Jornal do Fla
·25 de abril de 2026
O julgamento de Muhlenberg

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·25 de abril de 2026

Que caminhos levam um torcedor comum, sem diploma ou experiência no jornalismo, a se tornar a voz destacada de um clube, o representante popular de uma nação, o tradutor de nossos sentimentos mais indizíveis?
A resposta, diria você, estaria em atributos como amor, obsessão, talento. Certo? Errado! Com pesar, cá estabelecemos a verdade dos fatos: o sucesso de Arthur Muhlenberg, cronista e criador do Urublog, nasceu do mais puro ódio.
Para que isso fique claro e comprovado, convidamos o leitor a voltar um pouco no tempo.
Arthur nasceu sob o signo de chumbo, em março de 1964, quando a ditadura brasileira ainda engatinhava, esperneava e era fofinha. Foi, portanto, um carioca típico daqueles tempos.
Leia também: Meus sentimentos, Arthur Muhlenberg partiu
Queria ser marginal, cruzar a cidade de skate, ver jogo em pé no Maracanã, ler o que de melhor – ou pior – os jornaleiros tivessem a oferecer.
Ali pelo fim dos anos 1970, de tanto consumir arte, decidiu subir aos palcos. Virou ator, fez teatro com T grande com as Fernandas Montenegro e Torres, contracenou com Tarcísio Meira, Eva Todor, Débora Bloch. E ganhou seu primeiro papel importante na TV, na novela das oito. Horário nobre, parou para pensar?
Em dezembro de 1981, portanto, Arthur vivia o garotão Guto na telenovela “Brilhante” – uma trama em que José Wilker era assassinado em Londres durante o casamento da Princesa Diana, uma turma corria atrás de esmeraldas no Pantanal e Fernanda Montenegro, má ao estilo Odete Roitman, chamava-se Chica e azucrinava o filho que curtia homens, vivido por Dennis Carvalho. E o Wilker ressurgia vivo no Rio!
Para piorar, uma joia reluzente e de raro valor desaparecia. Na pia de um banheiro, avalie. O diretor Gilberto Braga, insatisfeito com a audiência, segurou o mistério. Quem roubou a joia? Quem, meu Deus?
Nessa época, o rapazola Arthur reapareceu no Maracanã, vestido com sua camisa vermelha, e foi empunhar um bandeirão da Raça Rubro-Negra, como adorava fazer. Até que viu Claudio Cruz, líder da uniformizada, e se lascou.
Cruz, um sacana de carteirinha, começou. Olha lá hein! A Raça tem uma imagem a zelar, rapaz! Se surgir um ladrão flamengo na novela, a fama da torcida vai pro ralo! Olha lá!

Eu e Santa Cruz nos consolando. Foto: Arquivo pessoal / Marcelo Dunlop
Muhlenberg riu. Seu papel era desafiador, mas uma reles ponta diante de tantos medalhões globais. Chance zero.
A novela, misto de “Pantanal” com “Vale Tudo”, chegava a sua semana derradeira, e Claudio Cruz só aumentava a pilha. Nos últimos capítulos, o mistério era enfim revelado. Um chofer, vivido pelo manso Cláudio Marzo, seguiu a pista e sacou tudo.
O roubo do anel de brilhantes não fora motivado por dinheiro, inveja ou cleptomania. Foi tudo por ódio. Ódio! Tudo com a intenção de incriminar outro personagem canalha. O culpado do sumiço? Guto Amaral, vivido com brilho por Muhlenberg.
A estreia como pequeno meliante na rocambolesca novela de Gilberto Braga mostraria, no fim das contas, duas verdades ao futuro cronista. Primeiro, ele jamais seria um Zé Wilker. Segundo, não seria tão difícil ganhar a vida escrevendo no Brasil, a medir por aquele roteiro.
Nascia, assim, um baita redator publicitário, frasista inspirado, e enfim o comentarista de futebol revolucionário, inspirado notadamente no livro “Terceiro tempo”, escrito pelo poeta e peladeiro paulista Décio Pignatari.
Seu primeiro manual de instruções, sobre como ser um torcedor do Flamengo e não surtar com o time, nasceu em 2009: o “Manual do Rubro-Negrismo Racional”, que sumiu feito joia rara nas livrarias. Estava mais do que na hora de uma novíssima reedição, atualizada, adaptada e recheada de crônicas inéditas.
O mais incrível do novo livro, contudo, é onde ele seria elaborado. Um hospital, com sua luminosidade, baixas temperaturas e aquelas pessoas de branco a ir e vir, sem falar na maquininha que faz piiii, sempre parece uma antessala para outra dimensão.
No caso de Arthur, foi mesmo.
Com um carregador, um celular e um computador, ele mobilizou editores, revisores, capistas e produziu, entre um saco de soro e outro, uma antologia hilária em menos de 50 dias. Fez arte sem sair do CTI, enquanto debelava problemas num dos pulmões.
Quando não estava com os olhos fixos no monitor, espiava a janela do hospital e via o morro de Mangueira, o estádio do Maracanã a chacoalhar, e seus amigos torcedores a cantar.
Nas paredes do quarto 421, bandeiras e cartazes com brados e gritos de guerra. Tremenda inspiração, diz aí.
“Mural” na parede do quarto onde Arthur ficou internado: homenagens dos fãs. Foto: Arquivo pessoal / Marcelo Dunlop
Será que valeu tanta luta e esforço, para lançar mais um livro sobre o Flamengo, seu sexto ou sétimo? O leitor que julgue, com o livro nas mãos.
Quem teve a sorte de vê-lo criando, escrevendo e lapidando suas últimas crônicas, só pode agradecer e pensar uma coisa:
Chupa, Zé Wilker.
***
Nota: Este texto foi escrito originalmente para ser apreciado como prefácio do novo livro de Arthur Muhlenberg.
Marcelo Dunlop é escritor e jornalista, autor de obras como “Crônicas Flamengas” e “O Homem que Morava no Maracanã”, entre outros títulos.
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