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·28 de setembro de 2026

Flamengo depende das bets? A conta não fecha

Imagem do artigo:Flamengo depende das bets? A conta não fecha

Há uma tentação irresistível no debate sobre as bets: pegar um número enorme, colocá-lo diante do torcedor e transformar milhões em sentença.

No Flamengo, a conta é mais complicada.


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A Betano paga R$ 268,5 milhões por temporada pelo espaço máster da camisa. É uma fortuna. Mas transformar esse valor em prova de que o Flamengo depende financeiramente das apostas exige ignorar justamente aquilo que deveria comandar a discussão: os números.

O balanço rubro-negro de 2025 registra receita operacional bruta de R$ 2,089 bilhões. Desse total, R$ 1,571 bilhão correspondeu a receitas recorrentes, sem contar as transferências de jogadores.

É aí que a narrativa começa a perder força.

Retire-se a Betano da equação. E, para tornar o exercício ainda mais severo, imagine que nenhum novo patrocinador apareça para ocupar o espaço mais valorizado da camisa.

Ainda assim, o Flamengo teria uma receita próxima de R$ 1,82 bilhão.

Isso não significa que perder R$ 268,5 milhões seja irrelevante. Longe disso. Significa apenas que uma receita importante não é necessariamente uma receita insubstituível.

E há uma ironia na conta.

O espaço que hoje pertence à Betano continuaria existindo depois dela. O Flamengo não perderia a camisa. Perderia o contrato. São coisas diferentes.

Se um novo patrocinador pagasse R$ 150 milhões, a diferença seria de R$ 118,5 milhões. Se chegasse a R$ 200 milhões, cairia para R$ 68,5 milhões.

Ainda é dinheiro demais para ser desprezado.

Mas já não parece o apocalipse financeiro que algumas narrativas sugerem.

Quando a discussão abandona os números

O Flamengo precisa, evidentemente, discutir o peso das bets em sua receita comercial. Também precisa considerar riscos regulatórios, reputacionais e de mercado.

Mas daí a decretar dependência financeira há uma distância considerável.

O balanço mostra uma estrutura diversificada, com direitos de transmissão, exploração do Maracanã, patrocínios, licenciamento, premiações e negociação de atletas. Em 2025, a receita comercial cresceu 23%.

O problema é que números grandes produzem manchetes fáceis.

“R$ 268,5 milhões das bets” assusta.

“R$ 2,089 bilhões de receita” exige uma segunda leitura.

E talvez seja justamente essa segunda leitura que esteja faltando.

As bets podem ser combatidas por razões sociais. Isso é uma discussão legítima e não precisa de maquiagem.

O que não parece legítimo é transformar uma questão social em argumento financeiro sem fazer a conta inteira.

Flamengo não é Betano.

Betano é uma parte — importante, certamente — de uma máquina de receitas muito maior.

Se amanhã a empresa sair, haverá impacto. O Flamengo terá de encontrar outra fonte para ocupar aquele espaço. Terá menos dinheiro disponível. Precisará recalibrar alguma coisa.

Mas dizer que o clube quebra porque uma patrocinadora desapareceu é confundir perda de receita com dependência estrutural.

E futebol brasileiro adora esse tipo de confusão.

Porque a narrativa pronta cabe em uma postagem.

O balanço, não.

No fim, talvez seja esse o ponto mais incômodo: combater as bets não exige inventar uma fragilidade que os números não demonstram.

O Flamengo pode ser criticado pelo contrato. Pode ser cobrado pela exposição. Pode ser questionado pela estratégia comercial.

Tudo isso faz parte do debate.

Só não vale transformar R$ 268,5 milhões em R$ 2 bilhões.

Porque, quando a paixão entra em campo, a matemática costuma ser a primeira a ser expulsa.

(*) Wilson Pimentel é jornalista, radialista, empresário e sócio-fundador da Agência RTI Esporte.

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