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·04 de julho de 2026

Maior artilheiro do Napoli, Dries Mertens abriu as portas para belgas no clube italiano

Imagem do artigo:Maior artilheiro do Napoli, Dries Mertens abriu as portas para belgas no clube italiano

Poucos estrangeiros conseguiram construir uma relação tão profunda com o Napoli quanto Dries Mertens. Ao longo de nove temporadas vestindo a camisa azzurra, o atacante belga deixou de ser apenas mais um reforço vindo do futebol holandês para se transformar no maior artilheiro da história do clube, em um dos rostos da geração mais competitiva do Napoli no século XXI e, acima de tudo, em um personagem adotado pela própria cidade. O apelido “Ciro”, um dos nomes mais tradicionais de Nápoles, não surgiu por acaso: era o reconhecimento de que aquele atleta de baixa estatura, dribles curtos e sorriso fácil já incorporara parte da identidade napolitana. Seu sucesso esportivo e sua integração com a cidade ajudaram ainda a consolidar uma ligação especial entre o Napoli e os conterrâneos do jogador, abrindo caminho para que outros compatriotas encontrassem um ambiente especialmente receptivo anos depois.

Nascido em Leuven, em 6 de maio de 1987, Mertens não seguiu uma trajetória meteórica rumo ao estrelato. Pelo contrário. Seu caminho até os grandes palcos foi marcado por etapas graduais de amadurecimento, em uma carreira construída em evolução constante. Formado nas categorias de base do Anderlecht, passou também pelo Gent sem conseguir se firmar na equipe principal. Foi somente após empréstimos ao Eendracht Aalst – onde foi eleito como melhor jogador da terceirona belga – e, principalmente, ao AGOVV Apeldoorn, da segunda divisão dos Países Baixos, que o baixinho começou a demonstrar o repertório técnico que mais tarde o transformaria em um dos atacantes mais imprevisíveis do futebol europeu.


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A passagem pelo AGOVV representou o primeiro grande ponto de virada de sua carreira. Atuando com liberdade no setor ofensivo, Mertens destacou-se pela capacidade de desequilibrar partidas em espaços curtos, combinando velocidade, criatividade e qualidade na finalização. O desempenho lhe rendeu o prêmio de melhor jogador da Eerste Divisie na temporada 2008-09 e chamou a atenção do Utrecht, que lhe ofereceu a oportunidade de atuar pela primeira vez de maneira consistente na elite do futebol neerlandês.

A mudança para a Eredivisie confirmou que o sucesso na segunda divisão não havia sido circunstancial. Logo em sua primeira temporada pelo Utrecht, Mertens tornou-se um dos principais nomes da equipe, recebendo o Troféu David Di Tommaso, entregue ao melhor jogador do clube, além de terminar apenas atrás de Luis Suárez na eleição para melhor jogador do Campeonato Holandês – ainda que o time alvirrubro tenha sido apenas sétimo colocado. Na temporada seguinte, deu mais um salto de produção, acumulando gols e assistências em um ritmo que o consolidou como um dos atletas mais criativos da liga, com 27 participações em tentos distribuídas em 31 partidas.

Esse crescimento chamou a atenção do PSV Eindhoven, que o contratou em 2011 ao lado de Kevin Strootman. A transferência representava um novo degrau em sua carreira, agora em um dos maiores clubes dos Países Baixos. A adaptação foi imediata. Logo na estreia pelo campeonato marcou seu primeiro gol, iniciando uma trajetória marcada por números expressivos e atuações decisivas.

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Mertens chegou ao Napoli como ponta, embora sempre tenha sido um atacante prolífico (Getty)

No PSV, Mertens deixou de ser apenas um jogador criativo para tornar-se também um atacante extremamente produtivo. Formando um setor ofensivo de grande qualidade ao lado de Jeremain Lens e Georginio Wijnaldum, acumulou gols, assistências e protagonismo, ajudando o clube a conquistar a Copa dos Países Baixos de 2011-12 – inclusive marcando um dos gols da decisão – e também a Supercopa nacional. Ao longo de duas temporadas, somou 45 tentos em 88 partidas, desempenho que definitivamente o colocou no radar das principais ligas europeias.

