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·06 de agosto de 2026

Josep Sunyol, o presidente fuzilado: 90 anos de um crime

Imagem do artigo:Josep Sunyol, o presidente fuzilado: 90 anos de um crime

Presidente do FC Barcelona, deputado republicano e catalanista, Josep Sunyol foi executado sem julgamento pelas tropas franquistas em 6 de agosto de 1936. Nove décadas depois, seu corpo segue desaparecido e sua figura continua explicando uma parte essencial da identidade blaugrana

Muito mais do que um presidente do Barça

Josep Sunyol i Garriga foi muito mais do que o presidente do Barça assassinado nos primeiros momentos da Guerra Civil. Advogado, empresário, jornalista e deputado nas Cortes republicanas, defendeu uma ideia de esporte estreitamente ligada à participação social, à democracia e à identidade coletiva.

Nasceu em Barcelona em 21 de julho de 1898, no seio de uma família abastada ligada à indústria açucareira. No entanto, sua posição econômica não o aproximou do conservadorismo predominante em parte da burguesia catalã. Sunyol se comprometeu com o catalanismo democrático, o republicanismo e um reformismo social que defendia as liberdades políticas e o autogoverno da Catalunha.


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Seu pensamento deve ser situado na cultura republicana catalã do período entre guerras, que combinava a reivindicação nacional, a democratização do Estado e a modernização social. Antes de ingressar na Esquerra Republicana, militou no entorno da Acció Catalana. Posteriormente, foi eleito deputado em 1931, 1933 e, novamente, em fevereiro de 1936.

A política não ocupava um lugar secundário em sua vida. Sunyol entendia que a democracia também deveria ser construída fora dos parlamentos, na imprensa, nas associações, nos estádios e nos espaços onde as classes populares se reuniam.

«Esport i Ciutadania»

Essa concepção ficou resumida no lema «Esport i Ciutadania», sob o qual ele impulsionou em 1930 o semanário La Rambla. A publicação combinava informação esportiva, atualidade política e mobilização cívica, e usava a enorme popularidade do futebol para aproximar o debate público de leitores que talvez não comprassem um jornal estritamente ideológico.

Para Sunyol, o esporte não podia viver isolado da sociedade. O futebol era espetáculo, mas também educação coletiva, participação e afirmação nacional. Essa linha editorial transformou La Rambla em uma publicação incômoda para as autoridades, que a multaram, suspenderam sua circulação, revistaram sua redação e apreenderam várias edições.

Seu catalanismo e republicanismo chocavam tanto com a herança autoritária da ditadura de Primo de Rivera quanto com aqueles que pretendiam reduzir o futebol a uma simples distração. Nesse sentido, Sunyol foi um dos primeiros dirigentes a entender o alcance político e social de um esporte que já mobilizava milhares de pessoas.

A história de La Rambla também se relaciona com uma das tradições mais reconhecíveis do barcelonismo. De sua redação, situada perto de Canaletes, os resultados do Barça eram comunicados por meio de um quadro. Os torcedores começaram a se concentrar ali para conhecê-los e transformaram aquele espaço em um ponto habitual de encontro blaugrana.

Do compromisso catalanista à presidência

Sunyol se tornou sócio do FC Barcelona em fevereiro de 1925, em plena ditadura de Primo de Rivera e poucos meses antes do fechamento de Les Corts após a histórica vaia à Marcha Real. Sua adesão ao clube tinha uma dimensão esportiva, mas também política e cultural: o Barça já era uma instituição castigada por seu enraizamento catalão e por ter se tornado um espaço de expressão coletiva.

Em 1928, entrou para a diretoria e, durante a temporada 1929-30, presidiu a Federação Catalã de Futebol. Finalmente, em julho de 1935, assumiu a presidência do Barça, depois de ter recusado anteriormente o cargo por motivos de saúde.

Recebeu uma entidade com problemas econômicos e em um contexto social cada vez mais tenso. Ao lado de Esteve Sala e Francesc Xavier Casals, contribuiu para o saneamento das contas. Durante seu mandato, a equipe conquistou o Campeonato da Catalunha e chegou à final da Copa de 1936, que perdeu para o Madrid.

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Josep Sunyol no camarote ao lado de Lluís Companys

No entanto, sua importância à frente do clube não pode ser medida apenas por balanços econômicos ou resultados esportivos. Sob sua presidência, o Barça reforçou sua condição de instituição cívica e cultural. Não atuava como um partido político, mas também não permanecia neutro diante da repressão das liberdades catalãs.

