RTI Esporte
·26 de setembro de 2026
Flamengo precisa controlar o ego antes que vire problema

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·26 de setembro de 2026

O Flamengo tem conseguido apagar rapidamente pequenas faíscas no elenco. Ainda bem. Em um time recheado de jogadores importantes, basta uma reclamação mal administrada para virar incêndio.
Saúl Ñíguez, Samuel Lino e Pedro demonstraram recentemente irritação em campo. Depois, ambos tiveram espaço para apresentar suas versões à imprensa no mesmo dia. O episódio foi tratado como deveria: sem transformar uma manifestação de descontentamento em crise de vestiário.
Leonardo Jardim também merece crédito. O treinador não entrou no jogo fácil de expor jogador, responder provocação ou transformar uma reclamação em disputa pública de autoridade. Manteve a serenidade e deixou que o episódio perdesse força.
Mas é justamente aí que começa a parte mais delicada.
Ser sereno não significa ser permissivo. Jogador pode reclamar. Deve até reclamar em determinadas circunstâncias. Quem compete quer jogar, quer participar, quer decidir.
O problema começa quando a manifestação individual passa a colocar em dúvida uma decisão que pertence ao treinador.
E isso precisa ficar muito claro no Flamengo.
O craque pode reclamar. O treinador precisa decidir.
Há uma diferença enorme entre demonstrar frustração e afrontar uma hierarquia.
O primeiro faz parte do esporte. O segundo corrói qualquer grupo.
O Flamengo não pode criar um ambiente em que cada substituição venha acompanhada de uma discussão, cada banco seja interpretado como ofensa e cada jogador entenda que sua importância lhe concede uma espécie de salvo-conduto para contestar decisões.
Não concede.
Pedro não é maior que o Flamengo. Samuel Lino não é maior que o Flamengo. Saúl Ñíguez não é maior que o Flamengo. E ninguém será.
Isso não significa transformar jogador em soldado obediente. Futebol não funciona assim.
Atleta precisa ter personalidade, cobrar, discordar e até demonstrar insatisfação. Mas existe uma hora em que a porta do campo precisa fechar e a decisão do treinador precisa ser respeitada.
É aí que Leonardo Jardim será realmente testado.
Não quando o time estiver vencendo e todos estiverem sorrindo. O teste de um treinador aparece quando o jogador importante é substituído, o reserva entra e o titular não gosta.
É nesse momento que se mede autoridade.
Leonardo Jardim tem adotado uma comunicação inteligente ao não expor os jogadores publicamente. Mas preservar o atleta não significa abrir mão da hierarquia. Aliás, deveria ser exatamente o contrário.
Quanto maior o elenco, maior precisa ser a disciplina coletiva.
O Flamengo tem jogadores capazes de decidir partidas. Tem também jogadores que precisarão aceitar o banco, a substituição e a rotação. Isso é inevitável em uma temporada longa.
O perigo está em transformar personalidade em privilégio.
Um time começa a se perder quando cada jogador passa a defender apenas o próprio espaço. O treinador escala pensando no coletivo. O atleta pensa no próprio desempenho. Se ninguém colocar limite nessa equação, o vestiário vira uma disputa silenciosa por protagonismo.
E o Flamengo não precisa disso.
Precisa de jogadores que queiram jogar, claro. Mas precisa, sobretudo, de jogadores que entendam que querer jogar não dá a ninguém o direito de decidir quem deve jogar.
A última palavra precisa continuar sendo do treinador.
E, quando a bola rolar, a única coisa que deveria importar é o Flamengo.
(*) Wilson Pimentel é jornalista, radialista, empresário e sócio-fundador da Agência RTI Esporte.







