Foi nesse contexto que surgiu o interesse do Napoli. O clube italiano iniciava uma nova fase sob o comando de Rafa Benítez e precisava reconstruir seu setor ofensivo após a saída de Edinson Cavani. Mertens tornou-se o primeiro reforço da nova gestão técnica, chegando ao San Paolo no verão europeu de 2013 por cerca de 9,5 milhões de euros. Embora não carregasse o status de estrela internacional naquele momento, desembarcava em Nápoles cercado pela expectativa de ser uma das peças da renovação de um elenco que pretendia permanecer entre os protagonistas do futebol italiano.

A estreia com a camisa do Napoli aconteceu logo na primeira rodada da Serie A de 2013-14, diante do Bologna. Inicialmente utilizado como ponta esquerda, Mertens precisou disputar espaço em um setor ofensivo que já contava com jogadores consolidados no clube, especialmente Lorenzo Insigne. Ainda assim, não demorou para demonstrar características que conquistariam os torcedores napolitanos: explosão em arrancadas curtas, facilidade para superar marcadores no um contra um e uma capacidade incomum de aparecer nos momentos decisivos.

Seu primeiro gol pelo clube veio poucos meses depois, em uma vitória sobre a Fiorentina. A partir dali, o belga passou a ganhar cada vez mais minutos sob o comando de Benítez. Mais do que um driblador capaz de acelerar as transições ofensivas, Mertens se apresentou como um atacante de leitura inteligente, que sabia atacar os corredores e se infiltrar na área adversária.

A primeira temporada em Nápoles terminou de maneira bastante positiva. Além dos 11 gols marcados na Serie A, Mertens foi um dos protagonistas da campanha que culminou na conquista da Coppa Italia de 2013-14. Na decisão contra a Fiorentina, marcou o gol que fechou a vitória por 3 a 1, garantindo seu primeiro título pelo clube e encerrando o ano com a sensação de que havia muito mais potencial a ser explorado do que seus números já indicavam.

Poucas semanas depois daquele troféu, veio também a confirmação de que sua evolução em nível de clubes havia sido acompanhada pela seleção belga. Convocado para a Copa do Mundo de 2014, disputada no Brasil, Mertens viveu sua primeira experiência em um grande torneio internacional. Logo na estreia, contra a Argélia, saiu do banco de reservas para marcar o gol que confirmou a vitória belga por 2 a 1, dando início à campanha que levaria a Bélgica até as quartas de final, quando acabaria eliminada pela Argentina. Embora ainda não fosse uma das principais estrelas daquela badalada geração, começava a conquistar espaço em um selecionado que reunia alguns dos melhores jogadores do futebol europeu.

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Com Insigne, Mertens produziu uma dupla de baixinhos letais no Napoli (Getty)

De volta ao Napoli, Mertens confirmou que sua boa temporada de estreia não havia sido um episódio isolado. Em 2014-15, conquistou a Supercopa Italiana, voltou a alcançar dois dígitos em gols, participou intensamente da campanha na Europa League – encerrada apenas pelo Dnipro, nas semifinais – e permaneceu entre os atletas mais utilizados por Benítez. O belga passou a oferecer soluções distintas ao ataque napolitano: podia atuar aberto pelos lados, partir para o drible em velocidade ou infiltrar por dentro para finalizar, tornando-se um jogador extremamente difícil de ser marcado.

Naquela temporada, também começou a construir uma relação de confiança com a torcida. Ainda estava longe do status de ídolo absoluto que alcançaria anos depois, mas sua entrega em campo, aliada ao estilo de jogo ofensivo e à capacidade de decidir partidas importantes, fazia com que seu nome passasse a aparecer com frequência entre os favoritos dos torcedores.

A temporada seguinte representou um novo passo em sua consolidação. Já sob o comando de Maurizio Sarri, Mertens continuou sendo utilizado principalmente pelos lados do ataque, função na qual seguia oferecendo criatividade, intensidade e participação constante na construção das jogadas ofensivas. Em setembro de 2015, iniciou sua campanha na Europa League marcando dois gols diante do Club Brugge e repetiu a dose meses depois contra o Legia Varsóvia, contribuindo para uma campanha perfeita do Napoli na fase de grupos da competição.

No Campeonato Italiano, sua evolução também era perceptível. Em abril de 2016, anotou a primeira tripletta de sua carreira na Serie A em uma goleada sobre o Bologna, justamente o adversário contra o qual havia estreado pelo Napoli quase três anos antes. Era um indício de que seu repertório ofensivo estava cada vez mais completo. Já não era apenas um ponta habilidoso responsável por abrir espaços para os companheiros e marcar seus golzinhos de vez em quando: já havia se tornado um jogador capaz de assumir protagonismo também na conclusão das jogadas.

