Portal do Palestra
·15 de setembro de 2026
Leila condena o modelo associativo, e o balanço dá razão a ela

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·15 de setembro de 2026

Leila Pereira sentou num painel do Confut Sudamericana, no Rio de Janeiro, na semana passada, e declarou falido o modelo de gestão do clube que ela preside. Não o dos outros: o dela também. O Palmeiras é uma associação, e foi uma presidente de associação quem disse que associação não funciona mais.
A fala circulou como alfinetada em clubes endividados, e é uma leitura curta. Na mesma semana em que foi eleita a melhor dirigente do prêmio, ela apontou uma fragilidade que vale também para o Palmeiras: o clube que melhor funciona dentro desse modelo passou os sete primeiros meses de 2026 no vermelho, e não há nada no estatuto que garanta que o próximo presidente mantenha a régua.
É por isso que a cada dia eu tenho a certeza maior que esse modelo associativo está em completa decadência. Porque esses presidentes fazem qualquer coisa pelo voto. Não interessa qual é o interesse da instituição, não interessa qual é o interesse do torcedor, eles querem se manter no cargo.
Leila Pereira, presidente do Palmeiras, em painel do Confut Sudamericana, no Rio de Janeiro
A presidente fez questão de marcar de onde falava. “É demagogia pura e eu estou falando isso como a presidente de um clube associativo”, disse, antes de defender que dirigente que quebra clube seja punido. A tese dela é que o modelo criou donos sem responsabilidade: “hoje os clubes associativos têm dono. O dono é aquele presidente que tá sentado ali, que faz o que quer”.
Ao comparar com a SAF, ela não defendeu o formato como remédio automático, e sim como forma de endereçar o prejuízo a alguém. “Pelo menos na SAF com dono, o dono tem responsabilidade. Ele perde o patrimônio dele”, afirmou. E apontou por que a conversa trava nos clubes grandes: “Palmeiras, São Paulo, Flamengo, esses clubes tradicionais, é muito difícil virar empresa. Porque os conselheiros não querem”.
O documento mais recente publicado pelo clube é o balancete de julho de 2026, ainda sem auditoria. Ele fecha os sete primeiros meses do ano com déficit acumulado de R$ 156,402 milhões. Em julho isolado, o resultado foi negativo em R$ 32,355 milhões.
156,4 mi
Déficit acumulado do Palmeiras de janeiro a julho de 2026, em reais, segundo o balancete publicado pelo clube e ainda não auditado.
Sociedade Esportiva Palmeiras
O buraco não está na despesa. Em julho, o Palmeiras gastou R$ 97,989 milhões contra os R$ 102,122 milhões que o próprio orçamento previa, ou seja, gastou menos do que podia. A receita é que veio R$ 91,250 milhões abaixo da meta do mês, e quase toda a diferença está numa linha só: rendas diversas, onde entram as negociações de atletas, previa R$ 105,350 milhões e entregou R$ 17,129 milhões.
É o mesmo padrão do primeiro semestre, detalhado nas finanças do Palmeiras: um clube com controle de gasto quase cirúrgico e uma receita que depende de vender jogador para fechar a conta. Em 2025, ano de receita recorde, a rubrica de negociações de atletas respondeu sozinha por 40% de tudo o que entrou, sustentada pela linha de montagem das crias da Academia.
Nada disso descreve um clube quebrado. O patrimônio líquido seguia positivo em R$ 412,576 milhões no fim de julho, e o Palmeiras possui bem mais do que deve. O que o déficit mostra é dependência: quando a janela não entrega venda, o modelo inteiro sente, mesmo com a despesa sob controle.
E aqui a crítica dela encontra o próprio Palmeiras. Um clube associativo bem administrado é uma circunstância, não uma estrutura. Depende de quem senta na cadeira, e a cadeira muda a cada eleição. Leila deixa a presidência em dezembro de 2027 e foi explícita sobre o limite da própria garantia: “eu garanto o clube onde eu sou presidente enquanto eu for a presidente. Depois que eu for a presidente, eu não sei”.
É a diferença entre gestão e governança. A reconstrução que tirou o clube do caos produziu quase uma década de títulos, mas nenhum dispositivo estatutário obriga a manutenção do rumo. A mesma assembleia que aprovou a disciplina pode desfazê-la.
Por isso a frase mais dura da noite não foi sobre os clubes destroçados que ela se recusou a nomear. Foi sobre o que acontece depois que um presidente vai embora: “são vários clubes quebrados que presidentes quebraram esses clubes e não responderam por absolutamente nada”. O Palmeiras é, hoje, o contraexemplo. A pergunta que ela deixou no ar é o que garante que continue sendo.







































