamal são suas duas maiores expressões.

De um lado, está uma história já escrita.

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Antes de se tornar campeão do mundo com a Argentina, Lionel Messi já havia eternizado seu nome no Barcelona. Sua despedida marcou o fim da trajetória do maior jogador da história do clube e do principal produto já revelado por La Masia.

Messi é o maior jogador da história do Barcelona e pode ser considerado o maior jogador da história do futebol. Foi formado na academia, cresceu dentro de uma ideia baseada em técnica, associação, leitura dos espaços e domínio da bola e transformou tudo isso em uma carreira que ultrapassou qualquer previsão.

Do outro, está uma história que apenas começa.

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A camisa 10 do Barcelona já encontrou um novo dono. Aos 19 anos, Lamine Yamal assumiu o protagonismo do clube, liderou uma nova geração da Espanha e chega à sua primeira final de Copa do Mundo como o maior representante da nova era de La Masia.

Yamal chega à sua primeira final de Copa do Mundo aos 19 anos, já como campeão europeu, protagonista da Espanha e principal jogador de um Barcelona que voltou a dominar o futebol espanhol.

A distância entre as trajetórias ainda é enorme.

Messi já disputou praticamente todas as batalhas possíveis. Yamal começa agora a descobrir o peso de ser comparado com alguém que definiu uma era inteira.

Mas nenhum outro jogador formado pela La Masia iniciou a carreira produzindo tantos motivos para que essa comparação existisse.

O sucessor que o Barcelona procurava

Quando Messi deixou o Barcelona em 2021, o clube não perdeu apenas seu melhor jogador.

Perdeu a principal referência técnica, emocional e histórica de toda uma geração.

A saída não aconteceu porque o Barcelona desejava encerrar aquela relação. Foi consequência de uma crise financeira que tornou impossível registrar um novo contrato dentro das regras de La Liga.

A partir daquele momento, a busca por um sucessor se tornou inevitável.

Ansu Fati foi o primeiro nome colocado nesse lugar. Recebeu a camisa 10, começou a carreira demonstrando enorme talento e parecia preparado para assumir uma responsabilidade maior dentro do clube.

As lesões mudaram sua trajetória.

Isso não apaga a qualidade que apresentou nem torna sua carreira um fracasso. Apenas mostra como o futebol pode interromper um processo antes que ele alcance tudo o que prometia.

Yamal pertence a outra dimensão.

Mais jovem do que Ansu era quando recebeu a camisa 10, já acumulou protagonismo, títulos e atuações decisivas em um nível muito superior. Não surgiu apenas como uma promessa a ser protegida.

Surgiu preparado para decidir.

Ao assumir a camisa 10 do Barcelona, não herdou simplesmente um número.

Herdou a obrigação de representar a continuidade de uma ideia.

E, até aqui, não se escondeu dessa responsabilidade.

Duas histórias ligadas antes mesmo do futebol

A conexão entre Messi e Yamal possui uma imagem que parece ter sido criada para esta final.

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Em 2007, durante uma ação beneficente do jornal Diario Sport em parceria com a UNICEF, Lionel Messi participou de uma sessão de fotos dando banho a um bebê chamado Lamine Yamal. Dezoito anos depois, os dois se encontram em lados opostos na final da Copa do Mundo.

Foto: Joan Monfort/Diario Sport.

Em 2007, durante uma ação beneficente organizada pelo jornal Sport e pelo UNICEF, um jovem Lionel Messi participou de uma sessão de fotos com um bebê de poucos meses.

O bebê era Lamine Yamal.

Em algumas das imagens, Messi aparece ajudando a dar banho na criança, sem que nenhum dos dois pudesse imaginar que, quase duas décadas depois, estariam frente a frente em uma final de Copa do Mundo.

A fotografia ganhou outro significado com o passar dos anos.

Não porque Messi tenha influenciado diretamente a carreira de Yamal naquele encontro, mas porque ela transformou uma coincidência em símbolo.

O maior produto da história da La Masia segurava nos braços aquele que, anos depois, se tornaria o maior talento revelado pela academia desde sua saída.

Yamal nunca escondeu que Neymar foi seu principal ídolo na infância. Seu estilo também carrega elementos claros dessa admiração: o gosto pelo improviso, a coragem no duelo individual e a maneira de transformar jogadas difíceis em movimentos naturais.

Isso não o impede de reconhecer Messi como a maior referência possível.