Enquanto sua importância no Napoli crescia, sua posição na seleção belga também se fortalecia. Convocado para a Eurocopa de 2016, participou da campanha que terminou nas quartas de final, ante a surpreendente equipe de País de Gales. Embora o torneio individualmente não tenha sido dos mais brilhantes, aquele ano marcou um reconhecimento importante de seu prestígio dentro do futebol de seu país: Mertens foi eleito o melhor jogador da seleção belga, superando companheiros de enorme projeção internacional, como Eden Hazard, Kevin De Bruyne, Romelu Lukaku, Thibaut Courtois, Axel Witsel e outros. O prêmio simbolizava o momento de maturidade vivido pelo atacante, que chegaria ao auge poucos meses depois.

Foi justamente nesse contexto que aconteceu a transformação que redefiniria completamente sua carreira. Até então, Mertens havia construído sua trajetória como um ponta veloz e criativo. Poucos imaginavam que, aos 29 anos, ainda descobriria uma nova posição capaz de levá-lo ao melhor futebol de sua vida. A oportunidade surgiu de maneira circunstancial, mas acabaria mudando para sempre sua história no Napoli. Quando Arkadiusz Milik sofreu uma grave lesão, Sarri precisou encontrar uma alternativa para o comando do ataque. Em vez de apostar definitivamente em Manolo Gabbiadini, o treinador enxergou no belga características que poderiam funcionar em uma função completamente diferente daquela que ele havia desempenhado durante praticamente toda a carreira. A aposta parecia ousada. Na prática, revelou um dos movimentos táticos mais marcantes do futebol italiano daquela década.

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A indisponibilidade de Milik fez com que Sarri apostasse no belga como centroavante, o que reescreveu sua história como atleta (Getty)

A adaptação foi praticamente imediata. Atuando como um falso 9, Mertens passou a explorar justamente as características que sempre o diferenciaram. Em vez de atuar fixo entre os zagueiros, recuava para participar da construção das jogadas, abria espaços com movimentações constantes e atacava a área no momento exato para finalizar. Sua mobilidade confundia as marcações adversárias e potencializava o funcionamento coletivo do Napoli de Sarri, cuja proposta ofensiva era baseada em circulação rápida da bola, triangulações e troca permanente de posições.

Os resultados apareceram quase instantaneamente. Ainda nos primeiros meses da nova função, Mertens emplacou uma sequência impressionante de atuações. Guardou uma tripletta sobre o Cagliari, um poker contra o Torino e voltou a balançar as redes três vezes na goleada sobre o Bologna. Nem mesmo a eliminação para o Real Madrid nas oitavas de final da Liga dos Campeões apagou o brilho daquela temporada, já que foi dele o gol que colocou o Napoli momentaneamente em vantagem no San Paolo diante dos futuros campeões europeus.

Ao final da temporada 2016-17, os números refletiam a dimensão da transformação. Foram 34 gols em 46 partidas, sendo 28 apenas na Serie A, desempenho que o colocou na vice-artilharia do campeonato, atrás apenas de Edin Dzeko. Mais importante do que as estatísticas, porém, foi a maneira como passou a ser visto. O jogador que havia chegado para disputar posição pelos lados do campo transformara-se na principal referência ofensiva de um dos ataques mais envolventes da Europa.

Foi também nessa temporada que o famoso trio formado por José Callejón, Lorenzo Insigne e Dries Mertens atingiu seu auge. A fluidez das movimentações fazia com que, muitas vezes, fosse impossível identificar quem atuava como centroavante, ponta ou meia – na prática. Enquanto o espanhol atacava os espaços em profundidade e o italiano partia da esquerda para dentro, o belga circulava por todo o setor ofensivo, aproximando linhas, criando superioridade numérica e aparecendo na área para concluir as jogadas. A sintonia entre os três tornou-se uma das marcas registradas do Napoli de Sarri e ajudou a consolidar aquela equipe como uma das mais admiradas do futebol europeu, mesmo sem conquistar o scudetto.

O excelente momento também lhe rendeu reconhecimento individual. Em 2016-17, foi incluído na seleção da temporada da Serie A eleita pela Associação Italiana de Jogadores – AIC, consolidando-se entre os principais atletas do campeonato. Poucos meses depois, apareceu pela primeira vez entre os 30 indicados à Bola de Ouro, reconhecimento que simbolizava sua ascensão definitiva à elite do futebol mundial.

