RTI Esporte
·30 de setembro de 2026
Jorge Jesus fez o que Portugal precisava com Cristiano Ronaldo

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·30 de setembro de 2026

Cristiano Ronaldo pode ser eterno para Portugal. Mas isso não significa que Jorge Jesus tenha de tratá-lo como intocável.
E, finalmente, alguém parece ter entendido isso.
A decisão de não colocar Cristiano Ronaldo em campo contra a Noruega, depois de o atacante passar cerca de 30 minutos aquecendo, provocou irritação e terminou com a saída do jogador da concentração. Jorge Jesus explicou que havia considerado utilizá-lo, mas mudou de plano conforme a partida exigiu.
Foi uma decisão técnica.
E talvez seja justamente isso que Portugal tenha demorado demais para fazer.
Cristiano Ronaldo é o maior jogador da história portuguesa. É também um dos maiores da história do futebol. Seus 146 gols pela seleção e tudo o que construiu com a camisa nacional não estão em discussão.
Mas nenhum desses números escala jogador.
Quem escala é o treinador.
E Jorge Jesus, ao contrário do que fizeram outros, parece disposto a exercer a função para a qual foi contratado.
Não existe desrespeito em colocar Cristiano Ronaldo no banco. Desrespeito seria fingir que o tempo não passou, que o rendimento continua o mesmo e que a seleção precisa se adaptar permanentemente ao jogador mais famoso do elenco.
Portugal já fez isso durante anos.
Agora, alguém decidiu parar.
O ponto central não é Cristiano Ronaldo ter ficado fora de uma partida.
É o que a decisão representa.
Jesus chegou à seleção com uma responsabilidade que vai além de escolher titulares. Precisa preparar Portugal para um futebol menos dependente de um jogador de 41 anos.
Isso exige coragem.
E coragem, neste caso, significa tomar uma decisão que inevitavelmente produzirá barulho.
Cristiano Ronaldo está acostumado a ser protagonista. Durante grande parte da carreira, foi justamente sua capacidade de assumir responsabilidade que o transformou em Cristiano Ronaldo.
Só que a mesma personalidade que ajudou a construir o mito precisa encontrar agora um limite.
O treinador.
Cristiano Ronaldo pode discordar. Pode ficar frustrado. Pode considerar que ainda tem condições para jogar. Tudo isso é legítimo.
O que não pode existir é uma seleção condicionada à vontade de seu maior astro.
Jorge Jesus parece ter compreendido algo elementar: se o treinador não puder tirar Cristiano Ronaldo, então não é Jorge Jesus quem escala Portugal. É Cristiano Ronaldo.
E isso seria um erro.
Não porque Cristiano Ronaldo seja um problema.
Mas porque qualquer seleção que queira continuar competitiva precisa ser maior do que seu maior jogador.
Roberto Martínez teve oportunidades para enfrentar essa transição. Preferiu, em diferentes momentos, preservar o protagonismo de Cristiano Ronaldo.
Jorge Jesus escolheu outro caminho.
Mais doloroso, certamente.
Mais impopular, talvez.
Mas necessário.
O futebol não pode ser administrado como um museu. Troféus, recordes e gols pertencem à história. A escalação pertence ao presente.
E o presente de Portugal exige decisões que não sejam tomadas pelo tamanho do nome.
Se Cristiano Ronaldo continuar, precisará aceitar a nova realidade: pode ser titular, reserva ou substituído.
Como qualquer outro.
Se não aceitar, a despedida será consequência.
Jorge Jesus não precisa vencer Cristiano Ronaldo.
Precisa apenas deixar claro que Portugal está acima de Cristiano Ronaldo.
E, pela primeira vez em muito tempo, alguém parece ter tido coragem para dizer isso sem pedir desculpas.
(*) Wilson Pimentel é jornalista, radialista, empresário e sócio-fundador da Agência RTI Esporte.







































