Pezzolano passou um pouco dos limites neste jogo do Inter
O empate sem gols com o Atlético-MG no Beira-Rio teve gosto de derrota para o Internacional. O resultado é ruim, beirando o péssimo, principalmente quando se olha para a tabela e para aquilo que o Colorado havia construído nas partidas anteriores. O Inter continua fora da zona de rebaixamento, mas tem jogos a mais do que alguns dos principais concorrentes e apresenta aproveitamento de equipe que briga para cair. Com cerca de 34% dos pontos conquistados, a campanha é preocupante e explica perfeitamente as vaias que apareceram no estádio. Tudo aquilo que havia sido construído nos bons jogos contra Corinthians, Flamengo e Palmeiras começou a ser desperdiçado nos empates contra Remo e Atlético-MG.
Contra o Remo ainda existia uma explicação mais clara. O Inter jogou dentro da proposta de Paulo Pezzolano, criou oportunidades suficientes para vencer, Carbonero perdeu duas chances inacreditáveis e Mateus Cunha acabou falhando no gol sofrido no fim. Contra o Atlético-MG, porém, a atuação foi muito mais pobre. Era um adversário perfeitamente enfrentável, também pensando na Copa do Brasil e nos clássicos contra o Cruzeiro, mas o Inter simplesmente não conseguiu fazer o dever de casa. E isso começa a deixar uma pergunta inevitável: como pensar nos dois Grenais decisivos pela Copa do Brasil se o time está tão preocupado em sobreviver no Campeonato Brasileiro?
Pezzolano manteve inicialmente a estrutura que vinha utilizando, com cinco jogadores na última linha e variações no ataque envolvendo Alan Patrick, Carbonero e Bernabei. Com a bola, Alan Patrick recuava para tentar organizar, Carbonero se movimentava mais por dentro e Bernabei aparecia pelo lado. O problema é que o Inter resolveu ter mais a posse no primeiro tempo e mostrou novamente uma característica que já ficou bastante clara: esse time não sabe o que fazer quando precisa propor o jogo. Teve mais bola do que normalmente gosta, mas praticamente nenhuma criatividade. A melhor oportunidade da etapa foi do Atlético-MG, em uma jogada em que o atacante passou pela defesa, driblou Matheus Cunha e só não marcou porque Aguirre salvou praticamente em cima da linha.
No segundo tempo, Pezzolano percebeu que o plano não estava funcionando e fez alterações para tentar devolver o Inter ao modelo no qual se sente mais confortável. Vitinho, que havia começado novamente como lateral, passou a atuar mais avançado. Bernabei voltou para o lado esquerdo, e o Colorado entregou mais a posse ao Atlético para tentar atacar os espaços. Era uma mudança coerente com aquilo que vinha funcionando nas últimas semanas, mas nem assim o time produziu. Carbonero esteve mal, Bernabei também ficou abaixo, e Alan Patrick muitas vezes recebia a bola sem opções próximas, precisando esperar todo o time avançar para tentar construir alguma coisa.
Niclass Eliasson também fez sua estreia, entrando pelo lado direito, mas naturalmente ainda não conseguiu causar um grande impacto. Seria injusto exigir demais de um jogador recém-chegado, entrando em uma equipe que já não conseguia produzir. O problema maior apareceu depois, quando Pezzolano resolveu recorrer a uma solução que mostra de maneira bastante clara o tamanho da limitação do elenco: colocou Juninho como centroavante.
Sim, um zagueiro terminou o jogo como camisa 9 do Internacional. Alerrandro permaneceu no banco e Pezzolano utilizou Juninho na referência do ataque porque simplesmente não enxergava outra alternativa. Sanabria já foi contratado, mas ainda não estava disponível, e o treinador tentou utilizar aquilo que tinha. Só que, para mim, aí Pezzolano passou um pouco do limite. Dá para entender o desespero, dá para entender que o elenco oferece pouquíssimas opções e dá para reconhecer que Alerrandro não vive bom momento. Mas transformar Juninho, que já enfrenta dificuldades para se firmar como zagueiro, em centroavante em um jogo que precisava ser vencido é demais. Mesmo um Alerrandro abaixo tecnicamente ainda parece uma solução mais natural para aquela situação.
E isso não tira a parcela de responsabilidade do treinador. Pezzolano merece muito crédito pelo que conseguiu fazer nos jogos anteriores, principalmente ao encontrar uma maneira mais segura de o Inter competir contra equipes melhores. Justamente por isso também precisa ser cobrado quando o time não funciona. Ele não se omitiu, tentou modificar a formação, percebeu que a posse no primeiro tempo não estava funcionando e mudou a maneira de jogar. Mas o treinador também é o chefe da equipe e participa de um resultado tão ruim quanto esse. A opção por Juninho no ataque, especialmente, precisa entrar nessa conta.
Ao mesmo tempo, seria completamente injusto colocar todo o problema nas costas dele. O Inter segue tendo um elenco extremamente limitado. Os jogadores até mostram aplicação tática, sabem as funções e conseguem cumprir determinados comportamentos defensivos, mas falta muito quando a partida exige algo além disso. Falta capacidade individual, criação e, em alguns momentos, até um pouco mais de agressividade. Eu não gosto de resumir futebol em raça e vontade, porque quase nunca essa é a explicação principal, mas contra o Atlético também faltou um pouco daquela fome de um time que sabe que está brigando contra o rebaixamento.
A situação de Matheus Cunha também chama atenção. O goleiro fez algumas defesas, em determinados momentos de maneira bastante espalhafatosa, e acabou deixando o campo depois de bater o rosto na trave em uma intervenção. O Atlético teve situações para marcar, enquanto o Inter praticamente não conseguiu criar uma chance realmente clara para decidir a partida. Isso dentro de casa, diante de um adversário que estava longe de fazer uma atuação espetacular.
Por isso, o 0 a 0 não pode ser tratado como simplesmente mais um ponto. O Internacional está com campanha de time que luta diretamente contra a Série B e já desperdiçou duas partidas consecutivas no Beira-Rio que poderiam mudar completamente o ambiente. Contra o Remo deixou uma vitória escapar aos 48 minutos. Contra o Atlético sequer conseguiu construir futebol suficiente para merecer os três pontos.
Pezzolano tem responsabilidade, os jogadores têm ainda mais e a direção também precisa olhar para o elenco que colocou à disposição. Sanabria e Eliasson chegam justamente para tentar corrigir parte dessas limitações, mas não existe garantia de que dois reforços resolverão tudo. O Inter precisa encontrar rapidamente uma maneira de voltar a pontuar porque a Copa do Brasil está chegando, os Grenais estão logo ali e o Campeonato Brasileiro não permite que o clube simplesmente esqueça a tabela por algumas semanas.
O que era uma pequena recuperação já começou a desaparecer. O Inter voltou a olhar diretamente para a zona de rebaixamento e, do jeito que a campanha está, vai precisar sangrar até o fim para permanecer na Série A. O empate contra o Atlético-MG foi mais uma noite ruim no Beira-Rio e, principalmente, mais uma oportunidade desperdiçada por um time que já não tem muitas oportunidades para desperdiçar.