Em Nápoles, sua trajetória ganhava contornos históricos. A temporada 2017-18 manteve o alto nível apresentado no ano anterior. Mesmo sem repetir a explosão de gols de 2016-17, continuou sendo decisivo e participou diretamente daquela que foi uma das maiores campanhas do Napoli na era dos pontos corridos. A equipe brigou pelo título italiano praticamente até o fim e encerrou o campeonato apenas quatro pontos atrás da Juventus, depois de alimentar durante meses o sonho de recolocar o clube no topo do futebol italiano. Mesmo com 91 pontos somados, os azzurri não faturaram a taça.

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 Pelo Napoli, Mertens foi vice-artilheiro da Serie A e grande nome de um time que foi vice-campeão nacional em 2018 (Getty)

Naturalmente, o rendimento do atacante repercutiu também no selecionado belga. Depois de participar da Copa do Mundo de 2014 e da Eurocopa de 2016, Mertens chegou ao Mundial de 2018 vivendo o melhor momento de sua carreira. Na estreia da Bélgica, marcou um belo gol de voleio na vitória sobre o Panamá, abrindo o caminho para uma campanha inesquecível. Os Diabos Vermelhos alcançaram as semifinais pela primeira vez desde 1986 e terminaram a competição na terceira colocação, a melhor da história do país. Embora o time contasse com nomes como Hazard, De Bruyne, Lukaku, Witsel e Courtois, Mertens permaneceu como uma peça importante na engrenagem daquela geração que eliminou o Brasil e se consolidou como uma das equipes nacionais mais temidas do mundo.

Ao mesmo tempo, a identificação entre Mertens e Nápoles se fortalecia. Já completamente integrado ao cotidiano da cidade, aprendeu italiano fluentemente e passou a incorporar costumes locais com naturalidade. Não demorou para que os próprios torcedores lhe dessem um novo nome: “Ciro”. Muito mais do que um apelido, era uma demonstração de pertencimento. Um jogador nascido em Leuven passava a ser tratado como um napolitano de coração, algo raro mesmo entre grandes ídolos estrangeiros que defenderam o clube.

Essa relação afetiva caminhava lado a lado com sua escalada entre os maiores goleadores da história do Napoli. A cada temporada, Mertens deixava para trás nomes que ocupavam lugar de destaque na memória do clube. Em novembro de 2018, com uma tripletta sobre o Empoli, ultrapassou Careca e José Altafini na lista histórica de artilheiros e, pouco depois, alcançou a marca de 100 gols com a camisa azzurra, tornando-se também o maior goleador partenopeo em competições europeias. Também ultrapassou Luís Oliveira e se tornou o belga mais prolífico da Serie A, com 73 bolas nas redes. Eram feitos que evidenciavam a consistência de um atacante que, diferentemente de muitos centroavantes tradicionais, construía seus números a partir da mobilidade e da capacidade de se adaptar às necessidades coletivas da equipe. Desde que chegara a Nápoles, ele jamais havia sido um atacante de números inflados por uma única temporada. Ao contrário, foi protagonista nas gestões de Benítez, Sarri e, posteriormente, também nas de Carlo Ancelotti e Gennaro Gattuso.

O belga perseguia recordes que pareciam inalcançáveis, aproximando-se de dois dos maiores nomes da história napolitana: Diego Armando Maradona e Marek Hamsík, seu parceiro de elenco por muitos anos. Cada gol deixava de representar apenas mais uma estatística e passava a significar um novo capítulo na construção de uma das trajetórias mais marcantes já vividas por um jogador estrangeiro vestindo a camisa do Napoli. Em abril, ao balançar as redes contra o Frosinone, igualou El Diez em número de tentos anotados pelos azzurri na Serie A. Poucos meses depois, durante uma partida da Liga dos Campeões contra o Red Bull Salzburg, já na campanha de 2019-20, ultrapassou o argentino na artilharia geral do clube, tornando-se o segundo maior goleador da história napolitana. Restava apenas o colega eslovaco à sua frente.

A perseguição ao recorde que Marekiaro estabelecera em 2017 ganhou contornos especiais na temporada seguinte. Em fevereiro de 2020, diante do Barcelona, Mertens igualou a marca histórica de Hamsík. A ultrapassagem, no entanto, precisou esperar alguns meses. A paralisação do futebol em razão da pandemia de covid-19 interrompeu momentaneamente a caminhada do belga, mas, na retomada das competições, ele escreveu aquele que talvez tenha sido o capítulo mais emblemático de sua passagem pelo Napoli.

