RTI Esporte
·26 de setembro de 2026
O futebol brasileiro não nasceu das bets

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·26 de setembro de 2026

O futebol brasileiro não nasceu das bets. Mas, em poucos anos, dirigentes conseguiram agir como se não pudesse mais viver sem elas.
A dependência foi construída com uma velocidade impressionante. As casas de apostas chegaram oferecendo dinheiro, ocuparam camisas, placas, programas esportivos, transmissões e até o vocabulário cotidiano do torcedor. Os clubes aceitaram. As federações aceitaram. O mercado publicitário aceitou. E quase ninguém pareceu interessado em perguntar o que aconteceria quando essa fonte de dinheiro deixasse de existir.
Flamengo, Vasco, Fluminense e Botafogo já haviam construído suas histórias muito antes de qualquer bet descobrir que o futebol brasileiro poderia ser uma gigantesca vitrine. Foram campeões, revelaram jogadores, lotaram estádios e atravessaram gerações sem precisar transformar a paixão do torcedor em oportunidade de aposta.
O problema não foi apenas aceitar o dinheiro das bets. Foi criar dependência em torno dele.
Dirigentes passaram a incorporar receitas de patrocínio como se fossem permanentes. Contratos foram tratados como solução estrutural para problemas que, na verdade, eram administrativos. Folhas salariais cresceram, projetos foram montados e compromissos assumidos com base em um mercado que parecia inesgotável.
Não era.
O futebol brasileiro tem uma dificuldade antiga para separar receita extraordinária de receita recorrente. Quando surge uma indústria disposta a despejar dinheiro no esporte, a reação costuma ser aumentar despesas antes de consolidar a estrutura.
Foi assim, em diferentes momentos, com televisão, premiações e outros grandes contratos comerciais. Com as bets, a velocidade foi ainda maior.
O resultado é que clubes passaram a olhar para a casa de apostas não apenas como patrocinadora, mas como parte do modelo financeiro.
A partir de outubro, com as mudanças nas regras das apostas, o mercado terá de se reorganizar. A medida provisória anunciada pelo governo federal prevê a retirada das plataformas do mercado e determina mudanças imediatas na publicidade do setor.
Independentemente da disputa política em torno da medida, existe uma questão esportiva que não depende de governo algum: por que tantos clubes chegaram a uma situação em que a saída de um patrocinador ameaça o planejamento?
A resposta passa pela falta de previsibilidade, mas também pela cultura administrativa.
É muito conveniente culpar o mercado quando o dinheiro acaba. Mais difícil é reconhecer que dirigentes aceitaram construir orçamentos dependentes de uma indústria cuja presença era, por natureza, sujeita a mudanças regulatórias.
O torcedor não criou essa dependência. Não foi ele quem assinou contratos. Não foi ele quem projetou folhas salariais contando com dinheiro de apostas.
Agora, o futebol terá de descobrir se sabe sobreviver sem a muleta que ajudou a construir.
Porque o jogo continuará.
As torcidas continuarão.
Os clubes continuarão.
E as bets, como tantos outros patrocinadores que passaram pelo futebol brasileiro, jamais foram donas dele.
(*) Wilson Pimentel é jornalista, radialista, empresário e sócio-fundador da Agência RTI Esporte.







































