Figurinha carimbada do futebol italiano, Hernani revisita sua caminhada na Bota | OneFootball

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Calciopédia

·01 de outubro de 2026

Figurinha carimbada do futebol italiano, Hernani revisita sua caminhada na Bota

Imagem do artigo:Figurinha carimbada do futebol italiano, Hernani revisita sua caminhada na Bota

Hernani talvez não seja um dos brasileiros mais conhecidos do futebol italiano fora da Itália, mas poucos jogadores do nosso país construíram uma trajetória tão longa e variada na península nos últimos anos. Desde que deixou o Zenit e chegou ao Parma, em 2019, o meio-campista revelado pelo Athletico Paranaense passou por diferentes realidades do esporte local, viveu rebaixamentos e acessos, foi protagonista em campanhas de promoção à Serie A e acumulou experiências em cinco regiões diferentes do país. Aos 32 anos, segue escrevendo sua história na Bota, agora com a camisa do Palermo.

A relação de Hernani com o futebol italiano começou no Parma em um período de reconstrução do clube, que renasceu após a falência de 2015 e rapidamente deixou as divisões inferiores para retornar à elite. Em sua primeira passagem, viveu uma temporada de afirmação individual interrompida pela pandemia de covid-19 e, na sequência, um difícil rebaixamento para a Serie B, apesar de ter marcado sete gols. Depois, passou pelo Genoa, em uma temporada conturbada, e encontrou na Reggina de Filippo Inzaghi um novo espaço para recuperar o protagonismo. O retorno ao Parma o levaria novamente à elite, desta vez como uma das peças de uma equipe que conquistou o acesso à Serie A. Na sequência, foi protagonista da promoção do Monza através dos playoffs, em 2025-26, sendo eleito como MVP do mata-mata, e optou por continuar na segundona, desta vez para tentar ajudar o tradicional Palermo a retornar à máxima categoria nacional.


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Em conversa com a Calciopédia, Hernani revisitou essa trajetória de quase uma década no futebol italiano e falou sobre os momentos que mais o marcaram, da pandemia vivida em Parma ao acesso com o time, passando pelo período difícil no Genoa, a relação com Pippo Inzaghi, seu atual treinador, os bons momentos no Monza e a sua evolução como profissional e ser humano na Itália. Confira, a seguir, a conversa na íntegra.

Você chegou à Europa em 2017, passou por Rússia e França e só depois chegou à Itália. O que mudou no seu futebol e na sua vida até você chegar ao Parma, em 2019?

Eu nasci em Minas Gerais e, desde muito pequeno, sempre gostei muito de futebol. Praticamente a vida toda sempre pensei nisso. Depois acabei indo para o Athletico Paranaense. Fiz toda a categoria de base ali, de 2009 até 2016. Em 2017 me transferi para o Zenit, da Rússia. Foi uma experiência bem diferente daquilo que a gente vivia no Brasil, porque tinha o clima, a liga… Eu cheguei no meio da temporada, quando o clube já estava jogando o playoff da Liga Europa. Então saí do Campeonato Brasileiro, que é muito competitivo também, já enfrentando o Anderlercht, que acabou chegando às quartas de final, com o Manchester United. E dali começou a minha trajetória.

Fiquei seis meses e depois acabei indo por empréstimo para o Saint-Étienne. Fiquei uma temporada lá, em um futebol muito físico, muito rápido. Então tive todas essas adaptações. Depois retornei ao Zenit. Ali já estava um pouco mais maduro para entender o jogo, entender o que era preciso em questão de trabalho e também essa questão extracampo, que contava muito. Esse complemento que muitos atletas faziam não era uma coisa tão normal para mim, então acabei entendendo isso. Daí a gente ganhou o Campeonato Russo. Tive bastante participação ali no segundo ano, nos jogos da Liga Europa. Foi mais ou menos isso.

Quando pintou a proposta do Parma, o clube tinha passado por uma quebra e estava voltando de uma reconstrução, tendo feito todo o caminho da Serie D até a Serie A. Como foi esse processo para a equipe e, sobretudo, para você? Você vinha de muitos anos no Athletico, com uma identificação muito grande. Como foi essa mudança? Você chegou ao Parma já pensando em jogar ou em ter uma adaptação mais longa?

A busca, vamos dizer assim, era para me confirmar aqui na Europa. Tive esse período de idas e vindas no Zenit e no Saint-Étienne, e estava procurando um time onde eu pudesse me firmar e dali começar a minha história aqui na Europa. Era sempre um sonho.

Mas, vamos dizer que, nessas duas equipes que passei anteriormente ao Parma, não consegui desempenhar da forma que eu queria, ter mais minutos para jogar. O Parma me abriu as portas. Era um projeto em que o time estava se reestruturando, vindo de todo um processo de crescimento, aquele percurso que você falou, em que o Parma foi para a Serie D para a Serie C e assim fez todo o percurso.

Eu cheguei no segundo ano em que o Parma tinha voltado e tinha permanecido, então já era um projeto mais ambicioso. Nesse primeiro ano a gente acabou fazendo uma grande campanha com aquela equipe. A gente chegou na 11ª posição. Mas a verdade é que foi mais essa busca por mais minutagem, por mais reconhecimento e por aquilo que eu acredito que podia dar. Então essa foi mais ou menos a minha busca.