Essa concepção ajuda a compreender uma parte do significado histórico do “més que un club”, embora a expressão ainda não existisse. Sunyol representava uma ideia incômoda para qualquer poder autoritário: a possibilidade de que uma entidade esportiva de massas se convertesse também em uma comunidade consciente de sua identidade e de seus direitos.

Os últimos dias: uma missão política

O golpe militar de julho de 1936 alterou por completo sua vida e a do clube. Durante as primeiras semanas da guerra, Sunyol atuou como ligação entre as instituições catalãs e as autoridades republicanas. Primeiro viajou para Valência e depois foi para Madri acompanhado pelo jornalista Pere Ventura.

Sua missão era política e institucional: como deputado republicano, transportava comunicações destinadas a dirigentes da República.

Uma vez em Madri, decidiu se aproximar da frente da serra de Guadarrama. Naqueles primeiros dias do conflito, as linhas militares mudavam com rapidez e a informação circulava de maneira confusa, incompleta e contaminada pela propaganda. As posições podiam se modificar em poucas horas e nem sempre havia indicações confiáveis sobre as zonas controladas por cada lado.

Em 6 de agosto de 1936, o veículo em que viajavam Sunyol e seus três acompanhantes entrou em território dominado pelos militares sublevados. A hipótese mais aceita sustenta que eles acreditavam continuar dentro da zona republicana e que a confusão da frente os levou a cruzar as linhas sem perceber.

As tropas franquistas os interceptaram perto do quilômetro 52 da antiga estrada de Madri a La Coruña, em um ponto que com o tempo recebeu o nome de Casilla de la Muerte.

Identificado e executado sem julgamento

Quando os militares comprovaram sua identidade, entenderam que não estavam diante de um viajante qualquer. Sunyol presidia o FCBarcelona, representava a Esquerra Republicana nas Cortes e ocupava um lugar de destaque dentro do catalanismo político.

Pouco depois, as tropas franquistas o executaram junto com seus acompanhantes, sem julgamento nem procedimento legal. Esse é o núcleo indiscutível dos fatos. Sunyol não morreu em combate nem ficou preso em uma troca de tiros: os sublevados o capturaram com vida, o identificaram politicamente e o fuzilaram.

Alguns relatos posteriores descreveram um breve interrogatório, um pelotão de execução e supostas últimas palavras em defesa da Catalunha e da República. No entanto, nem todos esses detalhes contam com a mesma solidez documental. Boa parte dessas cenas vem de informações publicadas meses depois e baseadas em testemunhos cuja condição de testemunhas diretas foi questionada.

O rigor histórico obriga a evitar uma reconstrução fechada de minutos sobre os quais ainda existem dúvidas. O que se pode afirmar é que as tropas franquistas o detiveram, reconheceram sua identidade e o executaram sem nenhuma garantia legal.

A confusão da frente explica como ele chegou até aquela posição. Não explica nem justifica o assassinato.

Não foi uma simples fatalidade de guerra

Apresentar a morte de Sunyol como mais uma desgraça da Guerra Civil esvazia o conteúdo político do crime. Sua entrada em território franquista pode ter ocorrido por erro. Sua execução, por outro lado, não teve nada de acidental.

Sunyol reunia vários dos elementos que os sublevados pretendiam eliminar: representava a República, militava no catalanismo, pertencia à ERC, dirigia um meio de comunicação e presidia uma das instituições populares mais importantes da Catalunha.

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Homenagem a Sunyol em Guadarrama

Não existem provas de uma ordem prévia desenhada especificamente para assassinar o presidente do Barça. Tampouco são necessárias para compreender a natureza política da execução. As tropas franquistas o identificaram como inimigo e o eliminaram sem julgamento.

A repressão, além disso, continuou mesmo depois de sua morte. Em 1939, o regime franquista abriu contra ele um processo de responsabilidades políticas. A ditadura não se conformou em ter acabado com sua vida: também quis punir seu patrimônio, destruir sua legitimidade e apagar sua trajetória.

Um relatório falangista chegou a responsabilizá-lo pelo caráter supostamente “antiespanhol” do Barça. A acusação revela até que ponto o regime associava o catalanismo, a República e a identidade blaugrana a um mesmo inimigo político.

