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·04 de agosto de 2026

Pochettino até 2030: a renovação que pode conectar o projeto dos Estados Unidos

Imagem do artigo:Pochettino até 2030: a renovação que pode conectar o projeto dos Estados Unidos

Novo contrato vai além do comando do USMNT e coloca o argentino dentro da integração entre categorias de base, formação de treinadores, ligas profissionais e seleção olímpica

Na matéria que publicamos sobre a renovação de Mauricio Pochettino, o foco ficou na notícia principal: o treinador seguirá no comando dos Estados Unidos até 2030.


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Mas o comunicado da U.S. Soccer trouxe um detalhe que merece uma discussão separada.

No primeiro contrato, Pochettino chegou com a prioridade de preparar o USMNT (seleção principal dos Estados Unidos) para a Copa do Mundo de 2026. Agora, ele e sua comissão também vão participar do desenvolvimento do caminho completo das seleções nacionais, do futebol de base, da formação de treinadores e da relação com as ligas profissionais.

A própria Federação confirmou que a influência da comissão chegará aos próximos Mundiais Sub-17 e Sub-20, além dos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 2028.

Isso muda o tamanho do trabalho.

Pochettino não renovou apenas para convocar e treinar a seleção principal pelos próximos quatro anos. Ele passa a fazer parte de um projeto muito maior, que começou antes de sua chegada e que agora terá um treinador de elite participando diretamente de sua evolução.

🇺🇸 Um projeto que precisou começar pela formação

O projeto dos Estados Unidos não começou com Pochettino e também não surgiu nos últimos anos.

O futebol norte-americano trabalha há décadas para criar uma estrutura capaz de formar jogadores de alto nível. O processo demorou, mas o desafio dos Estados Unidos sempre foi muito diferente daquele encontrado pelos principais países europeus.

Alemanha, Espanha e França reorganizaram seus projetos dentro de países em que o futebol já era o principal esporte. Os clubes já estavam espalhados pelas cidades, as famílias já conviviam com o jogo e grande parte dos melhores jovens atletas crescia querendo ser jogador.

Nos Estados Unidos, primeiro foi necessário construir esse ambiente.

O país precisou consolidar uma liga profissional, criar clubes, fortalecer academias, formar treinadores, organizar competições e mostrar às famílias que existia um caminho real até o profissional.

Tudo isso em um território enorme, com regiões completamente diferentes e onde futebol americano, basquete e beisebol já ocupavam um espaço muito maior.

Durante muito tempo, o futebol também carregou, em parte do imaginário esportivo norte-americano, uma ligação muito maior com o ambiente juvenil e feminino. Entre os meninos, o esporte ainda precisava disputar atenção, investimento e os principais talentos com modalidades já consolidadas dentro das escolas, universidades e famílias.

Giovanni Reyna cresceu em uma realidade diferente. Filho de Claudio e Danielle Reyna, dois ex-jogadores, ele sempre esteve dentro de uma família ligada ao futebol. Não foi necessário mostrar a ele que o esporte poderia virar profissão.

A maioria das crianças americanas não crescia nesse ambiente.

Por isso, o projeto demorou. Não bastava definir um esquema tático ou escrever como a seleção deveria jogar. Era necessário criar jogadores, encontrar talentos, aumentar o nível dos treinadores e construir um caminho que levasse uma criança até o futebol adulto.

A U.S. Soccer ainda reconhece que esse sistema não está pronto. O caminho segue caro, fragmentado e difícil de entender para muitas famílias. A estratégia atual da Federação busca justamente aumentar o acesso, reduzir barreiras e tornar as etapas de desenvolvimento mais claras.

O principal foco do projeto norte-americano foi a formação de atletas.

A criação de uma identidade de jogo nunca foi ignorada, mas ficou atrás de uma necessidade mais básica: os Estados Unidos precisavam começar a produzir jogadores em quantidade e qualidade dentro do próprio país.