No Parma você teve essa primeira temporada na qual o time foi bem e você também se firmou de fato, como titular absoluto no meio-campo também no ano seguinte. Mas na primeira campanha houve uma questão: a Itália era o epicentro da pandemia de covid-19 na Europa e o futebol parou durante um tempo. Como foi para você viver isso no país?

Foi complicado, porque foi um período em que a gente não entendia muito o que estava acontecendo. Não tinha tanta informação. Foi um período em que parou o futebol. Eu lembro até hoje quando aconteceu. Era uma partida entre Parma e Spal e estava naquela indecisão: joga, não joga, joga ou não joga. Eu me lembro bem. Naquele dia eu estava no estádio, depois cheguei em casa e acabei tendo febre, dor de cabeça, praticamente todos os sintomas da covid.

Liguei para o médico do clube e falei para ele que não estava me sentindo bem, que estava com todos os sintomas da covid. Estava sozinho em casa e foi um período de quatro ou cinco dias em que você se vê sem ninguém. Depois a cidade começou a ficar deserta. Você começava a assistir às notícias. Eu lembro que falava com o doutor e ele só me perguntava se eu tinha dificuldade para respirar. Eu falei: “Não, para respirar está tudo bem, consigo respirar, está tudo certo”.

Ele me falou que naquele momento era muito difícil ir para o hospital porque eles estavam atendendo a maioria das pessoas que chegavam com problemas respiratórios, num momento mais grave da doença. Eu morava meio perto de Milão, na região da Lombardia, que foi muito afetada Então, assim, foi complicado.

Depois daquele jogo o campeonato paralisou totalmente, porque todo mundo sofreu. E foi difícil porque todos os clubes tiveram que se adaptar. Nós, jogadores, tivemos que nos adaptar. A gente tinha que treinar em casa, tinha o dia certo para ir ao mercado. Foi bem difícil se manter em forma, depois retornar aos jogos, e a gente não sabia como seria. Os estádios vazios, toda essa adaptação… Foi complicado.

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Em sua primeira passagem pelo Parma, Hernani lidou com a pandemia de covid-19 e descenso, mas também teve ótimo desempenho individual (Getty)

E como foi para você o seu segundo ano, em que você foi um dos goleadores do Parma, mas o time acabou sendo rebaixado, ficando em último lugar?

A gente vivia um período que, para mim particularmente, estava sendo muito bom pelo desempenho individual, mas coletivamente era difícil porque a gente não tinha o apoio da torcida. No meu primeiro ano em Parma, a gente fazia muitos pontos em casa. O desempenho também vinha muito do torcedor. Então isso mudou muito, e acabou afetando algumas equipes. No caso do Parma, a gente foi para a Série B e foi e último colocado. Não digo que seja por conta disso, mas foi um momento difícil, bem complicado de passar.

Você chegou a ser testado? Você falou dos sintomas, mas chegou a fazer o teste? Deu positivo?

Quando a gente voltou a disputar o campeonato, os jogadores tinham que fazer o exame sorológico para ver se tinham os anticorpos. Eu não tinha feito a vacinação e já tinha os anticorpos da covid.

Foram cinco dias em casa, assim, de fogo mesmo, porque estava mal. Foi o que falei com o doutor. Mas o doutor falou: “A gente só está podendo levar para o hospital quem está com problema respiratório”. Essas zonas de Reggio Emilia e, mais para cima, Bérgamo e a Lombardia como um todo, foram muito afetadas. Foi uma época muito complicada.

Você teve sete gols na temporada 2020-21 e o time caiu. Emocionalmente, como o jogador fica nesse caso? Por um lado, existe uma sensação de que você fez a sua parte e teve um bom desempenho, mas mesmo assim a equipe foi rebaixada. Como fica essa questão de pesar as responsabilidades junto com os companheiros?

Na verdade, o desempenho individual, assim, nesse aspecto, depois que o clube está indo para a Serie B, conta muito pouco. Eu vejo agora mesmo quando a gente conseguiu, nesses anos, o acesso com Parma e depois permanecer com Parma na Serie A, depois ir para o Monza e obter o acesso, até quem não jogava depois teve um reconhecimento muito maior. Teve um reconhecimento e outras oportunidades.

Vamos dizer assim: um rebaixamento não te dá essa glória. Agora, quando você joga e quando você ganha, quando você consegue alcançar o objetivo em equipe, é totalmente diferente. Talvez, se eu tivesse feito três gols e três assistências e o Parma tivesse ficado na Serie A, o reconhecimento teria sido totalmente diferente. Se abaixasse um pouquinho os meus números e a gente tivesse ficado na Serie A, com o desempenho que eu tive, provavelmente teria outro sucesso. Claro que individualmente você fica contente, tem aquele lado, mas a verdade é que isso conta pouco. Na minha experiência, pelo menos, contou pouco.

Depois do Parma você foi para o Genoa, jogou menos e viveu outro rebaixamento, inclusive tendo menos oportunidades do que no Parma. Passar por dois rebaixamentos consecutivos deve ser bem difícil. O clube também passava por mudanças, com a chegada da 777 Partners, que chegou a comandar a SAF do Vasco no Brasil. Em algum momento isso pesou psicologicamente ou você conseguiu enxergar simplesmente como parte da carreira?

