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·10 de setembro de 2026

Perdão, Claudio Carsughi, mas vamos gastar mais de um minuto para falar de você

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“Se você não consegue expressar aquilo que pensa em um minuto, pode ficar falando durante o dia inteiro que não vai conseguir”, dizia Claudio Carsughi, morto nesta quinta-feira, 10 de setembro, aos 93 anos, após lutar por quase um mês contra uma infecção respiratória.

Este texto, porém, se vê obrigado a afrontar a teoria carsughiana. Nosso argumento é simples: um minuto seria suficiente apenas para listar todos os veículos de comunicação pelos quais passou este mestre do jornalismo esportivo brasileiro, sem nem listar a função em cada um deles.


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Clamorosamente capaz de comentar um fato com poucas palavras, Carsughi nasceu em Arezzo, em 13 de outubro de 1932, de pai italiano e mãe brasileira. Como a família frequentemente tinha de pegar mais de duas horas de trem para ir e voltar a Florença, maior cidade da Toscana, acabou se mudando para lá. 

Ali, o Claudio pré-adolescente testemunhou a reta final da Segunda Guerra Mundial, as homenagens a Benito Mussolini e Adolf Hitler, a Libertação italiana. Aos 14 anos, veio para o Brasil com os pais e os avós. A ideia era passar apenas um ano, ajeitar os negócios da família. Morreu em solo brasileiro.

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Claudio Carsughi, criança, com os pais: o italiano Odoardo e a brasileira Marina (Arquivo pessoal)

O surgimento do Carsughi jornalista

Odoardo Carsughi, o pai, tinha amigos na direção do Corriere dello Sport, de Roma. Quando percebeu que a família não voltaria tão cedo para a Itália, usou os contatos para conseguir um “bico” para o filho: que tal se Claudio escrevesse reportagens para mostrar aos compatriotas um pouco do Brasil, que estava prestes a receber a quarta Copa do Mundo da história? Assim, ele não perderia o contato com a língua nativa. 

A redação aceitou a proposta. E, aos 18 anos, Claudio Carsughi cobriu o Mundial de 1950 como correspondente. Usava um telégrafo instalado por uma estatal italiana no Estádio do Pacaembu para enviar seus relatos, que misturavam opiniões e descrições de jogadas. Aparentemente, funcionou — ele escreveria para o Corriere dello Sport até 1964.

Para o público italiano, Carsughi também escrevia nos jornais Tuttosport e La Stampa, e colaborava para as revistas Calcio e Ciclismo Illustrato. Tratava sempre de futebol, automobilismo e ciclismo. Mas foi produzindo em língua portuguesa que ele se consagrou.

O título da Fiorentina e a Jovem Pan

O começo no jornalismo brasileiro foi, no mínimo, acidental. Os colegas da Rádio Panamericana de São Paulo que Carsughi tinha conhecido durante a Copa de 1950 deixavam que ele fosse à emissora para escutar os jogos de sua Fiorentina em ondas curtas. Nenhum aparelho de casa era suficientemente potente para conseguir captar o sinal italiano.

Foi assim que ele ouviu a Fiorentina ganhar o Campeonato Italiano pela primeira vez, em 1956, vibrando com Julinho Botelho na ponta-direita. Ele retribuía o favor deixando anotado os resultados da Serie A antes de sair do prédio. Aproximou-se dos radialistas e, em 1957, acabou contratado para participar do “Plantão da Meia-Noite”. Pouco depois, virou comentarista.

Quando Carsughi aceitou a proposta, a Panamericana (exatamente, a Jovem Pan de hoje) era a 14ª em audiência em São Paulo. Nos anos seguintes, acompanhado de Leônidas da Silva, Orlando Duarte, Mauro Pinheiro, Joseval Peixoto e Osmar Santos, chegou à liderança. Viajou como comentarista para todas as Copas do Mundo de 1970 a 1986. Só saiu da Pan demitido, em 2015, depois de 58 anos de trabalho. Dizia ter recebido várias propostas de outras rádios durante a carreira, mas sempre escolhia ficar por uma razão principal: morava a apenas duas quadras do trabalho.

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Claudio Carsughi de terno e gravata: elegância típica (Antônio Dantas)

No início na Pan, Carsughi — formado em engenharia na Universidade de São Paulo (USP) — até tentou conciliar as carreiras de jornalista e engenheiro, mas mudou de planos após um ano. Era mais divertido ser só jornalista, disse à tia que insistia que a escolha certa seria a outra.

Texto não tem sotaque

Se tivesse passado toda a carreira em uma só rádio, Carsughi dificilmente seria percebido como a unanimidade que se tornou. A carreira dele nunca foi de um só trabalho. O inconfundível sotaque toscano também teve passagens por ESPN, SporTV, Rádio Bandeirantes e EBC. Sempre falando de futebol, é claro, pois estamos no Brasil, mas com o automobilismo como protagonista sempre que possível.

O texto elegante de mestre Carsughi, por sua vez, não tinha sotaque. E fazia alguns brasileiros recorrerem ao dicionário para se familiarizar com o idioma do próprio país. O italiano foi responsável pela revista Quatro Rodas de 1974 a 1990. Também foi editor da Placar, do Jornal da Tarde, da Oficina Mecânica. Também manteve um site oficial no portal UOL, no qual falava de automobilismo, indústria automobilística, motociclismo, futebol, turismo, gastronomia. Em suma, de esporte e de Itália.

Um português tão correto não nasce em árvore, e Carsughi gostava de se orgulhar de seu segundo professor em São Paulo: um jovem Jânio Quadros, que menos de duas décadas depois tornar-se-ia presidente da República. 

Automobilismo antes do futebol

Claudio Carsughi foi um dos pioneiros do uso das estatísticas em transmissões de futebol. Para ele, os números funcionavam como contraposição ao “achismo” que imperava na crônica esportiva. 

Apesar dessa marca, o mestre sempre preferiu lidar com o automobilismo. “Sem dúvidas”, dizia. Em 1966, se recusou a cobrir um jogo da Inter pela Copa dos Campeões porque queria acompanhar desde o início os treinos para o GP de Monza.

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Claudio Carsughi, Aluani Neto e Emerson Fittipaldi em uma jornada de Fórmula 1 (Acervo Jovem Pan)

Futebol, para ele, era só trabalho. “Às vezes é muito chato, como essa Série B, com jogos infindáveis. Por conhecer e viver uma série de coisas por trás do cenário, com tantas maracutaias e coisas compradas, você se desanima”, chegou a dizer numa entrevista em 2014. Já a indústria automobilística era realmente uma paixão para além da profissão — provavelmente ele tenha sido o único ser humano a testar todos os carros produzidos no Brasil no século 20. 

O mestre Carsughi levou consigo apenas duas mágoas, pelo que disse em suas últimas entrevistas. Nunca se conformou de ter sido demitido pela Editora Abril por telegrama nem de não ter sido enviado pela Jovem Pan para cobrir a Copa de 1990, na Itália, após viajar para cinco Mundiais seguidos. Ele escolheu ir mesmo assim, pagando do próprio bolso.

Claudio Carsughi deixa dois filhos e duas netas. A esposa dele, Hilda, morreu em 2009.

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