Em 13 de junho, na volta da semifinal da Coppa Italia contra a Inter, o atacante anotou o gol que lhe permitiu tornar-se, isoladamente, o maior artilheiro da história partenopea. Dias depois, veio mais um título. O Napoli derrotou a Juventus nos pênaltis e conquistou o título, encerrando uma temporada marcada por dificuldades, mudanças de treinador e pela interrupção do calendário por conta da pandemia. Mertens participou de maneira decisiva da campanha e viu aquele troféu funcionar quase como uma recompensa adicional em um momento no qual já havia alcançado o posto de maior goleador da equipe.

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Integrando um tridente mortal com Callejón e Insigne, Mertens ganhou duas vezes a Coppa Italia e uma Supercopa Italiana pelos azzurri (Getty)

Pouco depois da conquista, renovou seu contrato por mais duas temporadas. Em um momento no qual seu nome era frequentemente associado a clubes de outras ligas europeias, optou por permanecer em Nápoles. A decisão reforçou ainda mais a imagem de jogador profundamente identificado com o clube e com a cidade, algo que já extrapolava as quatro linhas. Enquanto seguia ampliando seus recordes pelo Napoli, Mertens voltou a defender a Bélgica em mais uma grande competição internacional. Convocado para a Eurocopa disputada em 2021, em razão do adiamento provocado pela pandemia, alcançou a marca de 100 partidas pela seleção durante o torneio. A campanha, entretanto, terminou nas quartas de final, justamente diante da Itália, que posteriormente conquistaria o título continental.

De volta ao Campeonato Italiano, continuou acrescentando novas marcas à sua coleção de recordes. Em março de 2021, alcançou a marca de 100 gols na Serie A pelo Napoli, igualando novamente Hamsík. Poucas semanas depois, empatou com Antonio Vojak como maior artilheiro do clube na história da competição e, ainda naquele ano, tornou-se o líder isolado desse ranking. Eram feitos que apenas reforçavam aquilo que já parecia incontestável: nenhum outro jogador havia conseguido manter um nível tão elevado de produção ofensiva durante tanto tempo vestindo a camisa azzurra.

Apesar da idolatria construída ao longo de quase uma década, a trajetória de Mertens no Napoli chegou ao fim em 2022. Ao término de seu contrato, clube e jogador seguiram caminhos diferentes em meio a um processo de reformulação do elenco. A despedida foi cercada por forte emoção. Depois de nove temporadas, 397 partidas e 148 gols, o belga deixava o estádio que durante anos o viu ser aplaudido como um dos seus. O belga encerrou sua trajetória não só como o maior artilheiro partenopeo, mas também como o quinto atleta que mais vezes vestiu a camisa azzurra.

Sua saída provocou um sentimento raro entre os torcedores. Embora estrangeiros tenham marcado diferentes épocas da história do Napoli, poucos conseguiram estabelecer uma ligação tão intensa com a cidade. Mertens não era lembrado apenas pelos gols, pelos títulos ou pelos recordes. Era lembrado como “Ciro”, o apelido que sintetizava a forma como havia sido acolhido pelos napolitanos. Não por acaso, em março, deu ao próprio filho – nascido na capital da Campânia – o nome de Ciro Romeo, numa demonstração de que aquela relação construída com Nápoles ultrapassava em muito sua carreira como jogador.

A despedida do clube italiano, entretanto, não significou o encerramento de sua trajetória em alto nível. Livre no mercado, Mertens aceitou o desafio de defender o Galatasaray, levando sua experiência para um dos gigantes do futebol turco. Em Istambul, encontrou um ambiente diferente daquele que havia vivido durante quase uma década na Itália, mas voltou a demonstrar que sua inteligência para interpretar o jogo seguia compensando a perda natural de explosão física provocada pelo avanço da idade. Sem a responsabilidade de ser o principal goleador da equipe, passou a contribuir cada vez mais na criação das jogadas, utilizando sua visão de jogo e sua capacidade de encontrar espaços entre as linhas adversárias.

Sua primeira temporada no Galatasaray terminou com a conquista da Süper Lig, mostrando que ainda era capaz de exercer papel importante em equipes que disputavam títulos. Nos anos seguintes, ampliou essa coleção ao conquistar mais dois campeonatos nacionais consecutivos, além da Supercopa e da Copa da Turquia, encerrando sua passagem pelo clube como um dos jogadores mais experientes de um elenco vencedor – vestindo aurirrubro, aliás, foi companheiro de nomes como Mauro Icardi, Victor Osimhen, Álvaro Morata, Lucas Torreira, Juan Mata e Nicolò Zaniolo.