É uma ótima pergunta, porque a gente consegue completar tudo aquilo que eu falei. A gente pensa muito coletivamente, que é o que mais importa no futebol. Claro, se você desempenhar bem e o time alcançar o sucesso e os objetivos da temporada, chegamos a um outro parâmetro, vamos dizer assim. O reconhecimento do atleta, daquele que fez bem ou daquele que fez menos bem, é sempre um pouquinho melhor.

Então, quando eu cheguei ao Genoa, tinha aquele peso de ter um rebaixamento. Você se coloca em dúvida por aquilo que tudo que você fez, né? E o Genoa também já vinha há alguns anos ali lutando para não ser rebaixado. Então não foi uma troca em que eu fui para um clube que estava brigando sempre em cima. Também era uma grande equipe, com grandes nomes, grandes jogadores, mas o percurso, com anos ali lutando para cair, deixava tudo muito complicado.

Eu já vinha um pouco abalado psicologicamente por esse percurso que eu tive com o Parma. No primeiro jogo da Coppa Italia pelo Genoa, eu me lesionei. Aí eu comecei a correr contra o tempo para estar sempre em campo. Foram muitas lesões, teve a troca de proprietário do clube. Tudo muito novo. E o Genoa já naquele percurso, lutando para não cair, que era mais ou menos um campeonato parecido com aquele que o Parma sempre fazia. Já cheguei com um pouco de desconfiança e, no primeiro jogo veio essa lesão. Aí você tenta voltar, se lesiona de novo, tenta voltar, se lesiona de novo. A confiança do atleta acaba caindo um pouquinho. E é difícil nesses momentos retomar essa confiança. Eu acredito que, quando a gente chega num certo nível de competição, o maior problema que o atleta enfrenta é sempre o psicológico.

Porque às vezes você desempenha e vai analisar: “me empenhei, tive um desempenho top”. Depois vem duas, três partidas, sem conseguir desempenhar. E a gente é o primeiro a se cobrar. A gente está nisso há muito tempo. Aí depois tem que lidar com as críticas, tem que lidar com toda a pressão de conseguir os resultados e acaba sendo muito complicado. É mais a questão psicológica mesmo, que conta muito nessa hora.

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No Genoa, as lesões minaram o futebol do meia mineiro (Tanopress)

E a torcida do Genoa é bem exigente, né? Naquela época inclusive estavam rolando um monte de protestos contra o Enrico Preziosi, que foi o presidente durante parte da temporada. Inclusive, essa mudança de proprietário também acabou ocasionando trocas de treinadores. Foram quatro nessa temporada, sendo três efetivos e um interino. Você acha que acabou te atrapalhando também? E, continuando nessa linha, como foi trabalhar com o Andriy Shevchenko?

A torcida do Genoa realmente é bastante exigente. Eu particularmente tenho um arrependimento de não ter conseguido ter um desempenho que eu posso ter no clube. Eu joguei muitas vezes contra o Genoa e o time tem um dos melhores estádios da Itália, disparado, em questão de torcida, em questão de apoiar. É um dos estádios mais calorosos daqui. E, para aquilo que eu sempre estava procurando, que era confirmar meu potencial e dar um passo maior na minha carreira, era o clube perfeito. Mas, como a gente disse, não aconteceu por mil e um motivos.

Trocas de treinadores também. A gente, como atleta, vai trabalhando com o treinador e fica tentando pegar o ritmo, tentando conhecer o técnico. Depois tem a troca e interrompe o processo. O treinador não tem tempo de conhecer os atletas. Assim, é complicado. E a passagem do mister Shevchenko foi mais ou menos isso: um cara que chegou, que estava conhecendo o clube, conhecendo os atletas. E, no futebol, é complicado. Hoje em dia é raro aqueles que têm tempo de trabalho, porque o resultado conta muito. E tem as filosofias, os métodos de trabalho que alguns clubes priorizam.

Você vê o rendimento do Red Bull Leipzig, por exemplo. O pessoal dá tempo, né? O próprio grupo City [proprietário do Palermo, atual clube de Hernani] dá tempo ao treinador para criar um projeto. Outros times não têm esse tempo. Precisam muito do resultado para crescer. Enfim, no Genoa acabou tendo muita troca de treinador. E, tanto da nossa parte, que não temos tanto tempo de nos adaptarmos ao estilo de jogo do técnico, quanto do próprio treinador, que não tem tanto tempo de conhecer os atletas, isso termina prejudicando o clube. Entendo justamente que todos querem dar uma resposta positiva, mas é muito difícil dessa forma.

Depois de dois rebaixamentos, você surpreendeu ao topar jogar uma Serie B, mas por outro clube. Na Reggina você teve uma passagem muito boa, fez sete gols numa campanha de briga pelo acesso e trabalhou com o Inzaghi, que teve uma parceria histórica com o Shevchenko. Qual o papel do técnico nisso?

Olha, foi fundamental. Claro que a gente procurava algum mercado na Serie A, mas eu creio muito em Deus, e a gente esperou o momento certo para dar esse passo. Vamos dizer a verdade: não tinha muitas opções de clubes, até pelo fato de ter gerado essa dúvida no Genoa. Em 18 jogos [na Serie A], só em sete eu entrei jogando. A maioria do tempo eu fiquei machucado. E o futebol hoje mudou muito. Mesmo que eu tenha criado uma história, tenha jogado em alguns clubes, naquele momento isso estava contando pouco.

