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·22 de julho de 2026

“O FC Porto não está apenas localizado no Porto, é uma expressão do Porto”

Imagem do artigo:“O FC Porto não está apenas localizado no Porto, é uma expressão do Porto”

Depois de receber a Medalha de Mérito da Cidade na Câmara Municipal do Porto, André Villas-Boas reconheceu a importância da distinção para os portuenses e para a cidade, destacando também a responsabilidade que assume enquanto presidente do FC Porto.

Lado a lado com Carla Oliveira, “uma vencedora sem paralelo no desporto adaptado”, o presidente do FC Porto recordou “a simbiose perfeita entre a cidade e o seu clube” vivida nos festejos do 31.º título nacional para sublinhar que “o FC Porto não está apenas localizado no Porto, é uma expressão do Porto” e que o Clube tem “uma responsabilidade social e sociológica”: “O FC Porto tem de estar presente onde a cidade precisa dele – nas escolas, nos bairros, nas instituições sociais, no apoio à deficiência, na promoção da atividade física e no acesso ao desporto. A grandeza de um clube não se mede apenas pelas taças que guarda, mas também pelas vidas que consegue transformar”.


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A distinção recebida“Quero começar por agradecer esta distinção ao presidente da Câmara Municipal do Porto, que decidiu propor o meu nome, e a todos os que participaram nesta decisão, em particular as senhoras e os senhores vereadores da Assembleia Municipal. Recebo a Medalha de Mérito da Cidade do Porto com um orgulho enorme. Recebo-a também com a noção clara de que vale mais do que a minha pessoa e do que o meu percurso. Vale pelo impacto que tem para os portuenses e para a cidade, vale pela forma de estar que o Porto conhece como sua e vale sobretudo pela responsabilidade que coloca sobre mim desde cedo. Sou hoje agraciado enquanto presidente da Direção do FC Porto, um clube de sócios, um clube da cidade e um clube que leva o nome do Porto pelo país e pelo mundo e que tem a obrigação diária de estar à altura dessa missão. Não considero, por isso, que tenha feito mais do que a que era a minha obrigação. Fui eleito para servir o FC Porto, para o defender, para o transformar e para o devolver ao caminho das vitórias. Ser distinguido pelo cumprimento dessa obrigação é uma honra, mas é também um lembrete: ninguém serve esta instituição sozinho e ninguém quer apropriar-se individualmente daquilo que foi alcançado por muitos. É por isso que esta medalha pertence também aos sócios do FC Porto, representados aqui pelo presidente da Mesa da Assembleia Geral, António Tavares. Os sócios são o património imaterial mais importante do nosso clube, são cultura, são a sua história, a sua consciência crítica, a sua legitimidade e a garantia de que o FC Porto deve sempre continuar a pertencer a quem o ama profundamente.”

O reconhecimento de Carla Oliveira“É também uma honra receber esta distinção ao lado da Carla Oliveira, uma vencedora sem paralelo no desporto adaptado do FC Porto e de Portugal. A Carla representa a excelência, a superação e a inclusão. Lembra-nos que o ecletismo não é apenas uma palavra para constar nos estatutos, mas uma forma concreta de abrir portas, criar oportunidades e permitir que o talento e a coragem de todos se expressem sem barreiras.”

Uma época histórica“A época passada ajudou naturalmente a dar significado adicional a esta distinção. O FC Porto conquistou o 31.º título de Campeão Nacional e tornou-se o clube com mais títulos do futebol nacional. Foi Campeão Nacional em todos os escalões, dos sub-15 aos seniores, repetindo o pleno histórico que o nosso clube tinha conseguido alcançar no futebol português. Ganhámos no futebol feminino, nas modalidades, no desporto adaptado. Voltámos a ser Campeões Europeus de hóquei em patins e recuperámos, ao fim de dez anos, o título nacional de basquetebol. Foi o ano do Dragão, mas a glória do FC Porto não pode ser uma visita ocasional. Tem de ser obrigatoriamente um lugar comum, um hábito construído com mérito, exigência e trabalho. Foi assim que este clube se fez grande e é assim que queremos continuar a honrar a cidade do Porto. As festas que vivemos no Dragão, na Ribeira e nos Aliados mostraram algo que nenhuma estatística consegue explicar: a simbiose perfeita entre a cidade e o seu clube. Vimos o rio Douro coberto de azul e branco, vimos as margens cheias, vimos famílias inteiras de crianças, pais e avós, vimos uma cidade reconhecer-se na sua equipa e uma equipa a sentir o peso e a força da sua cidade.”