🌱 Os primeiros resultados já aparecem

A geração que chegou à Copa de 2026 teve vários jogadores que completaram parte importante da formação de elite fora dos Estados Unidos.

Christian Pulisic e Giovanni Reyna passaram pelo Borussia Dortmund. Malik Tillman foi desenvolvido pelo Bayern de Munique. Yunus Musah passou pelas categorias de Arsenal e Valencia, enquanto Folarin Balogun foi formado pelo Arsenal.

Todos fizeram parte do caminho das seleções norte-americanas, mas o desenvolvimento diário aconteceu, em grande parte, dentro de clubes europeus.

A nova geração apresenta um cenário diferente.

Hoje, academias norte-americanas conseguem desenvolver jogadores que estreiam profissionalmente ainda muito jovens e despertam o interesse de grandes equipes da Europa. Cavan Sullivan, Julian Hall, Malik Jakupovic e Benjamin Flowers são alguns dos principais nomes de uma leva formada durante etapas importantes dentro do próprio país.

Cada clube tem sua metodologia. O Philadelphia Union não forma da mesma maneira que o New York Red Bulls. O FC Dallas possui outro trabalho. Essa diferença não impede que todos façam parte da evolução do futebol norte-americano.

O aparecimento de tantos jovens interessantes ao mesmo tempo não acontece do nada.

Os clubes investiram, os treinadores melhoraram, as competições cresceram e os jogadores ganharam um caminho muito mais curto até o futebol profissional.

A MLS NEXT Pro foi criada em 2022 justamente para completar a ligação entre as academias do MLS NEXT e os elencos principais da MLS. Mais de 200 jogadores que passaram pela competição já assinaram com equipes da primeira divisão.

Ela não funciona como uma Série B. Não existe acesso ou rebaixamento até a MLS.

Mas cumpre uma função importante de pós-formação.

Um jogador pode deixar o futebol de base, enfrentar adultos, receber minutos em uma competição profissional e continuar dentro da estrutura do próprio clube. É um caminho que lembra, em sua função, o espaço ocupado por equipes Sub-23 em divisões profissionais de outros países.

A construção de uma liga estável e de uma competição de desenvolvimento foi uma parte essencial do projeto. Sem partidas, clubes e minutos profissionais, a formação ficaria incompleta.

🛣️ Um país com vários caminhos

A MLS e a MLS NEXT Pro são partes centrais da evolução, mas a formação nos Estados Unidos não acontece apenas dentro dessas estruturas.

A USL também vem oferecendo minutos profissionais para jogadores muito jovens.

Pedro Guimarães, por exemplo, assinou com o Orange County SC aos 16 anos, atuou na USL Championship, passou pelas seleções norte-americanas de base e foi negociado com o Eintracht Frankfurt. O lateral chegou ao clube alemão ao completar 18 anos. 

O college soccer perdeu parte do espaço que ocupava anteriormente. Antes do fortalecimento das academias e da criação do MLS NEXT Pro, o futebol universitário e o SuperDraft eram caminhos muito mais comuns até a MLS.

Hoje, os principais talentos conseguem chegar ao profissional mais cedo.

Mesmo assim, as universidades continuam encontrando jogadores que amadurecem mais tarde ou ficaram fora das maiores academias.

Edouard Nys passou pelo futebol universitário antes de ser escolhido pelo FC Dallas no SuperDraft e assinar com o North Texas SC, onde é o grande destaque da MLS Next Pro e fez história ao ser o primeiro jogador de linha da competição a ser chamado ao MLS All-Star Week. Junior Diouf marcou 18 gols pelo Grand Canyon, foi finalista do MAC Hermann Trophy e deixou a NCAA para assinar com o SK Beveren, da Bélgica. 

Existem também caminhos independentes.