A Reggina foi um clube que abriu as portas para um recomeço. E o mister foi fundamental. Ele me ligou num período em que estava meio incerta a minha permanência no Genoa. O mister me buscou. Nas primeiras ligações me falou aquilo que eu precisava, que era ter a confiança de um treinador. Toda a confiança dele já tinha sido transmitida numa ligação e depois durante o tempo que a gente trabalhou na Reggina. Depois de 20 anos, o time voltou a jogar um playoff. Eu joguei 31 jogos. Volto a frisar aqui que a parte emocional ou psicológica do atleta conta muito. E, a partir do momento que você encontra um treinador e uma cidade que te abraça… Isso foi fundamental para o meu recomeço, para eu voltar ao mais alto nível.

Você fala muito do Pippo Inzaghi. Agora, trabalhando com ele de novo, o que você destacaria das características do trabalho do Pippo, tanto agora no Palermo quanto lá atrás na Reggina? Ele é um cara que, no dia a dia, trabalha mais na defesa com os times ou prioriza um pouco o ataque, já que ele era um fazedor de gols nato? Ele mudou de uns quatro anos para cá?

Não, não mudou nada. O mister tem uma coisa que me cativa muito, e que ele consegue transmitir muito bem, que é a paixão por esse esporte. É um cara que ganhou tudo, que viveu o mais alto nível de emoções do futebol. Graças a Deus estou tendo essa oportunidade de trabalhar com uma pessoa assim, que ganhou tudo. E muitas vezes eu me pergunto: aonde ele encontra essa motivação? Aonde ele encontra essa paixão?

É um cara que vive todos os dias intensamente, é um cara que é viciado no futebol, e que transmite muito essa paixão. E ele tenta sempre passar para nós que o que nós estamos fazendo é a coisa mais linda desse mundo. Esse esporte que leva milhões de pessoas a torcer, a se comunicar, a ter um só objetivo, que é ver o time ganhar no fim de semana.

E ele é realmente assim. Conhece tudo de futebol, assiste praticamente todos os jogos e vive dessa forma. E o mister é muito tranquilo nessa parte técnica e tática. Ele é, vamos dizer assim, um grande gestor. Claro que prioriza muito o ataque porque foi um fazedor de gols nato e também te dá muita liberdade, até porque é um cara que viveu o mais alto nível dentro de campo e sabe como funciona a cabeça de um jogador. Mas a coisa que, para mim, ele tem de diferente é essa paixão, esse querer ganhar, vencer todos os jogos como se fosse o último. É isso que ele tem de diferente.

Dá para ver que o Inzaghi te passou bastante confiança nessa passagem pela Reggina. Depois da queda nos playoffs, você acaba voltando ao Parma mais motivado, mas num time totalmente modificado, apesar de ter a mesma diretoria da época do rebaixamento. Nesse contexto, você foi muito importante na campanha do título dos crociati na Serie B. O que mudou entre a equipe que caiu e a que subiu e qual o significado do acesso para sua trajetória?

O meu retorno para o Parma, para mim, foi o momento mais importante da minha carreira. Foi um clube que me abraçou.. Quando eu cheguei na cidade, eu já me senti bem. E aí, quando eu saí, eu fui embora com aquele sentimento de dívida, né? E depois, fiquei dois anos fora, nesse período o clube ficou ali sempre lutando para voltar à Serie A e eu tive a oportunidade de participar desse projeto.

Depois também mudou os donos do clube [Hernani chegou em 2019, na gestão de Pietro Pizzarotti e viveu o início da presidência de Kyle J. Krause, atual presidente, em 2020-21]. E é um projeto ambicioso, que prioriza muito os jovens. Depois eu já voltei para o Parma mais maduro, com mais entendimento daquilo que eu podia dar em campo e que eu podia dar fora de campo, dentro do vestiário. Para mim, foi sensacional ter participado do momento da volta do Parma porque, vamos dizer assim, tirei um peso das costas. Uma parcela de você se sente culpado por ter ido para a Serie B.

Então, depois voltar para o clube e retornar para a Serie A, para mim foi um dos pontos altos da minha carreira porque foi gratificante. Me senti recompensado e orgulhoso pelo fato de o trabalho estar sendo bem feito. E ali no Parma a gente sempre buscava melhorar. Foi uma experiência maravilhosa. Um vestiário mais jovens, muita energia. E participar daquele momento foi lindo.

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Hernani topou jogar a Serie B pela Reggina e, sob as ordens de Pippo Inzaghi, recuperou seu melhor futebol (LaPresse)

Só não foi perfeito porque você não dividiu o vestiário com o Gianluigi Buffon, né? O Buffon sai em 2023, e aí você chega e consegue o acesso quando o ele tinha acabado de se aposentar. Ficou faltando esse gostinho.

Eu fiz dois meses de treino com ele, mais ou menos, na pré-temporada [em 2021]. Depois eu me transferi para o Genoa. O conheci pessoalmente, mas, vamos dizer assim, a parte mais profunda, acabei não vivendo com ele. Fazer o quê?

Nessas passagens pelo Parma você trabalhou com dois treinadores que estão em evidência hoje, que são o Cristian Chivu e o Carlos Cuesta. Queria que você falasse dos dois, mais especificamente do Cuesta, que tinha mais ou menos a sua idade quando assumiu o Parma, e até um ano mais novo. Às vezes você sentia que o vestiário talvez não tivesse o mesmo respeito como teria com outro treinador? Ou ele levava na boa? Como era essa relação da idade dele com o resto do elenco?

