RTI Esporte
·03 de outubro de 2026
Jorge Jesus começa a desmontar a seleção que Portugal construiu para Cristiano Ronaldo

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·03 de outubro de 2026

Há algo de significativo nas primeiras decisões de Jorge Jesus à frente de Portugal: Cristiano Ronaldo começa a ser tratado, ao menos neste momento, como jogador — e não como instituição.
Parece pouco. Não é.
Durante anos, a seleção portuguesa se acostumou a conviver com o peso extraordinário de Cristiano Ronaldo. Sua importância histórica, seus gols e tudo o que construiu pelo país fizeram com que qualquer discussão sobre seu papel viesse acompanhada de uma cautela quase obrigatória.
O problema é quando reconhecimento se transforma em dependência.
Se Jorge Jesus é o treinador, cabe a ele definir escalação, minutos e estratégia. É uma premissa básica do futebol. O tamanho de Cristiano Ronaldo não deveria alterar essa hierarquia. E as escolhas recentes do técnico abrem justamente essa discussão.
Não se trata de reescrever a história de Cristiano Ronaldo. Seria absurdo. Ele é uma das maiores figuras do futebol português e protagonista de uma geração que conquistou a Eurocopa e mudou o patamar da seleção.
Mas uma coisa é reconhecer sua grandeza. Outra é imaginar que a seleção precise continuar funcionando em torno dela.
Portugal tem jogadores de alto nível nos principais clubes do mundo. Tem talento suficiente para discutir uma nova identidade e projetar o ciclo até 2030. Durante muito tempo, porém, a impressão foi de que o coletivo precisava se adaptar à presença de Cristiano Ronaldo, e não o contrário.
Essa é a questão que começa a aparecer agora.
Cristiano Ronaldo quer chegar aos mil gols. É uma ambição individual legítima e compatível com a dimensão de sua carreira. Mas a seleção portuguesa precisa ter objetivos próprios.
E aí surge o conflito.
Uma equipe nacional não pode ser organizada exclusivamente em função da marca de um jogador, por maior que seja esse jogador. Se Portugal pretende construir o próximo ciclo pensando em 2030, inevitavelmente terá de discutir qual será o espaço de Cristiano Ronaldo nesse processo.
Isso pode significar banco em determinados jogos. Pode significar menos minutos. Pode significar até não ser utilizado em algumas partidas. São decisões técnicas, não necessariamente gestos de confronto.
Jorge Jesus parece disposto a colocar essa discussão na mesa.
E isso, por si só, já é relevante.
O ponto não é tirar Cristiano Ronaldo da história portuguesa. É impedir que a história determine eternamente o futuro.
Portugal não precisa esquecer Cristiano Ronaldo. Precisa apenas voltar a lembrar que existe uma seleção depois dele.
(*) Wilson Pimentel é jornalista, radialista, empresário e sócio-fundador da Agência RTI Esporte.







































