Calciopédia
·12 de julho de 2026
Javier Pastore mostrou talento no Palermo, mas teve carreira marcada pela irregularidade

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O futebol sempre reservou espaço para jogadores que parecem desafiar o ritmo do jogo. Não necessariamente os mais rápidos ou mais fortes, mas aqueles capazes de transformar um lance comum em algo inesperado com um toque, um giro ou um passe improvável. Javier Pastore pertenceu a essa categoria. Dono de técnica refinada e de uma elegância rara, o argentino deu a impressão de que pisaria no seleto grupo dos grandes meias de sua geração. Embora tenha acumulado títulos importantes e vestido camisas de peso, a sua carreira jamais acompanhou o tamanho das expectativas que despertou. Sua trajetória se dividiu entre lampejos de genialidade e um histórico persistente de lesões. Antes disso, encontrou sua melhor versão com a camisa do Palermo e encantou o mundo da bola.
Pastore nasceu em 20 de junho de 1989, em Córdoba, na Argentina. De origem humilde, iniciou sua trajetória nas categorias de base do Talleres e estreou profissionalmente em 2007. Ainda muito jovem, já chamava atenção pela capacidade de conduzir a bola com naturalidade, pela visão de jogo e pela facilidade em atuar em diferentes funções do setor ofensivo. Embora tivesse o posto de meia-atacante como posição de origem, também podia aparecer pelos lados do campo, como segundo atacante ou até recuado na construção das jogadas, sempre participando tanto da elaboração quanto da conclusão das ações ofensivas. Sua elegância em campo e o físico esguio, do alto de seu 1,87 m de altura, lhe renderam o apelido de El Flaco – que significa “o magro”, em espanhol –, enquanto seu estilo de jogo frequentemente era associado ao de Juan Román Riquelme e Kaká.
Entretanto, foi no Huracán que Pastore realmente despontou, uma temporada depois. Sob o comando de Ángel Cappa, tornou-se um dos protagonistas da equipe que encantou a Argentina durante o Torneio Clausura de 2009. Com um futebol ofensivo, técnico e envolvente, o Huracán esteve muito próximo do título nacional, perdido de maneira controversa para o Vélez Sarsfield apenas na última rodada. O desempenho do meia foi suficiente para despertar o interesse de diversos clubes europeus, que enxergavam nele um dos maiores talentos surgidos no futebol argentino naquele período.
Em julho de 2009, Pastore foi contratado pelo Palermo por cerca de 5 milhões de euros. À época, o clube siciliano vinha de uma oitava posição na Serie A, embalado por Fabrizio Miccoli, Edinson Cavani e Fábio Simplício. O time vivia um momento positivo sob a presidência de Maurizio Zamparini, dirigente conhecido por apostar em jovens sul-americanos antes de negociá-los com as principais potências do continente. A chegada do argentino coincidiu com uma das fases mais competitivas da história recente dos rosanero.
Sua adaptação ao futebol italiano, contudo, não foi imediata. Nos primeiros meses da temporada 2009-10, ainda sob o comando de Walter Zenga, Pastore alternava entre a titularidade e o banco de reservas, além de ser frequentemente deslocado para atuar aberto pelo lado esquerdo, função que limitava parte de suas principais características – ainda assim, forneceu assistências nas vitórias sobre Napoli e Juventus. A mudança aconteceu com a chegada de Delio Rossi, após a 13ª rodada da Serie A, embora o seu antecessor não viesse fazendo um trabalho ruim.
O novo treinador reorganizou a equipe, sacando Simplício, e devolveu ao argentino liberdade para atuar por dentro, próximo da área, explorando sua criatividade, capacidade de acelerar a jogada com conduções em velocidade e habilidade para romper linhas com passes verticais. A partir dali, Pastore cresceu de rendimento junto com o Palermo, que arrancou no returno, encerrou a Serie A na quinta colocação e garantiu vaga na Liga Europa após uma das melhores campanhas de sua história. El Flaco terminou o ano com três gols marcados, sete assistências e dois pênaltis sofridos que resultariam em bolas nas redes.