Neymar foi o jogador que ele quis imitar, Messi é o patamar que qualquer grande jogador inevitavelmente precisa observar.

O espanhol que nunca foi espanhol

A relação de Messi com a Espanha também torna esta final diferente.

Ele não nasceu no país, nunca representou sua seleção e recusou a possibilidade de defender a camisa espanhola ainda na juventude.

Mas foi na Espanha que sua vida mudou.

Foi em Barcelona que recebeu o tratamento necessário para continuar seu desenvolvimento físico, entrou na La Masia, tornou-se profissional e construiu quase toda a sua carreira.

Messi é argentino. Sempre escolheu ser argentino.

Mas sua formação futebolística é inseparável da Espanha e do Barcelona.

Talvez seja o maior jogador espanhol que nunca foi espanhol.

Sua maneira de compreender o jogo, ocupar espaços, associar-se com meio-campistas e tratar a bola foi moldada dentro da cultura que agora encontrará do outro lado.

A final o coloca diante de uma seleção que representa muitos dos princípios responsáveis por sua formação.

Messi defenderá a Argentina contra uma ideia que também ajudou a formá-lo.

O homem que atravessou todas as gerações

A longevidade de Messi pode ser compreendida através dos jogadores que cruzaram seu caminho.

Começou a carreira dividindo o campo com Ronaldinho e enfrentando nomes como Paolo Maldini e Fabio Cannavaro.

Depois, protagonizou uma geração com Cristiano Ronaldo, Sergio Ramos, Xavi, Iniesta e tantos outros jogadores que definiram o futebol durante mais de uma década.

Ainda enfrentou a geração de transição representada por Neymar, Gareth Bale e Eden Hazard.

Em seguida, encontrou Mbappé e os jogadores que pareciam destinados a assumir definitivamente o comando do esporte.

Na final da Copa do Mundo de 2022, Messi encarou a maior estrela da geração seguinte.

Mbappé fez três gols, levou a decisão até os pênaltis e apresentou uma das maiores atuações individuais da história das Copas. Messi venceu.

Aos 35 anos, superou um jogador no auge físico e colocou o ponto final que faltava em sua própria história.

Quatro anos depois, aos 39, está novamente na final.

E desta vez não enfrenta apenas a geração que veio imediatamente depois da sua.

Enfrenta a geração seguinte.

Yamal tem 19 anos, Pau Cubarsí tem 19, Pedri tem 23.

São jogadores que cresceram assistindo ao auge de Messi, começaram suas carreiras quando ele já havia conquistado praticamente tudo e agora dividirão com ele o maior palco do futebol.

Messi não está apenas tentando conquistar outra Copa.

Está tentando vencer mais uma era.

Uma passagem de bastão que ainda precisa ser disputada

É inevitável enxergar a final como uma possível passagem de bastão.

Messi representa uma carreira próxima de seu encerramento.

Yamal representa tudo aquilo que o futebol ainda espera descobrir.

Os dois vestiram a camisa 10 do Barcelona.

Os dois foram formados pela mesma academia.

Os dois surgem em La Masia com potencial de serem jogadores históricos para o Barcelona.

Os dois carregam a responsabilidade de organizar o ataque de suas seleções a partir do lado direito, entrando por dentro para criar, acelerar ou finalizar.

As coincidências existem.

Mas a passagem de bastão não acontecerá apenas porque a narrativa parece perfeita.

Yamal ainda precisa construir sua própria história. Não precisa se tornar Messi para ser extraordinário, assim como não pode permitir que uma comparação impossível transforme cada temporada em uma cobrança desproporcional.

Messi, por sua vez, não chega à final apenas para participar simbolicamente do nascimento de uma nova era. Chega para vencê-la.

Ele pode reconhecer o talento de Yamal, admirar sua trajetória e compreender o que significa ver outro jogador da La Masia assumir a camisa que um dia foi sua.

Quando a bola rolar, porém, não haverá cerimônia.

O mestre não entregará o bastão voluntariamente, o sucessor precisará conquistá-lo e é isso que torna esta final tão especial.

Fora de campo, Luis de la Fuente encontrará Lionel Scaloni, seu antigo aluno.

Dentro dele, Messi encontrará Yamal, o jogador que cresceu dentro da mesma escola e agora tenta iniciar a própria era.

Em um lado, o professor e o aluno.

No outro, o mestre e o sucessor.

Todos conectados por uma ideia de futebol que atravessou países, clubes e gerações até levá-los ao mesmo gramado.

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