O Barça sobreviveu ao assassinato de seu presidente

A notícia demorou vários dias para chegar a Barcelona. Durante as primeiras horas circularam versões contraditórias e no clube ainda confiavam que Sunyol estivesse detido ou continuasse vivo.

Seu desaparecimento deixou o Barça sem presidente em um dos momentos mais delicados de sua história. Pouco depois, os trabalhadores da entidade constituíram um comitê para proteger seu patrimônio e evitar que outras forças o absorvessem ou interviessem. Essa estrutura permitiu sustentar o clube durante a guerra.

A turnê pelo México e pelos Estados Unidos em 1937 também foi decisiva. A renda obtida permitiu assegurar a sobrevivência econômica da entidade. Muitos jogadores decidiram não retornar, mas o dinheiro depositado no exterior ajudou a evitar o desaparecimento do clube depois do conflito.

Após a vitória franquista, o regime submeteu o Barça a uma profunda depuração. Modificou seus estatutos, vigiou sua identidade catalã e impôs dirigentes alinhados. O assassinato de Sunyol fez parte de um ataque mais amplo contra o mundo político, cultural e associativo que havia crescido em torno do catalanismo republicano.

Uma memória silenciada durante décadas

A ditadura transformou a figura de Josep Sunyol em uma ausência e durante anos seu nome mal teve espaço no relato público do clube. Esse silêncio também não desapareceu de imediato com a morte de Franco, mas continuou durante boa parte da Transição.

A recuperação institucional e social de sua figura avançou lentamente. Só nas últimas décadas do século XX novos estudos, iniciativas de memória e homenagens começaram a devolver-lhe parte do lugar que o franquismo havia tentado arrancar.

No entanto, defini-lo apenas como o “presidente mártir” também pode simplificar sua trajetória. Sunyol foi vítima do fascismo, mas antes havia construído projetos políticos, jornalísticos e esportivos. Impulsionou a imprensa, promoveu a participação cidadã e defendeu uma ideia de Barça inseparável da sociedade catalã de seu tempo.

Seu legado não reside apenas na forma como morreu, mas também na maneira como viveu e entendeu o esporte.

Noventa anos depois, ainda sem túmulo

Os restos de Josep Sunyol e de seus acompanhantes nunca foram identificados. Em 2022, foram realizados trabalhos na serra de Guadarrama para tentar localizar o lugar onde eles poderiam ter sido enterrados, mas a busca terminou sem sucesso. Os pesquisadores consideraram a possibilidade de que as obras realizadas décadas depois na região tivessem destruído ou alterado a vala.

Por isso, noventa anos depois, o crime conserva uma dimensão material em aberto. Existe uma data, uma área e uma responsabilidade histórica clara, mas não um túmulo onde depositar o luto.

A ausência do corpo não é uma anedota. Conecta seu caso ao de milhares de vítimas da repressão franquista que continuam em valas desconhecidas, beiras de estrada ou terrenos transformados. A memória institucional não pode substituir a localização dos restos nem o direito das famílias de conhecer seu destino.

Noventa anos depois, o assassinato de Josep Sunyol segue obrigando a chamar as coisas pelo nome. Ele não “morreu durante a Guerra Civil”: foi detido e executado sem julgamento pelas tropas franquistas. Sua condição de presidente do Barça ampliou o impacto do crime, mas sua condenação real estava escrita em outro lugar: era deputado republicano, catalanista e defensor de liberdades que os sublevados queriam destruir.

O franquismo não apenas acabou com sua vida. Também tentou apagar sua figura, punir seu patrimônio e submeter o clube que ele presidia. A depuração posterior do Barça e o processo de responsabilidades políticas aberto contra Sunyol mesmo depois de morto fazem parte de uma mesma operação de repressão e silêncio.

Por isso, sua memória não pode ficar reduzida a uma efeméride institucional nem a um rótulo confortável como o de “presidente mártir”. Sunyol representa uma ideia de Barça ligada à Catalunha, à democracia e à participação cívica. Uma identidade que o franquismo combateu precisamente porque entendia que aquele clube era muito mais do que futebol.

Lembrá-lo hoje não exige neutralidade diante dos fatos. Exige rigor, memória e uma posição clara diante daqueles que ainda tentam reduzir um assassinato político a uma desgraça de guerra. Josep Sunyol foi assassinado pelo fascismo. E noventa anos depois, seu corpo continua sem aparecer e a reparação segue incompleta.

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Este artigo foi traduzido para o português por inteligência artificial. Você pode ler a versão original em 🇪🇸 neste link.

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