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·21 de janeiro de 2026
Julio Casares renuncia à presidência do São Paulo

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Julio Casares, definitivamente, não é mais presidente do São Paulo. O dirigente decidiu renunciar ao cargo nesta quarta-feira, por meio de carta nas redes sociais, poucos dias após a aprovação do processo de impeachment por parte do Conselho Deliberativo do clube.
“Renuncio à Presidência para preservar minha saúde e proteger minha família. Ao São Paulo Futebol Clube, amor de infância e da minha vida, jamais renunciarei. Renuncio, sim, ao ambiente de conspirações, distorções, mentiras e disputas de poder que ultrapassaram os limites democráticos e tentaram manchar trajetórias, biografias e a própria história do clube. Despeço-me com respeito, gratidão e amor permanente por esta instituição, que sempre honrarei”, escreveu o agora ex-presidente do clube.
Na última sexta-feira, 235 conselheiros compareceram à reunião que aprovou o impeachment de Casares, no salão nobre do Morumbis. Foram 188 votos a favor da destituição e 45 contra, além de dois votos em branco.
A pressão sobre Casares cresceu nas últimas semanas. Diante das polêmicas divulgadas pela imprensa e os escândalos investigados pela Polícia Civil, torcedores e organizadas do Tricolor já vinham exigindo a renúncia do dirigente antes mesmo da votação de impeachment ser marcada.
Com a aprovação da destituição no Conselho, restava a Julio Casares a Assembleia Geral dos Sócios, que poderia confirmar ou reprovar a decisão dos conselheiros. Porém, o presidente afastado decidiu renunciar ao cargo assim como fez Carlos Miguel Aidar, em 2015.
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Com a renúncia de Casares, quem assume de maneira imediata é o vice-presidente da atual gestão, segundo consta no Estatuto Social do clube. Neste caso, o sucessor imediato é o vice Harry Massis Júnior, que está no cargo desde 2021.
Conforme o Estatuto do São Paulo, Massis Jr. ficará no clube até o término do mandato do presidente que renunciou. Ou seja, o novo presidente comandará o Tricolor até o fim de 2026.
Harry Massis Júnior, de 80 anos, é empresário e sócio do São Paulo desde 1964 e já vinha atuando como presidente interino. Conselheiro vitalício do clube, o profissional já exerceu diferentes funções no Tricolor. Entre 2001 e 2002, por exemplo, atuou como diretor adjunto de futebol. Também já foi diretor adjunto adminstrativo entre 1992 e 1993.
“Carta à Comunidade São Paulina. Uma mensagem aos Torcedores, Conselheiros e Sócios.
Ao longo de minha trajetória à frente da Presidência do São Paulo Futebol Clube, atuei com absoluta seriedade, firmeza, responsabilidade e compromisso com a defesa da instituição, sempre orientado pelo respeito à sua história, à sua grandeza e à sua torcida.
Nos últimos meses, o clube passou a viver um ambiente de intensa instabilidade, marcado por ataques reiterados, narrativas distorcidas e pressões externas que extrapolaram o debate institucional legítimo.
O que se iniciou como versões frágeis e boatos foi sendo reiteradamente reproduzido, amplificado e, gradativamente, tratado como verdade, mesmo sem a apresentação de fundamentos consistentes ou provas robustas.
Formou-se, assim, um contexto de grave contaminação do debate, no qual ilações passaram a ocupar o lugar dos fatos e suposições foram apresentadas como certezas, em um processo que, aos poucos, transformou versões construídas em verdades aparentes.
Não afirmo, neste momento, autoria, métodos ou responsabilidades específicas, até porque tais questões devem ser devidamente apuradas pelos órgãos competentes. Contudo, é impossível ignorar que houve articulações de bastidores, distorções deliberadas e uma trama política ardilosa, marcada por interesses, traições institucionais e expedientes incompatíveis com a história e os valores do São Paulo Futebol Clube – fatos que o tempo e a história haverão de registrar.
Esse cenário afetou profundamente a governança do clube e, de forma absolutamente inaceitável, ultrapassou os limites da esfera institucional, alcançando minha família e minha vida pessoal. Não renunciei anteriormente porque entendi ser meu dever exercer, até o fim, o direito à ampla defesa e ao contraditório.
Enfrentei esse processo de maneira direta, presencial e com dignidade, mesmo diante de um ambiente já contaminado por narrativas previamente construídas.
Na prática, a manifestação realizada na tribuna foi o único espaço efetivo que me foi concedido para apresentar minha defesa, em um rito sumário que, ao meu juízo, restringiu a necessária produção de provas e o pleno esclarecimento dos fatos.
A decisão tomada por este Conselho encerra um processo de natureza política.
Respeito essa decisão, ainda que dela discorde, e reafirmo, com absoluta convicção, que jamais pratiquei qualquer irregularidade.
Minha renúncia não representa confissão, reconhecimento de culpa ou validação das acusações que me foram dirigidas.