O mister Carlos, quando chegou, foi muito humilde. E fez todo mundo entender qual era a ambição dele e a posição dele dentro do clube. Claro que a gente, um pouco mais experiente, tinha algumas conversas. Eu, particularmente, fiz cinco temporadas e meio com Parma, conhecia bem a cidade, conhecia os meninos.

Ele foi bem tranquilo e se mostrou muito preparado. Não chegou ali do nada. Chegou com bagagem, chegou com rodagem. E não era fácil pelo que a gente acabou de falar: ele é um cara mais jovem, mais jovem do que eu. Mas se mostrou muito preparado. Eu, particularmente, nunca olhei para ele com esse olhar de ser mais jovem, um cara inexperiente. Foi um cara que me ensinou muito e eu tento absorver o máximo dos treinadores. Porque eu também me vejo – um dia assim, bem para lá – nessa parte do futebol. Quero continuar a fazer parte do futebol. Ainda não sei como, mas também quero estar perto do campo.

E o Chivu? Muita gente foi pega de surpresa quando ele foi para a Inter. A equipe tinha acabado de disputar uma final europeia e aí vieram questionamentos: “Você vai dar essa máquina na mão de um cara que se provou pouco como treinador ainda”. O que você acha que o credenciou a chegar ao clube?

Ele é muito fora da curva. O mister é uma máquina. Quem teve a oportunidade de trabalhar com ele sabe disso. É um cara que viveu também o máximo do futebol, tem um estafe muito preparado, que ajuda muito. A relação que ele cria fora do campo com o jogador é importante. Ele olha para o homem primeiro e depois ele olha para o jogador. O lado humano dele é muito espetacular.

Quando ele chegou ao Parma, a gente estava brigando para não cair e a gente passou por alguns momentos difíceis. Ele é um cara que sempre foi muito positivo e também te transmite aquilo que ele viveu de uma maneira muito importante. A chegada dele foi fundamental para a permanência. E, assim, eu não fiquei surpreso [com o sucesso dele]. Eu sabia o que ele queria fazer muito bem na Inter porque a forma que ele trabalhou conosco ali no Parma, foi sensacional. É um cara top taticamente, teoricamente, na relação e na gestão de grupo.

Virou o ano em 2026 e você topou encarar a Serie B de novo, dessa vez pelo Monza. Chegando no meio da temporada, rapidamente virou um protagonista, com gol na ida da final dos playoffs do acesso. O que aconteceu para dar essa liga tão fácil no clube?

O tempo passa, a gente fica mais experiente e, vamos dizer assim, a gente perde um pouco o receio de jogar, de arriscar, de viver aquilo o que a gente tem para viver. Muitas vezes você acaba deixando de tomar uma decisão por estar mais acomodado, conhecer a cidade, conhecer, estar bem ambientado no clube. Mas eu sabia que aquele momento da minha carreira poderia se aproximar daquele momento que eu tive no Genoa e depois tive que ir para a Reggina. Naquele momento eu estava mais jovem. Indo para o Monza eu já estava quase com 32 anos e eu sabia que eu tinha que voltar para o mercado.

No Parma, eu já sabia que não existiria uma renovação de contrato. No começo da temporada eu já tinha recebido uma proposta do Monza, mas eu acabei priorizando a saúde porque eu estava com uma lesão na panturrilha. E naquele momento, mesmo assim, o Monza sempre se mostrou muito disponível para a minha contratação. Na época eu acabei optando, em acordo com o Parma, por fazer essa reabilitação. Eu fiquei uns três ou quatro meses fora. Foi uma reabilitação longa.

Depois eu estava começando a ter alguns minutos, mas eu sabia que, no Parma, a política era de priorizar os jogadores jovens. O papel que talvez eu fosse desempenhar seria mais extracampo, dentro do vestiário, dando uma ajuda com os meninos. Para mim, naquele momento, não serviria. Eu tinha que voltar, eu tinha que jogar. Depois, em janeiro, o [Nicolás] Burdisso [diretor esportivo do Monza] me ligou e eu falei que estava bem fisicamente e que poderia ir. Cheguei com fome de jogar, com vontade de jogar porque estava tendo alguns minutos no Parma, mas não tanto. Estava sentido falta daquela adrenalina dos jogos. E eu sabia que ali no Monza eu ia ter essa oportunidade.

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O brasileiro retornou ao Parma após dois empréstimos, levou o clube ao título da Serie B e disputou novamente a elite pelos crociati (Getty)

Quando o Burdisso te ligou, você já tinha passado por muitas coisas na sua carreira: briga contra o descenso, rebaixamento, título da Serie B… Já era um cara bastante experiente. O quanto as dificuldades desde o início de sua passagem no Parma e essa experiência acumulada te ajudaram a ser MVP dos playoffs, com grande atuação e golaço contra o Catanzaro? 

Olha ali o prêmio [mostra o troféu de MVP na prateleira]. Acho que a gente tem que priorizar sempre ser uma esponja, absorver o máximo que a gente pode de momentos bons e de momentos menos bons. Você acaba criando uma casca. E, se a gente está atento, consegue perceber os detalhes em que pode melhorar e evoluir no percurso. A gente acaba desenvolvendo essa experiência.

