Jornal do Fla
·23 de abril de 2026
Meus sentimentos, Arthur Muhlenberg partiu

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·23 de abril de 2026


“É sempre bom lembrar a todos que a principal função social do Clube de Regatas do Flamengo é deixar todo mundo que não é Flamengo muito puto!” (Arthur Muhlenberg)
Caros leitores rubro negros, está decretado um luto oficial de muitos anos. Ainda não se sabe quantos. Arthur Muhlenberg, partiu!
A vida é uma sucessão de fatos e acontecimentos inevitáveis, diria meu avô. Cronista e poeta rubro-negro dos melhores, Arthur cunhou frases, pensamentos, jargões, crônicas, críticas, livros e filmes que fazem parte da cultura rubro negra. E não tenho a menor dúvida em dizer que ele diria que o seu melhor projeto são as suas duas filhas, Camila e Emília, que o enchiam de orgulho.
Eu tive o privilégio de ser seu amigo. Trabalhar junto com ele em alguns filmes que saíram para a pista, e até ganharam prêmios como o “Magro de Aço” e “Democracia em Preto e Branco”, e outros que nunca saíram. Quem me apresentou o Arthur foi o Pedro Asbeg, outro irmão da vida e parceiro de obras cinematográficas, viagens e encontros futebolísticos. A partir desse encontro, saíram boas e inesquecíveis parcerias autorais.
Eu já tenho idade suficiente para relatar que participei de vários velórios desde o velório do meu irmão, que morreu muito novo, com 13 anos. Velei meus avôs, amigos, amigas e até desconhecidos. E uma coisa eu aprendi com o tempo: doí! As vezes mais e outras menos, mas sempre doí. A finitude ainda é o grande mistério da vida, ninguém tem uma resposta precisa ou sequer uma explicação convincente para a pergunta que assombra a todos nós: “quando vou morrer?”
Arthur parte muito cedo, após um ano mágico do Flamengo comandado pelo Filipe Luís que levantou o Tetra da Libertadores e o Enea Brasileiro. Ele gostaria de ter ido em Lima, falou sobre isso comigo e com outros amigos e amigas, mas já estava internado no hospital nesse momento e não tinha como sair. Com um quadro grave desde o início de 2025, lutou como um guerreiro rubro negro que era, até não ser mais possível vencer.
Mas o nosso hino diz: Vencer, vencer, vencer, uma vez Flamengo. Flamengo até morrer!
Mesmo perdendo esse último jogo, ele venceu! Arthur é imortal, suas linhas afiadas nos textos deixados em cada crônica e livro, seus roteiros filmados e não filmados, suas amizades, família e amores nos mostram isso. Arthur venceu um sistema que sempre combateu com força, disposição e liberdade de expressão. Não tinha medo de falar o que pensava, nunca teve. Arthur honrou o nosso manto rubro negro, como todos os cidadãos honorários da nação devem fazer.
Foto: Renato Martins Acervo pessoal /
Lembro da história que uma vez contei para ele no Bar da Frente, que fica na praça da Bandeira, antes de um jogo do Flamengo no Maracanã. Eu disse: Arthur, ontem eu vivi uma experiência ímpar com a minha filha. Eu e minha esposa fomos com ela na Cobal, aí ela pediu para ir ao banheiro com a minha esposa. Lá no banheiro se deu conta que estava usando uma calcinha que tinha um escudo do Fluminense que a prima havia doado para ela. Nessa altura a minha filha tinha quatro anos. Quando minha filha voltou, ela correu em minha direção e disse: Papai, eu estou usando essa calcinha do Fluminense, mas eu sou Flamengo.
Foi nesse momento que o Arthur deu uma risada com o canto de boca e depois me disse: “Parabéns, Tonare”! Era assim que ele me chamava. Ela já é Flamengo! Quando a minha filha me disse isso, quem deu esse mesmo sorriso de felicidade fui eu. Os pais e mães rubro negros irão me entender. Eu estava apenas cumprindo o meu dever cívico como membro de uma nação, da mesma forma que o meu pai havia feito comigo. Travei outras batalhas nos anos seguintes contra forças ocultas até consolidar que o manto virasse pele. E consegui!