A ligação entre o FC Porto e a cidade“O FC Porto não está apenas localizado no Porto, é uma expressão do Porto. Partilhamos a mesma génese, a mesma frontalidade, a mesma capacidade de trabalho, a mesma resistência, a mesma dificuldade em aceitar que nos definam a partir de fora, o mesmo orgulho que por vezes é confundido com arrogância por quem não compreende que nesta cidade a ambição foi sempre uma resposta às dificuldades. Somos moldados, enquanto portuenses e portistas, por essa ideia simples. Ninguém nos oferece nada, aquilo que queremos conquistamos. A relação entre o clube e as instituições da cidade tem de refletir essa identidade, mas também maturidade, cordialidade e profissionalismo. O FC Porto tem encontrado na Câmara Municipal e nos diferentes órgãos da cidade e do município interlocutores com quem pode trabalhar, mesmo quando existem perspetivas distintas. Uma cidade e o seu maior clube não têm de pensar sempre da mesma maneira, têm sim de perceber a responsabilidade que partilham e trabalhar em conjunto, em benefício das pessoas.”

Ambição desportiva e equilíbrio financeiro“O mérito que hoje é reconhecido não reside apenas nas vitórias, está na gestão, na organização, na administração, no rigor das decisões e na exigência diária. Está na procura difícil do equilíbrio entre a ambição desportiva e a sustentabilidade económica e financeira do FC Porto. Ganhar sem construir futuro é irresponsabilidade, equilibrar contas sem competir para ganhar é desistência. O caminho do FC Porto tem de estar entre estas duas realidades: rigor suficiente para garantir o amanhã e ambição suficiente para honrar o presente. Esse tem sido um dos maiores desafios deste mandato: não procurar atalhos, não trocar o futuro por uma vitória imediata, mas também não utilizar as dificuldades como uma desculpa para abdicar de vencer. Foi esse o equilíbrio que procurámos, foi esse o equilíbrio que nos devolveu o título e é esse o equilíbrio que continuará a orientar o nosso trabalho.”

A responsabilidade social do clube“O papel do FC Porto na cidade, porém, vai muito além dos resultados das suas equipas. Um grande clube tem uma responsabilidade social e sociológica. Contribui para a saúde e para o bem-estar, incentiva a prática desportiva, aproxima jovens do desporto, cria referências, combate a exclusão, gera oportunidades, desenvolve o desporto feminino e adaptado, forma atletas e deve formar também cidadãos. O FC Porto tem de estar presente onde a cidade precisa dele: nas escolas, nos bairros, nas instituições sociais, no apoio à deficiência, na promoção da atividade física e no acesso ao desporto. A grandeza de um clube não se mede apenas pelas taças que guarda, mas também pelas vidas que consegue transformar. É por isso que a situação vivida pelo Boavista FC nos deve entristecer e inquietar a todos. A perda de atividade de uma instituição centenária da cidade não é uma vitória de ninguém, é uma ferida no património desportivo e social da cidade do Porto. É também um alerta para os interesses opacos e para os malfeitores que continuam a assolar o futebol, tratando instituições centenárias como ativos descartáveis e esquecendo que os clubes pertencem à história, às comunidades e às pessoas. Não podemos ficar indiferentes. Defender os clubes é defender as cidades, o acesso ao desporto e a riqueza social que eles transportam.”