Diante da continuidade desse ambiente, da necessidade de preservar minha saúde e, sobretudo, de proteger minha família de ataques e ameaças gravíssimas, bem como para evitar que essa disputa política continue a prejudicar o time de futebol e o ambiente esportivo do clube, apresento minha renúncia ao cargo de Presidente, com efeitos a partir desta data, antecipando, inclusive, o exercício do direito estatutário de aguardar a Assembleia Geral.
Faço questão de registrar que deixo um clube esportivamente estruturado, com um time competitivo, que voltou a disputar decisões, chegou a finais e conquistou títulos de grande relevância. Destaco, de forma especial, a conquista da Copa do Brasil de 2023, título inédito e histórico, que simboliza o trabalho sério, responsável e comprometido desenvolvido ao longo da gestão.
Esse desempenho é fruto do esforço conjunto de atletas, comissão técnica e profissionais do clube, aos quais manifesto meu respeito e confiança.
Tenho absoluta convicção de que seguirão honrando essa camisa e lutando por títulos, com o apoio da torcida e da instituição. Meu afastamento também tem como objetivo permitir que eventuais apurações ocorram de forma ampla, técnica e isenta, sem qualquer alegação de interferência, para que a verdade possa ser plenamente buscada e alcançada.
Reitero, por fim, minha certeza de que o São Paulo Futebol Clube é maior do que qualquer cargo, circunstância ou narrativa construída.
Renuncio à Presidência para preservar minha saúde e proteger minha família. Ao São Paulo Futebol Clube, amor de infância e da minha vida, jamais renunciarei. Renuncio, sim, ao ambiente de conspirações, distorções, mentiras e disputas de poder que ultrapassaram os limites democráticos e tentaram manchar trajetórias, biografias e a própria história do clube.
Despeço-me com respeito, gratidão e amor permanente por esta instituição, que sempre honrarei.
Júlio Casares“.
A crise política no São Paulo teve início ainda em 2025 com um “racha” entre Julio Casares e Carlos Belmonte, antigo diretor de futebol, devido a questões de sucessão política. A situação ficou insustentável após a goleada de 6 a 0 para o Fluminense, que culminou nas saídas de Belmonte e dos diretores Nelson Marques Ferreira e Fernando Bracalle Ambrogi.
A pressão sobre Casares começou a crescer a partir do dia 16 de dezembro, com a revelação de um esquema ilegal de venda de ingressos para shows em um camarote no Morumbis. Mara Casares, diretora feminina, cultural e de eventos do São Paulo e ex-esposa do presidente tricolor, e Douglas Schwartzmann, diretor adjunto de futebol de base, foram citados nominalmente e pediram licença de seus respectivos cargos. A Polícia Civil abriu um inquérito para apurar o caso.
Pouco tempo depois, no dia 22 de dezembro, a Polícia Civil também passou a investigar um suposto esquema de desvio de dinheiro na venda de atletas, iniciado em 2021, no começo da gestão Casares. Diante de tal cenário, o grupo de conselheiros “Salve o Tricolor Paulista” protocolou um pedido de impeachment do mandatário, com base nos artigos 63, 79 e 112 do Estatuto Social do clube.
Já na última terça-feira, a investigação da Polícia Civil identificou movimentações suspeitas relacionadas a Julio Casares, apontadas por relatórios do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras).
O presidente do São Paulo teria recebido R$ 1,5 milhão em depósitos em dinheiro em sua conta corrente entre janeiro de 2023 e maio de 2025, período em que já administrava o Tricolor. Por meio de nota oficial, os advogados do mandatário alegaram que não há qualquer tipo de irregularidade.
Já na última quinta-feira, um dia antes da votação de impeachment, o Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP) instaurou um inquérito civil para apurar possível gestão temerária no São Paulo, com indícios de dilapidação patrimonial, desvio de finalidade, favorecimento de terceiros ou familiares de dirigentes e eventual uso irregular de recursos públicos ou benefícios fiscais.
Para coletar informações, o órgão listou uma série de nomes e entidades que podem ser convocados para prestar informações e esclarecimentos. Na lista, além de Julio Casares, presidente do São Paulo, e membros da diretoria do clube, estão Samir Xaud, presidente da CBF, e Reinaldo Carneiro Bastos, presidente da Federação Paulista de Futebol (FPF).
Casares foi eleito presidente do São Paulo pela primeira vez em dezembro de 2020, comandando o clube no triênio 2021-2023. Pertencente à chapa Juntos pelo São Paulo, com Harry Massis Jr. como vice, ele recebeu 155 votos contra 78 da chapa Resgate Tricolor, encabeçada por Roberto Natel.
Já em 2023, o dirigente foi candidato único e se reelegeu presidente do São Paulo para o triênio 2024-2026. Foram 194 votos a favor do mandatário, com 30 em branco e dez nulos.
Durante o período à frente do clube, Casares conquistou três títulos: o Campeonato Paulista (2021), a Copa do Brasil (2023) e a Supercopa do Brasil (2024).







