Yan Diomande, hoje muito perto de assinar com o Real Madrid, passou pela DME Academy, uma escola esportiva privada da Flórida que combina formação acadêmica com treinamento de alto rendimento. Depois, seguiu para a Espanha e chegou ao futebol europeu. Ele não representa os Estados Unidos, mas teve uma parte importante do desenvolvimento realizada dentro do ecossistema norte-americano.

MLS, MLS NEXT Pro, USL, universidades, academias independentes e clubes europeus formam um sistema muito maior do que a própria U.S. Soccer.

A antiga direção esportiva da Federação costumava resumir essa relação dizendo que aproximadamente 95% do desenvolvimento acontece nos clubes. A seleção acompanha, identifica, convoca e apresenta sua metodologia, mas o jogador passa quase todo o ano trabalhando em outro ambiente.

É por isso que a colaboração com as ligas profissionais citada no novo contrato de Pochettino importa tanto.

A U.S. Soccer não controla diretamente o trabalho diário do Philadelphia Union, do FC Dallas, de um clube da USL ou de uma universidade. Mas precisa acompanhar esses caminhos e fazer com que os melhores jogadores consigam chegar às seleções.

🧠 Pochettino pode iniciar outra etapa do projeto

A tentativa de construir uma identidade não começa agora.

Gregg Berhalter também chegou ao USMNT falando sobre cultura, estilo de jogo e a necessidade de criar uma equipe reconhecível. Quando foi reconduzido ao cargo, em 2023, a própria Federação voltou a citar a construção de uma identidade e de um modelo coletivo. 

A diferença está no tamanho do treinador colocado agora dentro do projeto.

Berhalter era um técnico identificado com o futebol norte-americano, conhecia a MLS e entendia o ambiente do país.

Pochettino é um treinador de elite.

Chegou em setembro de 2024 sem conhecer profundamente o futebol dos Estados Unidos e, em um período curto, conseguiu encontrar jogadores que ainda estavam fora do principal núcleo da seleção.

Max Arfsten, Alex Freeman, Matt Freese e Sebastian Berhalter receberam suas primeiras oportunidades com o argentino e chegaram à Copa do Mundo e ao futebol europeu (Freese está em negociações), Alguns deles já estavam se destacando na MLS, mas ainda precisavam de alguém que confiasse, convocasse e bancasse suas presenças dentro da seleção.

Pochettino fez isso tendo pouco tempo e com o foco principal em montar uma equipe para 2026.

Agora terá quatro anos.

Terá acesso maior às categorias inferiores, contato com seus treinadores e participação nas discussões sobre o caminho completo das seleções masculinas.

Seu principal papel nessa nova fase não precisa ser apenas descobrir jogadores. A estrutura já possui scouts, analistas e treinadores responsáveis pela identificação.

A maior contribuição pode estar na construção de uma identidade.

Os Estados Unidos passaram anos criando atletas, clubes, competições e caminhos profissionais. Pochettino entra no momento em que o projeto pode avançar para outra etapa: aproximar todo esse material humano de uma ideia de jogo reconhecível.

Isso não começa do zero.

A U.S. Soccer já apresenta princípios de sua filosofia aos jogadores desde as primeiras categorias. O programa Sub-14, por exemplo, serve como entrada para o caminho das seleções e coloca os jovens em contato com ideias que poderão aparecer novamente nos anos seguintes. 

A renovação cria a possibilidade de aproximar ainda mais esse trabalho da seleção principal.

Um jogador que hoje está no Sub-17 poderá passar pelo Sub-20, pela seleção olímpica e chegar ao USMNT antes de 2030. Ao subir, a expectativa é que já reconheça parte da linguagem, dos comportamentos e da intensidade exigida.

A Data Fifa é curta. Não existe tempo para começar todo o trabalho novamente a cada convocação.

O resultado ideal desse projeto será um jovem chegando ao profissional já adaptado ao ambiente da seleção.

🏅 Los Angeles 2028 será o primeiro grande teste

Os Jogos Olímpicos de 2028 podem ser a primeira grande oportunidade de observar essa integração dentro de campo.