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Ciro se integrou completamente a Nápoles e conseguiu superar até mesmo o craque Maradona em sua passagem pela Itália (Getty)

Enquanto iniciava esse novo capítulo da carreira, Mertens também participou da última Copa do Mundo de sua trajetória. Convocado para o Mundial de 2022, no Catar, integrou uma Bélgica que já vivia o fim do ciclo da sua ótima geração. Diferentemente das campanhas anteriores, os Diabos Vermelhos não conseguiram repetir o desempenho que os havia levado ao terceiro lugar quatro anos antes e acabaram eliminados ainda na fase de grupos, ficando atrás dos semifinalistas Croácia e Marrocos numa chave complicada, que ainda tinha o Canadá. Mesmo sem o brilho das edições anteriores, a convocação simbolizava a longevidade de um jogador que permaneceu relevante para a seleção durante mais de uma década.

Ao todo, Mertens disputou mais de uma centena de partidas pela Bélgica e esteve presente em três Copas do Mundo e duas Eurocopas. Mais do que os gols marcados, sua trajetória pela seleção acompanhou a transformação do país em uma das principais forças do futebol europeu durante os anos 2010. Embora dividisse os holofotes com nomes mais badalados, consolidou-se como uma peça importante daquele grupo, fosse iniciando partidas, fosse oferecendo alternativas ao longo dos jogos.

Após encerrar sua passagem pelo Galatasaray, em 2025, decidiu colocar um ponto final em uma carreira construída de forma pouco convencional, baseada na evolução contínua e na capacidade de se reinventar a cada etapa da carreira. Da terceira divisão belga ao posto de maior artilheiro da história do Napoli, seu percurso foi marcado por adaptações constantes. Sua transformação de ponta em falso 9 permanece como um dos exemplos mais bem-sucedidos de reinvenção tática do futebol europeu na década de 2010. A mudança promovida por Sarri prolongou sua carreira em alto nível e revelou um atacante letal, com características nada usuais para um goleador. Em vez da referência física tradicional, o Napoli passou a ter um centroavante que desmontava sistemas defensivos pela movimentação incessante, que virou um dos símbolos de uma equipe admirada pela qualidade de seu futebol.

Entretanto, reduzir a passagem de Mertens por Nápoles apenas aos recordes seria insuficiente. Os 148 gols marcados, os títulos conquistados e os feitos estatísticos explicam apenas parte da história. O que realmente o diferenciou foi a relação construída com a cidade. Poucos jogadores estrangeiros foram capazes de estabelecer um vínculo tão profundo com os costumes locais, com a torcida e com a identidade napolitana. O apelido “Ciro” é a expressão mais evidente dessa conexão, representando o momento em que Dries Mertens deixou de ser visto apenas como um atleta do Napoli para ser tratado como um dos seus. Essa simbiose ajudou a abrir as portas para seus compatriotas em Castel Volturno – anos mais tarde, Lukaku e De Bruyne seriam adquiridos pelos azzurri, que também contrataram Leander Dendoncker e Cyril Ngonge.

Por essa combinação de fatores Mertens ocupa um lugar tão singular na história napolitana. Não foi apenas o maior artilheiro do clube durante sua passagem, nem somente um dos protagonistas da geração que recolocou o Napoli entre as principais forças da Itália. Seu legado foi também cultural. Ao conquistar a cidade dentro e fora de campo, mostrou que identidade não depende do lugar onde alguém nasce, mas da maneira como escolhe viver e representar um povo. E poucos estrangeiros conseguiram representar Nápoles com tanta naturalidade quanto o belga que um dia todos passaram a chamar, simplesmente, de Ciro.

Dries Mertens Nascimento: 6 de maio de 1987, em Leuven, Bélgica Posição: atacante Clubes: Eendracht Aalst (2005-06), AGOVV Apeldoorn (2006-09), Utrecht (2009-11), PSV Eindhoven (2011-13), Napoli (2013-22) e Galatasaray (2022-25) Títulos: Copa dos Países Baixos (2012), Supercopa dos Países Baixos (2012), Coppa Italia (2014 e 2020), Supercopa Italiana (2014), Süper Lig (2023, 2024 e 2025), Supercopa da Turquia (2023) e Copa da Turquia (2025) Seleção belga: 111 jogos e 21 gols

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