O Monza era já uma equipe muito estruturada, mas também tinha seus percursos de altos e baixos. Até mesmo depois da minha chegada. A gente tinha praticamente o campeonato na mão e deixou escapar um pouquinho. Depois a gente teve que jogar os playoffs. Mas nos mostramos um time muito maduro e isso fez a diferença. No meu caso, também por ter vivido esses momentos na carreira e até por ter aceitado esse desafio no Monza.

Na verdade, não foi bem um desafio. Recebi essa proposta de um clube que se estruturou muito, que criou toda uma estrutura de trabalho de nível top. Tem um centro esportivo, a cidade é bem tranquila. Claro que tem menos torcedores, mas é um clube gigantesco e tudo isso foi fundamental para a minha escolha. A gente coloca na balança todos esses aspectos na tomada de decisão e sabe o quanto o clube pode agregar para a nossa carreira. E por isso eu fiz a escolha do Monza. Eu já tinha vivido situações parecidas e sabia que era o momento de arriscar de novo.

Quando aconteceu a sua transferência para o Palermo, muita gente ficou surpreendida, porque o Monza jogaria a Serie A. Falou-se muito até de uma possível volta sua ao futebol brasileiro, principalmente te vinculando ao Athletico Paranaense, pela história que você desenvolveu no Furacão. Mas o que te motivou para essa ida ao Palermo? Qual foi o projeto que te foi apresentado?

Como na primeira vez [na ida para a Reggina], quando eu conheci o mister Inzaghi, ele foi fundamental também na minha vinda para o Palermo. E, claro, como adversário, a gente vê o tipo de projeto que está sendo feito aqui pelo Grupo City e aonde o pessoal quer chegar. No Monza a gente não conseguiu chegar num acordo pela renovação de contrato, apesar de eu ser sempre grato ao clube por tudo e por tudo que a gente viveu.

Nesse momento, o Palermo me ofereceu um contrato de dois anos, enquanto no Monza eu ia ficar só com um contrato de um ano. Então, para mim, não seria interessante depois talvez ter que voltar ao mercado no meio do ano de novo, porque depois de seis meses pode acontecer muita coisa… e eu já tenho 32 anos. Então a gente pensa em tudo isso.

E me interessei por esse projeto que o Palermo me ofereceu, de dois anos, num clube que está sempre brigando para ir para a Serie A. Eu também sabia como funcionava a cidade. Eu joguei como adversário no estádio. Aqui todo jogo tem 30 mil pessoas. Então a gente procura sempre um lugar para escrever uma paginazinha de história. E o Palermo foi sempre uma meta de tantos jogadores. Depois, quando você tem a oportunidade de receber esse convite, essa proposta, não é tão difícil de aceitar. Também por conhecer o treinador, o tipo de projeto e de ambiente… quando junta tudo isso, você sabe que vai jogar para tentar buscar algum objetivo grande.

Pela sua resposta, você está sempre atento à atmosfera dos estádios. Isso te motiva muito, né?

O ambiente mais quente… eu sempre procurei isso. E, claro, a gente também procura um certo tipo de projeto, onde os caras são ambiciosos, querem ganhar. Na própria Reggina, mesmo. A Reggina tinha 20 anos que não jogava os playoffs. Depois contratou um treinador que sempre lutava para ganhar. Quando você tá atento ao mercado, você acaba entendendo.

E eu acho que a carreira do jogador é curta. Hoje em dia você vê que alguns estão indo mais longe, com todos os recursos que existem, mas eu procuro sempre viver no mais alto nível de emoção. Busco aquilo que a cidade pode te oferecer, aquilo que o estádio e o projeto do clube podem te dar. Porque a gente quer ser lembrado, quer tentar deixar um legado legal.

Você citou a questão do Grupo City. Quando você coloca fatores na balança para negociar com o clube, a estabilidade e a certeza de que existe de fato um projeto que respeite as particularidades de cada time e cidade são fatores a se pensar, correto? Hoje, você participa de uma SAF no Brasil, a do Araucária, na segunda divisão paranaense, que parece mais voltada à formação de atletas. Dá para dizer que você já está estudando o modelo do City Group para esses próximos passos que vai dar, daqui a alguns anos, quando parar de jogar? Você já começa a absorver um pouco disso no Palermo?

A gente tem que ser sempre como uma esponja: procurar absorver muita coisa. É uma palavra bem usada aqui na Itália. Essas experiências de campo e extracampo precisam ser absorvidas. É como eu falei: [Palermo] é um lugar em que eu me sinto bem. E depois, tendo também um papel de jogador um pouquinho mais experiente, acabo vivendo algumas coisas dentro e fora do vestiário. Isso tem me cativado.

A SAF é uma iniciativa. Uma coisa que eu quero para o meu futuro é ficar no futebol. Não sei ainda se como diretor ou como treinador. Isso não está claro, mas eu tenho uma certeza: eu quero ficar no futebol. Então tudo isso que eu tenho aprendido aqui, tento passar ali para os meus companheiros desse projeto que a gente tem no Brasil. Mas não estou tão inserido porque também não tenho tempo. Vez ou outra a gente tem reuniões para pontuar algumas coisas.

