Deus me Dibre
·23 de agosto de 2026
O Cruzeiro trocou a trilha sonora

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·23 de agosto de 2026

Mais de 34 mil pessoas foram ao Mineirão para assistir ao reencontro do Cruzeiro com o Flamengo, quatro dias depois da eliminação na Libertadores. Era quase uma sessão extra de um filme que ninguém tinha pedido para rever. Só que, desta vez, o roteiro mudou. O Cruzeiro levou um susto no primeiro tempo, ofereceu espaço demais, sofreu o gol e parecia caminhar para mais uma frustração. Até que encontrou o ritmo, mudou a postura e transformou o estádio em uma pista de dança. Se os Bee Gees fizeram o mundo inteiro cantar Stayin’ Alive, o Cruzeiro tratou de dar sua própria versão no sábado: caiu, reagiu e continuou vivo até o último segundo.
A equipe começou a partida procurando o ataque, mas pagou caro pela maneira como se lançou à frente. Deu espaços demais ao Flamengo, permitiu que o adversário encontrasse caminhos e acabou sofrendo. O problema dos primeiros 45 minutos não foi falta de ambição. Foi excesso de exposição. O Cruzeiro queria atacar, mas deixou a porta aberta para o Flamengo entrar. E o adversário, que não costuma recusar convite, aproveitou. A música ainda nem tinha chegado ao refrão e a Raposa já estava fora do compasso.
Só que a história mudou depois do intervalo. O Cruzeiro voltou com outra postura, mais agressivo, ocupando o campo do Flamengo e procurando o empate desde os primeiros minutos. A equipe não aceitou o resultado, não se acomodou e passou a jogar como quem tinha uma conta a acertar. A eliminação de quarta-feira ainda estava muito presente, mas, desta vez, serviu como combustível. O time aumentou a intensidade e começou a empurrar o adversário para trás.
E encontrou com Arroyo, em mais um golaço. O atacante recebeu, partiu para cima e, novamente, deixou Samuel Lino pelo caminho. Pelo segundo jogo consecutivo contra o Cruzeiro, o jogador do Flamengo deslizou pela grama do Mineirão, como se o tapete tivesse decidido puxar seu tapete outra vez. O drible desmontou a marcação e a finalização levantou o estádio. Arroyo voltou a mostrar personalidade em um momento importante e ajudou a mudar completamente o ambiente da partida. A noite ainda reservava outra surpresa, mas o camisa 99 já havia colocado sua assinatura na festa.
O lance começou com Wesley, que entrou muito bem e iniciou a jogada. Tabelou com Matheus Pereira, que deu um drible daqueles que parecem um passo de dança, escapando da marcação e abrindo o caminho. Gerson recebeu e cruzou para Villalba, novamente decisivo, escorar para o mesmo Matheus Pereira. O camisa 10 bateu para o gol, contou com o desvio na zaga e viu a bola morrer nas redes. Uma jogada trabalhada, executada em alta velocidade e com uma sequência de movimentos que deixou o Flamengo fora do compasso.
O craque da Raposa não fazia uma grande partida. Longe disso. Mas, como todo bom pé de valsa, esperou o momento certo para mostrar sua melhor coreografia. Tony Manero, personagem de John Travolta em Os Embalos de Sábado à Noite, tinha a pista da 2001 Odyssey para exibir seus movimentos. O cruzeirense teve a área do adversário e escolheu o último lance para fazer a sua. Não precisou comandar a festa inteira. Bastou uma jogada para transformar uma atuação discreta em uma assinatura decisiva. O desvio na defesa ajudou, é verdade. Mas a iniciativa, o chute e a coragem de tentar ficaram com ele. No futebol, às vezes, o artista não precisa dominar a pista durante toda a festa. Precisa apenas aparecer quando a música pede o grande momento.
A vitória vale três pontos, mas entrega algo ainda mais importante: confiança. A eliminação para o Flamengo deixou o Cruzeiro abatido, e o reencontro quatro dias depois poderia aumentar a ferida. Aconteceu o contrário. O time buscou a virada diante do mesmo adversário e recuperou parte da confiança que havia ficado no Maracanã. Se quarta-feira tinha sido uma apresentação para esquecer, sábado virou uma espécie de revanche sem taça, mas com três pontos e uma dose generosa de autoestima.
O resultado recoloca o Cruzeiro na briga pelo G4 e permite até olhar para cima. Falar em título pode parecer precipitado, mas ainda há meio Campeonato Brasileiro pela frente. São muitos jogos, muitos pontos e muita coisa para acontecer. A tabela ainda vai mudar de posição algumas vezes, e quem hoje olha de baixo pode amanhã estar batendo na porta de cima. No futebol, como numa pista de dança, ninguém sabe exatamente qual será o próximo movimento.
E o Cruzeiro não terá tempo para descansar os sapatos. Na terça-feira, novamente no Mineirão, vem o Atlético-MG, pela partida de ida das quartas de final da Copa do Brasil. É outro campeonato, outro cenário e um clássico que pode colocar o Cruzeiro ainda mais perto do hepta. A confiança voltou justamente quando o calendário resolveu apertar o ritmo.
No fim, o sábado teve tudo que se espera de um filme: tensão, mudança de roteiro, protagonista improvável e uma cena final decidida no último segundo. O Cruzeiro começou fora do tom, encontrou a sintonia e terminou a noite fazendo o Mineirão cantar. Para uma torcida que havia deixado o Maracanã quatro dias antes carregando a frustração da eliminação, não poderia haver resposta melhor.
Talvez Tony Manero aprovasse. Não pela dança, mas porque, nesse sábado, o Cruzeiro entendeu que uma boa festa também depende de saber quando acelerar, quando esperar e, principalmente, quando entregar o grande momento.
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