Uma vida ligada ao FC Porto“Permitam-me agora uma nota mais pessoal. Antes de ser presidente, fui treinador e antes disso fui sócio do FC Porto. Nasci portuense e portista, foi aqui que cresci com os meus pais, com a minha família e com as referências que formaram o meu carácter. Foi aqui que aprendi a olhar o mundo com paixão, frontalidade e com a exigência que esta cidade exige dos seus filhos. Sir Bobby Robson abriu-me a primeira porta do FC Porto e, com ela, abriu uma história de amor que já existia enquanto adepto, mas que passou a ser uma vocação e uma profissão. Fui treinador nos escalões de formação durante sete anos, fui observador e treinador adjunto de José Mourinho nos anos gloriosos de 2003 e 2004, vivi por dentro uma equipa que conquistou a Europa e devolveu ao Porto a certeza de que não existem impossíveis quando há talento, trabalho e coragem. Regressei como treinador principal, em 2010/11, vivendo um ano mágico, com um póquer de títulos e uma equipa que ficou para sempre na memória dos portistas. Parti, percorri o mundo, conheci diferentes clubes, culturas e formas de entender o futebol, mas nunca deixei verdadeiramente esta cidade. O Porto acompanhou-me sempre. Não há saudade sem regresso, como diz Pedro Abrunhosa na sua música “Lua”. E por isso, anos mais tarde, regressei para servir o FC Porto como presidente. O nome secreto atribuído ao projeto da candidatura era ikigai, uma palavra que representa a razão de ser, o encontro entre aquilo que amamos, aquilo que sabemos fazer, aquilo de que o mundo precisa e aquilo a que podemos dedicar a nossa vida. Fui invadido por um sentido de destino muito forte e um chamamento muito profundo. Para mim, o FC Porto era e continua a ser esse ikigai, não como realização pessoal, mas como responsabilidade por um bem maior. Um clube que não pertence a uma pessoa, a uma direção ou a uma geração, pertence aos seus sócios, à sua história e ao futuro que temos a obrigação de proteger.”

Uma medalha de significado particular“Ao longo da minha vida profissional, tive a felicidade de conquistar títulos em Portugal e no estrangeiro e de representar o nosso país em diferentes partes do mundo. Apenas três treinadores portugueses conquistaram títulos europeus em clubes portugueses e todos eles no FC Porto: José Mourinho, Artur Jorge e André Villas-Boas. Dos três, apenas um não foi distinguido pelo Estado Português. Não o digo como queixa ou cobrança, digo apenas para explicar por que razão esta medalha tem para mim um valor tão íntimo e tão profundo. É a cidade onde nasci, cresci e me formei, que reconhece a importância da obra de um clube na dinâmica da cidade, reconhece uma pessoa e o seu trabalho. E há reconhecimentos que, pelo valor de onde venho, valem de uma forma diferente. Receber esta medalha de mérito é sentir que a cidade me reconhece como um dos seus e não existe honra maior do que ser reconhecido pela sua própria casa. Partilho esta distinção com portistas e instituições também agraciadas, que engrandecem ainda mais este momento; com a APPACDM do Porto, uma instituição que significa muito para mim, que a associação Race for Good abraça e cuja missão nos ensina diariamente o verdadeiro significado da inclusão, dignidade e coragem; com a Carla Oliveira, exemplo de talento, superação e excelência; com o António Tavares, representante dos sócios e de uma vida ao serviço da cidade; com o Rui Moreira, que serviu a esta cidade com independência, energia e um sentido muito próprio do Porto; com o José Manuel Matos Fernandes, cuja ligação ao Clube e à cidade merece ser preservada na nossa memória; com a Direção e Administração do FC Porto, pessoas singulares nas suas competências e amor ao Clube, sem as quais esta distinção jamais aconteceria e sem as quais o FC Porto não estaria hoje projetado no tempo com tanto valor, critério, organização e sabedoria; e com o meu querido amigo e eterno capitão Jorge Costa. Há ausências que ocupam todo o espaço e a de Jorge é uma delas. Receber uma medalha numa cerimónia em que o seu nome é também homenageado traz-nos orgulho, mas traz-nos igualmente uma dor profunda. O Jorge foi coragem, liderança, frontalidade e lealdade. Foi Porto em estado puro. Por fim, partilho com a minha família, que abraça com amor e ternura, sempre e em qualquer momento, na alegria, na dor e na tristeza, o animal feroz e competitivo que sou e a raridade do meu caráter e personalidade. São o verdadeiro porto de abrigo e, no meu pai e na minha mãe, vejo um exemplo de trabalho e de dedicação, de profissionalismo, altruísmo e amor pelos outros.

Orgulho em ser portuense e portista“Recebo esta medalha com profunda gratidão, orgulho e plena consciência da responsabilidade que ela representa. O Porto não é apenas o lugar onde nasci, é a cidade que me formou, o clube que me realizou, a comunidade à qual quero continuar a devolver tudo o que me deu. Continuarei a servir o FC Porto e, através dele, a cidade, a região e as pessoas, com a mesma exigência, a mesma frontalidade e a mesma ânsia de vencer. Porque o Porto não pede licença para existir. O Porto trabalha, o Porto resiste, o Porto conquista e eu sou, com enorme orgulho, filho desta cidade.”

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