É mais uma fase de aprendizado para o meu futuro, contando com essa certeza de ficar no futebol. Tudo que eu estou vivendo aqui está sendo parte de um processo para a gente colher lá na frente. O projeto que está se estruturando é de um clube em que a gente prioriza os jovens. Mas eu entrei nessa SAF com um único propósito, que era servir ao Senhor Jesus Cristo.

Isso porque a gente tira meninos da rua, procura atender algumas crianças especiais e procura sempre levar a palavra do Senhor para essas pessoas. A gente procura dar uma oportunidade para um jovem treinar e crescer. A gente está caminhando. A gente está dando muita prioridade para esses jovens, para dar uma base para esses garotos. Na verdade, esse é o nosso projeto: estruturar esses jovens para a vida. Se virarem jogadores, a gente vai dar todo o auxílio, mas o nosso foco total é estender a mão para aqueles que precisam e, principalmente, servir ao Senhor.

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Com a camisa do Monza, Hernani encontrou o alto nível outra vez e foi eleito como melhor jogador dos playoffs de acesso à Serie A (Image Sport)

O City Football Group chegou ao Palermo em 2022 e até agora o clube não conseguiu o acesso à Serie A, apesar do projeto ambicioso. Hoje, o time está na liderança da segundona. Qual é o nível de cobrança da própria diretoria para conseguir a promoção? E o da torcida, que é fanática e sempre lota o estádio Renzo Barbera? Inclusive, você vê muita diferença entre as torcidas do norte e do sul da Itália?

Tem diferença, sim, O pessoal aqui é mais caloroso. No norte o pessoal é mais tranquilo em relação a futebol. Claro que tem as exceções. Tem o estádio do Genoa, o estádio da Juventus, da Inter, do Milan, que são clubes históricos. No Parma, que tem um estádio menor, a torcida sempre comparece. Aqui no sul você sente mais o calor, a cidade vive mais o futebol.

Sobre o grupo, a gente sabe da ambição. Até mesmo antes de a gente aceitar essa proposta, já que tudo sempre é muito conversado. A gente sabe da ambição, para onde o clube quer ir. Todos os atletas têm esse entendimento e os diretores também procuram passar isso, mas sempre de um modo tranquilo para a gente que está ali dentro. Claro que os torcedores veem de maneira diferente e a gente também entende. Isso é até bom, porque te deixa vivo. Porque, às vezes, se um clube acaba te dando tudo pode terminar acontecendo um certo acomodamento.

A gente entende para onde tem que ir e o que tem que ser feito. Sabemos que é um clube que tem tudo para voltar ao mais alto nível. É um clube gigantesco e temos uma cidade que realmente vive o futebol de uma maneira que eu vi em poucos lugares aqui na Itália.

Você passou por Emília-Romanha, Ligúria, Calábria, Lombardia e agora está na Sicília. Entre todas essas regiões, onde você mais gostou de morar? Onde você se sentiu mais à vontade?

Aqui em Palermo eu estou há pouco tempo e estou conhecendo. A perspectiva é muito grande, pode mudar [a resposta futuramente]. Mas o melhor lugar até agora, que eu me identifiquei bastante, foi na Emília-Romanha, em Parma. É que também fiquei lá cinco anos e meio. Nos outros clubes eu fiquei um ano só.

E teve algum lugar que você demorou um pouquinho mais para se adaptar?

Em Gênova. Foi um período mais complicado. Quando o cara não tira o olho do problema e se lesiona sempre, não acaba encontrando a solução. E ali na cidade, em Gênova, foi um pouquinho difícil.

Depois de quase dez anos de Europa e de vida italiana, o que você incorporou tanto dentro de campo quanto fora dele? O que mudou na sua vida profissional e na vida  pessoal em relação ao garoto que saiu do Athletico uma década atrás? O que tem de diferente entre aquele Hernani da base do Furacão para esse de hoje?

Responsabilidade. Responsabilidade e o comprometimento com o trabalho. Quando cheguei, eu vi o quanto o pessoal priorizava a parte física, a parte da alimentação, a parte do sono. E isso para mim foi diferente, porque os caras realmente viviam de uma maneira que priorizava a carreira, colocando isso em primeiro lugar. Não só dentro de campo. E depois eu também me tornei pai. Hoje eu tenho a minha família. Então a palavra que eu usaria seria responsabilidade: ser responsável nesses aspectos. Cuidar do meu corpo, cuidar da minha família, ser profissional dentro e fora de campo.

Quais foram os jogos e os gols que mais te marcaram na sua carreira na Itália?

Eu vou ficar com um gol contra o Milan, no San Siro. E contra o Catanzaro [na decisão dos playoffs] também. Foram esses dois gols que me marcaram muito. E eu acho que também os dois jogos que a gente fez na final. No Parma a gente não acabou tendo a final, mas a partida em que a gente voltou para a Serie A, que foi em Bari e a gente empatou. Pelo contexto.

E de jogador? Geralmente se pergunta quem é o melhor com quem você jogou ou enfrentou. Mas teve um cara que te surpreendeu? De olhar e pensar “rapaz, o cara é craque e eu não sabia que o cara é craque”?