Em sua primeira temporada na Itália, Pastore foi garçom de Cavani e outros nomes do ataque do ótimo time do Palermo (Getty)
As atuações do argentino lhe renderiam o prêmio de melhor jogador jovem da Serie A 2009-10, que foi entregue em janeiro de 2011, e consolidaram sua reputação como uma das maiores promessas do futebol mundial. Por isso, conquistou espaço na seleção argentina que disputaria a Copa do Mundo de 2010, na África do Sul. Mesmo com apenas uma partida oficial pela Albiceleste, o desempenho apresentado na Itália foi suficiente para convencer Diego Armando Maradona a levá-lo para o torneio. El Flaco foi utilizado como opção de segundo tempo em três partidas, incluindo a goleada sofrida contra a Alemanha, que selou a eliminação dos hermanos nas quartas de final. Ainda assim, sua convocação evidenciava a velocidade com que seu prestígio crescera desde a chegada à Sicília.
Foi, porém, na temporada 2010-11 que Pastore viveu o auge da carreira, ainda com 21 anos. Ainda sob o comando de Rossi, o Palermo passou por leve reformulação, já que Mark Bresciano rumou à Lazio, Simplício passou à Roma e Cavani ao Napoli. O argentino assumiu a responsabilidade após as saídas e tornou-se definitivamente o principal articulador da equipe, formando, ao lado de Miccoli e do reforço Josip Ilicic, um dos ataques mais talentosos da Serie A naquele período. Enquanto o italiano oferecia liderança, fantasia e capacidade de definição, e o esloveno acrescentava imprevisibilidade, Pastore também agregava habilidade e capacidade de pensar o jogo. Era o responsável por conectar todo o setor ofensivo, circulando por diferentes zonas do campo e conduzindo o ritmo das ações.
O Palermo daquele período reunia uma geração que marcou época na história do clube. Depois das sucessivas boas campanhas – em especial o quinto lugar na temporada anterior –, os rosanero definitivamente não eram uma surpresa do campeonato. Havia esperança de ir além mesmo conciliando Serie A, Europa League e Coppa Italia com um dos elencos mais jovens da competição. Os sicilianos mantiveram uma identidade ofensiva muito clara, baseada na mobilidade de seus homens de frente e na liberdade criativa concedida ao novo camisa 27, que tinha cedido a 6 ao compatriota Ezequiel Muñoz, contratado no verão do hemisfério norte. Foi nesse ambiente que Pastore encontrou o cenário ideal para desenvolver o melhor futebol de sua carreira.
Usando o número de camisa que escolheu em homenagem à mãe, o argentino marcou 13 gols no total, sendo 11 na Serie A, terminando como artilheiro geral da equipe. El Flaco também se destacou pela quantidade de assistências (cinco, dessa vez) e participações decisivas. Seu repertório reunia dribles em espaços curtos, conduções elegantes, passes entre linhas e uma impressionante facilidade para encontrar companheiros em melhores condições de finalizar. Era um meia capaz de iniciar e concluir jogadas com a mesma naturalidade, alternando aparições entre as linhas de marcação, caindo pelos corredores ou acelerando em conduções de passada longa que desmontavam sistemas defensivos. Desequilibrava.
Entre as atuações mais marcantes daquele período está a realizada no histórico dérbi siciliano com o Catania, quando marcou os três gols da vitória por 3 a 1 – sendo o autor da primeira tripletta da história do clássico por um jogador do Palermo. Também brilhou em outras partidas importantes do campeonato, tal qual no triunfo sobre a Juventus, em Turim, pelo mesmo placar. Nada muito diferente do que já se acostumara em 2009-10.
