Jornal do Fla
·06 de julho de 2026
O que o hexafracasso da Seleção traz de lições ao Flamengo

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·06 de julho de 2026

Por Paulo Lima

Ver Filipe Luís sendo apresentado oficialmente pelo Monaco poucos dias depois do novo fracasso da Seleção Brasileira me provocou um sentimento curioso: orgulho e saudade ao mesmo tempo. Orgulho por ver um treinador brasileiro, formado no Flamengo, chegar tão cedo a uma das principais ligas do mundo. Saudade porque sua saída encerra um trabalho que, embora longe da perfeição, talvez nunca tenha recebido entre nós o reconhecimento proporcional ao que realizou em tão pouco tempo de carreira.
É verdade que o time já não atravessava seu melhor momento. O desempenho havia caído, algumas escolhas eram discutíveis e a pressão fazia parte do cargo. Mas continuo me perguntando até que ponto a mesma “nutelice” de parte da torcida que pedia a volta de Neymar como solução para todos os problemas da Seleção foi também a que pediu a cabeça de Filipe Luís. Criticar é parte do futebol. Transformar um treinador em vilão poucos meses depois de ele revolucionar o time é outra história.
Quem acompanha grupos de torcedores sabe do que estou falando. Não faz muito tempo que um dos treinadores mais promissores do futebol brasileiro era chamado de “Lixorel” nas redes sociais. Hoje, depois de conquistar títulos, valorizar a base, implantar conceitos modernos de jogo e ser contratado por um clube da Ligue 1, as mesmas pessoas compartilham mensagens de orgulho por vê-lo na Europa. O futebol vive de resultados. As redes sociais, infelizmente, vivem de exageros.
O novo fracasso da Seleção na Copa expôs exatamente esse problema. Durante meses criou-se uma narrativa de que bastaria convocar Neymar para que tudo voltasse ao normal. Como se o futebol mundial tivesse parado no tempo. Como se organização, intensidade, preparação física, ocupação de espaços e trabalho coletivo fossem detalhes menores diante do talento individual. A realidade, como sempre, foi mais dura.
Existe uma palavra antiga que ajuda a explicar parte desse comportamento: pachequismo. O termo nasceu para definir aquele patriotismo futebolístico exagerado, quase ufanista, baseado na crença de que a camisa brasileira seria suficiente para vencer qualquer adversário. Era uma confiança quase cega na superioridade natural do nosso futebol. Durante décadas convivemos com essa ilusão.
O curioso é que hoje parece vivermos o extremo oposto. Se antes acreditávamos que éramos automaticamente melhores do que todos, agora parte da torcida parece convencida de que somos sempre piores do que realmente somos. Saímos do ufanismo para uma espécie de pessimismo compulsivo. Não existe equilíbrio.
No Flamengo isso acontece diariamente.
Toda vitória vem acompanhada de um “mas”. Se o time conquista um título, logo aparece alguém dizendo que o Palmeiras joga melhor, que a estrutura europeia é inalcançável ou que a conquista esconde problemas insolúveis. A velha história da grama do vizinho, curiosamente quase sempre pintada de verde.
Quando perdemos, então, instala-se imediatamente a lógica da terra arrasada. O treinador deixa de prestar. O elenco envelhece da noite para o dia. Jogadores que eram ídolos passam a ser tratados como descartáveis. O planejamento inteiro parece fracassado porque uma bola entrou ou bateu na trave.
O caso de Filipe Luís talvez seja o exemplo mais emblemático dessa distorção. Em seu primeiro trabalho como treinador profissional, conseguiu fazer em poucos meses algo raro no futebol brasileiro: construir uma equipe reconhecível, propor um modelo de jogo baseado em intensidade, posse de bola qualificada, pressão alta, aproximação entre setores e coragem para lançar jovens. Errou, naturalmente. Oscilou. Como qualquer treinador em início de carreira. Mas entregou muito mais do que normalmente se espera de alguém com tão pouca experiência.
Não deixa de ser simbólico que justamente a Europa, tantas vezes usada como parâmetro pelos próprios torcedores brasileiros, tenha reconhecido esse potencial antes de muitos de nós.
Talvez esteja aí uma das maiores lições que o fracasso da Seleção pode deixar ao Flamengo. Se queremos continuar predominando no Brasil, dominar a América e competir cada vez mais de igual para igual em torneios mundiais, precisamos olhar para o que o melhor futebol europeu faz de melhor — mas sem copiar caricaturas.
O sucesso europeu não nasce apenas de investimentos bilionários. Nasce de objetividade. De intensidade física durante noventa minutos. De resiliência para enfrentar momentos difíceis. De organização coletiva. De jogadores comprometidos com o sistema. E, sobretudo, de uma cultura em que joga quem estiver melhor.
Sem nome.
Sem marketing.
Sem nostalgia.
Sem privilégios.
É justamente isso que tantas vezes pedimos para a Seleção e que também deveríamos exigir do Flamengo. Não importa quem foi campeão do mundo dez anos atrás ou quem possui mais seguidores nas redes sociais. O futebol de alto rendimento não premia currículo; premia desempenho.
O Flamengo possui hoje estrutura, orçamento, torcida, centro de treinamento e capacidade técnica para permanecer entre os grandes protagonistas do continente e diminuir, pouco a pouco, a distância para os gigantes europeus. Mas isso exige maturidade institucional e também maturidade da arquibancada.
Exigência nunca foi problema para o flamenguista. Ela faz parte da nossa identidade e explica boa parte da grandeza do clube. O problema começa quando a exigência se transforma em ansiedade permanente e quando qualquer revés passa a ser tratado como prova definitiva de incompetência. Da mesma forma que o pachequismo nos impediu durante anos de enxergar a evolução do futebol mundial, a “nutelagem” das redes sociais nos impede, muitas vezes, de reconhecer processos que ainda estão sendo construídos.
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Talvez seja justamente este o maior ensinamento do hexafracasso da Seleção: nem somos os melhores do mundo apenas porque vestimos uma camisa pesada, nem somos um desastre a cada derrota.
Entre o pachequismo cego e o catastrofismo digital existe um caminho muito mais inteligente. Um caminho feito de trabalho, paciência, mérito e evolução constante.
Curiosamente, era exatamente esse caminho que Filipe Luís parecia estar percorrendo.
Hoje, ao vê-lo iniciar uma nova etapa no Monaco, fica um misto de orgulho pelo treinador brasileiro que conquista espaço na Europa e de saudade pelo profissional que talvez não tenhamos valorizado o suficiente. Espero que essa história sirva de reflexão. Porque, se não aprendermos a reconhecer nossos talentos antes que o mundo os reconheça por nós, continuaremos repetindo o mesmo erro — na Seleção, no Flamengo e no futebol brasileiro.
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