Steve Cherundolo foi escolhido para comandar a seleção Sub-23 e terá como missão montar o grupo que disputará a competição em Los Angeles.

A U.S. Soccer confirmou que ele trabalhará próximo dos treinadores da seleção principal e das categorias de base. Também falou na construção de uma equipe com identidade clara. 

Cherundolo estará em uma posição central.

Poderá trabalhar com jogadores que já estão no USMNT, nomes do ciclo Sub-23, atletas do Sub-20 e talentos mais jovens que estejam preparados para atuar acima de suas categorias.

Na visão do Território MLS, Los Angeles 2028 deve representar o melhor do projeto norte-americano naquele momento.

Não apenas a melhor equipe Sub-23.

A melhor mistura possível entre jogadores de diferentes gerações, desde que todos estejam prontos para competir.

Um atleta de 17 ou 18 anos pode aparecer. Um nome ainda mais jovem também pode entrar no radar caso apresente nível suficiente. Os principais jogadores da categoria e os três veteranos completariam um elenco capaz de mostrar o trabalho desenvolvido em diferentes partes do sistema.

Seria o puro suco do projeto.

Também será interessante observar o estilo de jogo.

Cherundolo não precisa copiar exatamente o esquema de Pochettino. Mas, se a integração realmente avançar, alguns princípios podem aparecer nas duas equipes: intensidade, pressão, reação depois da perda, velocidade para atacar espaços e uma linguagem parecida entre os jogadores.

A própria Federação colocou os Mundiais Sub-17 e Sub-20 e os Jogos de 2028 dentro do novo espaço de influência da comissão de Pochettino.

As Olimpíadas serão disputadas em casa, no meio do ciclo para 2030 e reunindo jogadores que podem chegar ao USMNT nos anos seguintes.

Para os Estados Unidos, o torneio pode ser muito mais do que uma busca por medalha.

Pode ser o primeiro grande retrato do projeto inteiro.

🔍 Quatro anos para mostrar se existe algo concreto

A renovação de Pochettino não confirma que todas as categorias já trabalham dentro da mesma identidade.

Também não permite afirmar como o Sub-17, o Sub-20 ou a seleção olímpica vão jogar nos próximos anos.

Mas dá tempo para que o trabalho apareça.

Até a Copa de 2026, o contrato tinha um objetivo curto e direto. A missão principal era montar uma seleção competitiva para o Mundial e evitar que o país repetisse um desempenho como o da Copa América de 2024.

Agora existe continuidade.

Pochettino estará no cargo enquanto os jovens que hoje estão na base avançam pelas categorias. Alguns terão idade para disputar a Copa de 2030. Outros poderão chegar ao profissional durante o ciclo seguinte.

Os resultados dessa integração serão vistos na maneira como esses jogadores sobem.

Será possível observar se eles demoram menos para entender o USMNT, se chegam mais adaptados, se reconhecem os princípios utilizados e se as seleções inferiores apresentam comportamentos parecidos com os da equipe principal.

Não será possível acompanhar todo camp do Sub-14 ou cada treinamento realizado dentro do Centro Nacional.

A avaliação virá com o tempo.

Aparecerá na seleção olímpica, nos Mundiais de base, nas convocações do USMNT e no desenvolvimento dos jogadores.

A primeira grande fase do projeto norte-americano foi construir jogadores e caminhos para que eles chegassem ao alto nível.

Essa etapa ainda continua, mas já apresenta resultados.

A renovação de Pochettino pode marcar o início de outra fase.

A de transformar os atletas que os Estados Unidos começaram a produzir dentro do próprio país em seleções que reconheçam uma mesma identidade.

O primeiro contrato entregou a Pochettino a missão de preparar um time para uma Copa do Mundo.

O segundo dá a ele a oportunidade de ajudar a preparar todo o caminho até esse time.

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