O Piotr Zielinski, da Inter. Meu amigo, é um fenômeno. E o pessoal não fala. Para mim foi o que eu joguei contra, na minha posição, foi o melhor jogador que eu vi jogar. Para mim é uma coisa sensacional. Eu me senti mal. O treinador me trocou de lado. Foi um jogo em Nápoles, eu me lembro até hoje.A gente jogava com três meio-campistas. Eu estava na esquerda e, depois de 15 minutos, o treinador me trocou de lado porque eu tomei cartão amarelo bem cedo. Cara, eu não conseguia achar o Zielinski dentro de campo. Eu chegava perto, ele jogava com um toque, eu dava um espaço, o cara girava, jogava para frente.

Aí o treinador, depois de uns 20 minutos, me trocou de lado. Falou: “vai para o lado de lá”. Eu falei: “Não, não, eu vou ficar aqui”. Ele falou: “Não, não, não, vai para o outro lado”. Foi complicado. Foi o único cara assim que eu achei assim um cracaço de que muita gente não fala.

Imagem do artigo:Figurinha carimbada do futebol italiano, Hernani revisita sua caminhada na Bota

Após devolver o Monza à elite, o meia brasileiro tenta seu terceiro acesso com o Palermo (Arquivo/Palermo FC)

Se você tivesse que definir qual foi a experiência de sua passagem pela Itália que mais te definiu, aquela que mais te transformou como atleta profissional, qual seria?

Eu acho que o retorno à Serie A com o Parma. Quando a gente jogou aquele ano na Serie B e subiu. Sem dúvida.

Você passou mais tempo na carreira entre Parma e Athletico Paranaense. Se tivesse que escolher um deles, com qual diria que tem a maior ligação?

É difícil. Mas a minha ligação com o Athletico é muito forte, porque foi um clube me deu tudo. Eu cheguei com 13 anos de idade e saí quando tinha 21 para 22. O clube me colocou para estudar, me estruturou como homem. Sou muito grato ao Athletico Paranaense.

É o meu clube do coração. Virei torcedor. Moro em Curitiba hoje, minha esposa é paranaense… curitibana. Minha família está lá, meus pais moram em Curitiba, inclusive. Praticamente toda a minha família se transferiu para a cidade. Claro que você fica um pouco dividido, é difícil, mas foi um time que me deu praticamente tudo.

Ainda está um pouco distante, mas você se imagina encerrando a carreira aí na Itália, onde já está há um tempinho, ou pensa em voltar ao Brasil para encerrar a sua trajetória?

Eu não posso responder isso agora. Se fosse para eu pensar nisso, tenho um carinho, e isso é inevitável, muito grande pelo Athletico. E seria bem complicado não pensar nisso se, um dia, a gente recebesse alguma proposta do Athletico. Mas hoje eu estou totalmente focado, 100% aqui no Palermo. A gente não sabe o dia de amanhã.

Hoje, eu penso em acabar minha carreira aqui no Palermo. Se eu tivesse podido não sair do Zenit, que foi o clube que me abriu as portas para a Europa, eu teria ficado lá. Eu saí do Athletico porque tinha o sonho de vir para a Europa. E hoje, se eu pudesse ter ficado lá, ficaria sem problema algum. Mas eu sempre procurei objetivos na minha vida e todas as circunstâncias, muitas vezes, se fosse só uma escolha minha, eu não faria. Só que a gente tem que se adaptar àquilo que a vida pede, àquilo que o clube pede, porque muitas vezes você entende que já não está sendo requisitado e que você não está sendo aproveitado dentro do clube, e aí você tem que tomar uma decisão.

Claro que, as decisões, com o passar do tempo, vão ficando mais fáceis. Você vai ficando mais cascudo e enfrenta os desafios de uma maneira diferente. Mas, no momento, a cabeça está totalmente focada aqui no Palermo – com todo o respeito por todos os clubes em que eu joguei e talvez em que eu venha a jogar. Se eu pudesse ter escolhido 100% só pelas escolhas do Hernani, talvez minha carreira tivesse sido totalmente diferente.

Você falou que talvez não tivesse deixado o Zenit. Você saiu de lá por empréstimo pela primeira vez. O Roberto Mancini teve participação nessa sua saída do time russo?

Não, não. A gente sabe onde pode desempenhar e onde não vai ter tanto espaço. E, no Zenit, acabei entendendo que tinha jogadores de alto nível, eu sabia que iria jogar pouco e ter pouco espaço. Não foi um problema exclusivamente com uma pessoa. Graças a Deus, na minha vida profissional, de onde eu saí, sempre saí de cabeça erguida.

No Parma mesmo, eu sabia que eles priorizavam os jovens. E é um clube que está no meu coração. Graças a Deus, nunca tive problema pessoal com ninguém, nunca saí por causa de um treinador ou pela chegada de uma pessoa. Foram escolhas que foram muito bem resolvidas entre atleta e clube, porque eu também enxergava que já não era mais um local em que eu ia conseguir desempenhar bem o meu futebol, da forma que eu gostaria. E o clube também sabia.

Quando eu saí do Zenit [em definitivo, em 2019], eu tive uma conversa com o técnico. O treinador russo, o Sergei Semak, falou comigo: “olha, você é, para mim, muito importante, mas é uma decisão sua. Eu não te prometo que você vai ser sempre titular”. E eu queria jogar mais. Essa foi a questão. Se eu pudesse escolher realmente, e ficar no Zenit e jogar todos os jogos, essa teria sido a minha escolha. Mas não dependia só de mim. Então, por isso, a gente tem que tomar algumas decisões.

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