Eu com o Arthurzão. Foto: Renato Martins / Acervo pessoal
Hoje, a pré-adolescente adora ir aos jogos do Flamengo no Maracanã comigo. As vezes participa até do esquenta, Arthurzão. Canta o hino e as músicas da arquibancada e sabe todo o time titular do Flamengo, e vários reservas. Gosta de me contar que os amigos da escola ficam impressionados com os conhecimentos dela sobre o Flamengo.
Eu poderia escrever muitas histórias incríveis vividas com o Arthurzão Love, e ainda bem que não fui só eu quem viveu, se você ler ou ouvir os relatos que estão nas redes sociais, vai perceber que o amigo era querido por muitas e muitos rubro negros.
Recentemente estive com o Arthur sem saber ao certo se seria pela última vez, ele estava internado e bastante debilitado. Nessa visita que fiz a ele no hospital, levei o livro que ele escreveu com Mauricio Neves de Jesus e Lucas Dantas; “1981, o primeiro ano do resto de nossas vidas” para ele autografar. Ele havia me dado esse livro de presente de aniversário, e com dedicatória, dois anos seguidos. 23 e 24.
Em 26 eu comprei um exemplar e fiz uma foto com o Zico e minha filha, pois era uma campanha para arrecadar fundos para o nosso irmão. Quando eu cheguei, ele estava sozinho no quarto, deitado na cama, com o soro e medicação na veia.
Estava assistindo um programa de esporte na TV. Me viu e abriu um sorriso. Eu havia levado para ele uns bombons, uma água de coco e uma história. O bombom ele não aceitou, disse que não podia. A água de coco ele adorou e eu deixei na geladeira do quarto. E história foi sobre a filha mais velha dele, a Camila.
Eu me sentei na cadeira que fica ao lado da cama e disse para ele que havia encontrado com a Camila há poucos dias atrás na produtora Tv Zero. E que na hora do lanche que acontece todos os dias por volta das 17h30, e que tem o nome de Marrocos, ela estava lá juntos com outros jovens da sua idade, totalmente enturmada e alegre. Contava histórias que viveu com a mãe e com o pai, e ria das histórias que os outros contavam. Levar essa informação para o meu amigo no leito de morte, foi algo que eu como pai, sabia que iria o reconfortar.
Ele olhou bem no fundo dos meus olhos, com seus óculos fundo de garrafa, e disse: Obrigado por me contar isso, Tonare! Fiquei feliz!
E foi assim que me despedi do meu amigo e do nosso eterno cronista, a quem dedico essa crônica e agradeço por ter me incentivado a escrever também. Não tenho um décimo do talento dele com as palavras, nem pretendo ter. Quero apenas escrever algumas crônicas, histórias e causos do universo rubro negro. E nas horas vagas fazer filmes sobre o nosso amor pelo Flamengo.
Nós fundamos juntos até uma torcida de amigos que sempre iam juntos aos jogos ali no início dos anos 2000. Nossa torcida se chama Fla 26, ela foi criada em homenagem aos revolucionários cubanos que bateram de frente com um ditador e com o maior sistema de controle do mundo. A bandeira é rubro negra e virou nosso amuleto no ano de 2006, quando ganhamos uma Copa do Brasil histórica e improvável. Ainda por cima em cima do Vasco. Esse ano vamos comemorar os 20 anos da Fla 26 em sua homenagem, Arthur. E sabemos que você irá estar presente fazendo a festa, rindo e humildemente tocando o terror.
Sempre que morre um familiar ou amigo (a), morre um pouco da gente junto.
VIVA O NOSSO POETA!Humildemente tocando o terror, sempre!O Flamengo é insuportável!SRN
Renato Martins. Pai, cineasta, flamenguista e colunista do Jornal do Fla. Instagram: @renatomartins.cineasta / Twitter: @RenatoM0877 / YouTube.com: @jacquelinefilmes









































