RTI Esporte
·05 de outubro de 2026
Flamengo não precisa vender craques por causa das bets

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·05 de outubro de 2026

É impressionante como, no futebol brasileiro, basta surgir uma ameaça de perda de receita para alguém decretar o apocalipse. Agora a bola da vez é o Flamengo. A proibição das bets virou argumento para anunciar a venda de Lucas Paquetá, Samuel Lino e, se deixarem, metade do elenco. Como se o clube tivesse acordado de repente sem dinheiro para pagar as contas.
Calma.
A Betano tem um contrato com o Flamengo que vai até dezembro de 2028. O acordo prevê R$ 250 milhões fixos por ano e pode alcançar R$ 268,5 milhões com componentes variáveis. É o maior patrocínio do futebol brasileiro. Perder uma receita dessa dimensão, evidentemente, seria um golpe relevante. Mas transformar esse problema em sentença de venda imediata de jogadores é outra história.
O ponto mais importante é que o impacto financeiro precisa ser colocado no tempo correto. O Flamengo recebeu os pagamentos referentes a 2026, totalizando R$ 268 milhões, segundo informações divulgadas sobre o acordo.
O problema maior está na continuidade da receita. E nem isso está definido: a medida provisória ainda depende do processo legislativo e há questionamentos jurídicos em andamento. Além disso, Flamengo e Betano decidiram manter a relação em stand by, sem uma rescisão efetivada até o momento.
Isso não significa que o clube esteja confortável. O próprio Bap expôs a preocupação com compromissos futuros, especialmente pagamentos de contratações como a de Lucas Paquetá. O Flamengo ainda tem valores relevantes a pagar por jogadores contratados recentemente.
Mas é justamente aí que a análise precisa fugir do grito.
O Flamengo fechou 2025 com R$ 218 milhões em caixa e projetou receita bruta de R$ 1,8 bilhão para 2026. No orçamento, estão previstos R$ 538 milhões em receitas comerciais, R$ 504 milhões de matchday, R$ 265 milhões de televisão e R$ 256 milhões em vendas de jogadores.
Só que projeção não é dinheiro realizado, e a própria receita com transferências estava abaixo do previsto. Portanto, usar o orçamento como se fosse caixa disponível seria tão errado quanto decretar uma crise financeira imediata.
É nesse ponto que entra José Boto.
Quando o diretor fala que, no pior cenário, o Flamengo pode precisar vender jogadores e não repor, ele não está anunciando que Paquetá ou Samuel Lino serão colocados à venda amanhã. Está reconhecendo que a perda de uma receita contratada pode obrigar o futebol a rever seu planejamento.
E isso é bem diferente.
O Flamengo pode ter de vender jogadores por razões financeiras no futuro? Pode. Pode também precisar reduzir investimentos, rever contratos ou encontrar novas fontes de receita. O que não existe, neste momento, é base para transformar essas possibilidades em certeza.
O clube tem uma camisa que, segundo o próprio Flamengo, alcança cerca de R$ 470 milhões em propriedades comerciais. A capacidade de substituir parte de uma receita perdida, portanto, existe — embora não haja garantia de que qualquer novo contrato alcance o mesmo valor da Betano.
No fim, o futebol não funciona em manchetes de tudo ou nada.
A Betano sair seria um problema. Um problema grande.
Mas entre perder R$ 268,5 milhões potenciais por temporada e desmontar um time campeão existe planejamento, negociação, mercado e tempo.
Por enquanto, a pergunta correta não é quem o Flamengo vai vender.
É quanto da receita perdida conseguirá substituir — e em quanto tempo.
A Betano pode sair da camisa.
Isso não significa, automaticamente, que o craque tenha de sair do Ninho.
(*) Marco Marcondes é jornalista, radialista, ator, diretor de cinema, teatro e televisão, promotor de eventos e CEO da Agência RTI Esporte.







