El Flaco também foi decisivo na campanha que levou os rosanero até a final da Coppa Italia de 2011, perdida para a Inter. Na semifinal de ida, contra o Milan, marcou um gol e forneceu uma assistência no empate por 2 a 2 arrancado em San Siro. O Palermo, que encerrou a Serie A na oitava colocação, ficou perto de fazer história em Roma, mas não foi páreo para os nerazzurri no Olímpico e amargaram derrota por 3 a 1. Na Liga Europa, por sua vez, a eliminação precoce na fase de grupos, numa chave com CSKA Moscou, Sparta Praga e Lausanne, mostrou que ainda faltava maturidade ao time. Inclusive para o argentino, expulso por duas vezes em seis jogos. Decepções à parte, aquela equipe permaneceu como uma das mais lembradas da gestão Zamparini justamente pela qualidade do futebol apresentado, e Pastore foi um dos principais símbolos desse período.
Na Sicília, ainda jovem, El Flaco viveu o auge de sua carreira (Getty)
O desempenho na Sicília inevitavelmente chamou a atenção do mercado europeu e Zamparini, em seu modelo de gestão, já esperava por uma grande venda de Pastore. Em agosto de 2011, depois de o jogador ter disputado a Copa América pela Argentina, o Paris Saint-Germain, recém-adquirido pelo fundo Qatar Sports Investments – QSI e disposto a transformar-se em uma potência continental, investiu cerca de 43 milhões de euros para contratar o trequartista sul-americano. A negociação fez dele a primeira grande estrela do novo projeto parisiense e, naquele momento, também a contratação mais cara da história do clube e do futebol francês. Depois de 90 aparições, 16 gols e 14 assistências, El Flaco se despedida do Palermo, que ficou com 22,8 milhões do montante pago por sua joia.
O início na França confirmou as expectativas individuais sobre o argentino. Pastore rapidamente se adaptou à Ligue 1, protagonizou boas atuações, marcou gols importantes e ajudou a recolocar o PSG entre os protagonistas do futebol francês, apesar do vice-campeonato da Ligue 1. Esse cenário mudaria rapidamente, entretanto. Ao longo de sete temporadas, o meia-atacante conquistou cinco Campeonatos Franceses, além de copas nacionais e supercopas, participando da consolidação do domínio doméstico do clube. El Flaco seguia no radar da seleção de seu país e disputaria a Copa América de 2015, perdida para o Chile nos pênaltis como titular; na posterior não saiu do banco.
A falta de espaço na Argentina coincidia com o que ocorria com Pastore em nível de clube. À medida que o elenco parisiense crescia e novas estrelas chegavam, o argentino passou a enfrentar um adversário ainda mais difícil: o próprio corpo. Lesões musculares recorrentes reduziram sua sequência de partidas e impediram que mantivesse o nível apresentado nos primeiros anos, tornando inglória a tarefa de concorrer com estrelas de nível mundial. Embora ainda produzisse momentos de enorme qualidade técnica, sua trajetória no PSG acabou marcada pela irregularidade, alimentando a sensação de que jamais conseguiu reproduzir continuamente o futebol que encantara a Serie A.
Em 2018, já com espaço reduzido na equipe francesa, Pastore, então com 29 anos, retornou ao futebol italiano ao assinar com a Roma por quase 25 milhões de euros. A expectativa era elevada justamente porque muitos ainda lembravam do meia que havia brilhado em Palermo. A torcida romanista esperava encontrar novamente aquele jogador capaz de controlar o ritmo da partida, romper linhas com passes precisos e decidir jogos pela criatividade.
Até simbolicamente, Pastore retomou a camisa 27, a mesma utilizada em seus melhores anos na Sicília. Mas, desta vez, o contexto seria completamente diferente. Desde a pré-temporada, os problemas físicos voltaram a aparecer. Lesões nas panturrilhas, limitações musculares e problemas no quadril impediram que tivesse sequência. Nem mesmo as mudanças no comando técnico, com as passagens de Eusebio Di Francesco, Claudio Ranieri e Paulo Fonseca, alteraram esse cenário.
