O que acontece no Inter vai além da parte técnica e tática dos jogadores e do Pezzolano
O presidente Alessandro Barcellos vai conseguir rebaixar o Internacional? Hoje, infelizmente para o torcedor colorado, essa pergunta já não parece nenhum exagero. É praticamente a única coisa que falta acontecer nesta gestão para completar um cenário absolutamente melancólico. O Inter já rompeu faz tempo com o topo do futebol brasileiro, já deixou de disputar títulos com regularidade, acumulou fracassos esportivos e agora está colocando em risco até a permanência na Série A. Depois da derrota por 3 a 2 para o Santos no Beira-Rio, restam apenas 12 jogos e o Colorado precisa de mais de uma rodada para conseguir sair do Z4. Mesmo se tivesse vencido neste domingo, ainda terminaria a rodada na zona de rebaixamento. O buraco é desse tamanho.
E não adianta olhar para o segundo tempo e sair dizendo: “Ah, se jogar assim não cai”. Não sejamos tolos. O Inter fez praticamente a mesma coisa contra o Grêmio. Estava tomando 3 a 0 e aí resolveu jogar. Contra o Santos, de novo: 3 a 0 no placar e aí aparecem intensidade, correria, pressão, indignação. Quando a partida já está quase perdida, o time começa a mostrar aquilo que deveria ter mostrado desde o primeiro minuto. Contra o Grêmio conseguiu fazer um gol. Contra o Santos buscou dois e transformou o placar em 3 a 2. Bonito para quem olha só os últimos minutos, mas insuficiente para esconder a realidade. Hoje o Inter está tomando roda de praticamente todo mundo. Em casa ou fora, qualquer adversário chega e consegue colocar o Colorado em enormes dificuldades. Eu me arriscaria a dizer que, neste momento, o Inter joga um dos piores futebóis da Série A.
Paulo Pezzolano, pelo menos, tentou simplificar a escalação desta vez. Depois de tantas mudanças, linhas de cinco, linhas de quatro, jogadores improvisados e desenhos diferentes a cada partida, o treinador montou algo muito mais próximo de um 4-2-3-1 básico. Dois laterais, dois zagueiros, Ronaldo e Thiago Maia como volantes, Vitinho de um lado, Carbonero do outro, Alan Patrick centralizado e Sanabria na frente. Villagra começou no banco. Nada mirabolante, nada muito diferente. O problema é que aí aparece outra parte dessa história: os jogadores do Inter também não estão entregando.
Se o time é limitado, pelo menos joga com a faca entre os dentes. Só que o Inter entrou a passos de formiga. Lento, modorrento, sem intensidade e cometendo erros inacreditáveis. O primeiro gol do Santos nasce com Félix Torres tentando sair jogando e entregando a bola para Gabigol, que fica na frente do goleiro e faz 1 a 0. Depois Matheus Bahia perde uma bola, volta para tentar consertar, faz pênalti em Gabigol e ainda acaba expulso. Para completar, num cruzamento em que o Inter tinha uma quantidade enorme de jogadores dentro da própria área contra poucos santistas, a bola encontra justamente um adversário. 3 a 0. Num tapa. O torcedor piscou e o Santos já tinha construído uma vantagem enorme no Beira-Rio.
A reação das arquibancadas mostrou o tamanho da desilusão. Mais de 20 mil colorados foram ao estádio tentando empurrar o time e, antes mesmo do intervalo, muita gente já estava indo embora. Faixas começaram a ser recolhidas, a banda da Popular parou e vieram as manifestações. E é difícil cobrar outra reação de quem paga ingresso, comparece e assiste ao time entrar numa partida decisiva para a sobrevivência no campeonato com aquela passividade.
Alguma coisa aconteceu no intervalo porque o Inter voltou completamente diferente. Mesmo com um jogador a menos, passou a competir, acelerou as jogadas e começou a pressionar. Aguirre entrou pela esquerda e fez um golaço de fora da área para diminuir. A partir dali veio uma pressão forte e novamente surge a pergunta: por que não jogou assim desde o começo? É verdade que existe também o outro lado. Com 3 a 0, o Santos naturalmente recua, relaxa um pouco e oferece campo. O Inter, completamente desesperado, passa a acelerar porque não tem mais nada a perder. Mas ainda assim chama atenção essa mudança tão grande de postura.
A pressão perdeu força no decorrer do segundo tempo por dois motivos. O primeiro foi físico. Era natural que um time com dez jogadores, correndo atrás do placar, cansasse. O segundo veio do próprio Santos. Quando percebeu que o Inter crescia, o Santos colocou Arthur em campo justamente para fazer aquilo que ele sabe: segurar a bola, controlar a posse e tirar velocidade do jogo. Toque para um lado, toque para o outro e a pressão colorada foi diminuindo. Já no final, Vitinho conseguiu cavar um pênalti numa jogada que começou até em cobrança de lateral. Bruno Henrique bateu e fez 3 a 2, dando algum drama aos minutos finais.
Só que é uma grande ilusão utilizar essa reação para dizer que as coisas estão melhorando. O Inter continua jogando muito mal e suas individualidades também estão entregando pouco. Félix Torres chegou depois de não conseguir se firmar no Corinthians e não está dando resposta. Mateus Cunha também não consegue passar segurança. Niclass Eliasson chegou para acrescentar no ataque e até agora pouco mudou. Sanabria é outro reforço caro que ainda entrega muito pouco como centroavante. Carbonero consegue produzir em alguns momentos, Alan Patrick tenta organizar, mas muitas vezes olha para frente e simplesmente não encontra para quem jogar.
E essa talvez seja a maior preocupação. O Inter tem problema de direção, problema financeiro, problema de montagem de elenco, problema de treinador e problema de jogador. É coisa demais para um clube que agora tem apenas 12 partidas para salvar o ano. A reação contra o Santos veio tarde. A reação contra o Grêmio também veio tarde. Não adianta começar a jogar quando está 3 a 0. Na luta contra o rebaixamento, os pontos vão embora do mesmo jeito.
Agora também existe uma dúvida inevitável sobre Paulo Pezzolano. No momento, ele segue como treinador do Internacional. Mas até quando? Ele já mudou demais, tentou simplificar e mesmo assim viu o time levar 3 a 0 dentro do Beira-Rio. Tem responsabilidade? Claro que tem. Os jogadores também. A direção mais ainda, porque foi ela que montou tudo isso.
O cenário hoje é muito claro. O Inter está no Z4, precisa de pelo menos duas rodadas para começar a imaginar uma saída e faltam somente 12 jogos. Já não existe mais Copa do Brasil para dividir atenção. Não existe mais sonho de título nacional para maquiar a situação. A missão é uma só: não cair.
E talvez seja justamente isso que mais assuste. Depois de tudo que já aconteceu durante a gestão Alessandro Barcellos, a única grande vergonha que ainda faltava era um novo rebaixamento. Hoje, ninguém pode mais tratar essa possibilidade como exagero. Ela está cada vez mais real, cada vez mais desenhada e cada vez mais próxima.