Sua primeira temporada começou de maneira brilhante: nas seis primeiras rodadas da Serie A, marcou dois gols de letra em gestuais muito difíceis de serem executados, sobre Atalanta (num frenético 3 a 3 em que ainda forneceu assistência) e Frosinone (4 a 0). Aquele mago dos tempos de Palermo estava de volta? Ledo engano. O que se iniciou com beleza terminou de forma decepcionante.
Pastore teve um belo início de passagem pela Roma, mas logo foi atropelado pela realidade (Getty)
Combalido pelas lesões e pela dificuldade de se impor fisicamente nas partidas, Pastore virou opção de banco. O argentino somou apenas 14 partidas na Serie A e três gols. Nem Di Francesco nem Ranieri, contratado para o fim da temporada, se convenceram de que ele poderia contribuir de fato com o time. Nos dois anos seguintes, já sob as ordens de Fonseca, a situação piorou. Pastore passou longos períodos afastado, buscou tratamentos específicos e chegou a realizar uma cirurgia no quadril na tentativa de recuperar plenamente a condição física. Ainda assim, nunca conseguiu estabelecer continuidade. Em 2020-21, por exemplo, atuou apenas cinco vezes e não chegou sequer a ter 100 minutos de futebol nas pernas.
Pressionada pelo elevado salário e pela pequena contribuição esportiva, a Roma passou a buscar alternativas para encerrar o vínculo do argentino, já na recém-iniciada gestão de José Mourinho – que gentilmente mostrou a porta de saída ao trequartista. Em agosto de 2021, clube e jogador chegaram a um acordo pela rescisão contratual. No total, foram apenas 37 partidas oficiais, quatro gols, três assistências e poucas oportunidades para demonstrar o talento que um dia encantara o futebol italiano. O seu corpo já não estava apto para o futebol profissional.
Após deixar a capital, Pastore ainda buscou prolongar a carreira no Elche, da Espanha. Mais uma vez, contudo, as limitações físicas impediram uma sequência de jogos. Posteriormente transferiu-se para o Qatar SC, onde realizou sua última experiência profissional em 2023. El Flaco se submeteu a outra cirurgia no quadril para se livrar de dores que limitavam o seu dia a dia e chegou a dizer, em janeiro de 2024, que seria um milagre se voltasse a atuar profissionalmente. Era verdade: em novembro, anunciou o encerramento de sua carreira, aos 34 anos.
Embora tenha conquistado títulos importantes e vestido algumas das camisas mais relevantes da Europa, Javier Pastore será lembrado principalmente pelo futebol apresentado em Palermo. Foi na Sicília que reuniu continuidade, confiança e liberdade para explorar toda a sua capacidade criativa, tornando-se um dos jogadores mais talentosos da Serie A no início da década de 2010. Vê-lo jogar era pura poesia: era um artista de passe curto, improviso e eficiência no último terço do campo.
Em contraste, sua segunda passagem pelo futebol italiano, pela Roma, acabou simbolizando justamente o que impediu uma carreira ainda maior: seu talento extraordinário foi constantemente interrompido pelas lesões, conforme foi envelhecendo. Pastore permanecerá, assim, como um daqueles jogadores cuja memória se apoia menos nos números e mais na beleza do futebol que foi capaz de produzir quando o corpo permitiu.
Javier Matías Pastore Nascimento: 20 de junho de 1989, em Córdoba, Argentina Posição: meio-campista Clubes: Talleres (2007-08), Huracán (2008-09), Palermo (2009-11), Paris Saint-Germain (2011-18), Roma (2018-21), Elche (2021-23) e Qatar SC (2023) Títulos: Ligue 1 (2013, 2014, 2015, 2016 e 2018), Supercopa da França (2013, 2014, 2015, 2016 e 2017), Copa da Liga Francesa (2014, 2015, 2016, 2017 e 2018) e Copa da França (2015, 2016, 2017 e 2018) Seleção argentina: 29 jogos e 2 gols







































