Esporte News Mundo
·17 de agosto de 2026
Polícia investiga esquema milionário em tradicional clube paulista

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Segundo informações divulgadas pelo ge, o Clube Atlético Juventus, uma das instituições esportivas mais tradicionais de São Paulo, tornou-se alvo de uma investigação da Polícia Civil que reúne acusações de diferentes naturezas. As denúncias apresentadas às autoridades apontam para possíveis desvios de recursos, pagamentos considerados suspeitos, ameaças a integrantes do Conselho Deliberativo e até mesmo questões envolvendo relacionamentos pessoais entre pessoas ligadas à administração da agremiação.
O caso ganhou força justamente em um período de movimentação financeira importante para o Juventus. Depois de enfrentar anos de dificuldades econômicas, o clube passou a receber valores expressivos a partir de novos negócios. Entre eles está a negociação para a criação da Sociedade Anônima do Futebol (SAF), formalizada há cerca de dez meses, além de um contrato de longo prazo firmado com a escola bilíngue Maple Bear para utilização de uma área localizada na sede juventina.
A investigação busca esclarecer se parte dos recursos provenientes dessas operações teria sido destinada irregularmente a pessoas ligadas à administração do clube. Entre os principais citados estão o presidente do Juventus, Tadeu Deradeli, e o presidente do Conselho Deliberativo, Carlos Eduardo Gomes Pedroso.
Tadeu nega qualquer irregularidade. Já Carlos Eduardo, que também é escrivão da Polícia Civil, afirmou ao ge que a publicação deveria procurar a assessoria de imprensa do Juventus e optou por não conceder entrevista.
INVESTIGAÇÃO ENVOLVE DIRIGENTES E ADVOGADOS
Por exercer função na Polícia Civil, Carlos Eduardo tornou-se também alvo de apuração interna da própria corporação. O inquérito está sob responsabilidade da Corregedoria da Polícia, diante das acusações de que ele teria utilizado sua posição profissional para intimidar pessoas que se opunham à sua atuação dentro do Juventus.
Relatos apresentados no caso mencionam episódios em que o dirigente teria mostrado armas durante reuniões e adotado comportamento considerado ameaçador. Também há acusações de que integrantes contrários à sua gestão teriam sido suspensos ou afastados do Conselho Deliberativo de maneira irregular.
Além dos dois dirigentes, a investigação envolve os advogados Luma Zaffarani e Guilherme Rodrigues. Os dois mantiveram um relacionamento por aproximadamente dez anos e, até março desde ano, também atuavam profissionalmente em conjunto.
Após o fim da relação, Guilherme procurou as autoridades e apresentou documentos que, segundo ele, ajudam a explicar como funcionavam os supostos repasses relacionados a negócios do Juventus. O advogado entregou planilhas, comprovantes bancários e informações sobre movimentações financeiras.
Guilherme também admitiu que participava das negociações investigadas até o momento em que descobriu o suposto relacionamento extraconjugal entre Luma e Carlos Eduardo. A partir daí, passou a colaborar com a investigação e apresentou sua versão dos acontecimentos.
VALORES RELACIONADOS À VENDA DA SAF
Um dos principais negócios analisados pelas autoridades é a operação que resultou na criação da SAF do Juventus.
No acordo, o clube social teria direito a receber R$ 20 milhões. Paralelamente, segundo a denúncia, R$ 2 milhões seriam destinados ao pagamento de honorários pela estruturação da operação.
De acordo com o relato de Guilherme à Polícia, esse montante seria dividido em três partes. Uma parcela ficaria com Carlos Eduardo, que teria mencionado ainda a existência de uma quarta pessoa que receberia determinado percentual. Outra parte seria destinada ao presidente Tadeu Deradeli, enquanto o terceiro valor ficaria com os advogados envolvidos na negociação.
Os investigadores receberam documentos bancários e comprovantes de saques apresentados pelo advogado. Uma planilha também teria sido entregue às autoridades com a descrição dos valores e dos supostos destinatários.
Segundo Guilherme, o primeiro pagamento ocorreu em 1º de dezembro do ano passado e alcançou R$ 900 mil. Desse total, R$ 341,2 mil teriam sido entregues em dinheiro a Carlos Eduardo. Tadeu, por sua vez, teria recebido R$ 224 mil por meio de depósito bancário.
Um segundo pagamento, de R$ 350 mil, teria sido realizado em maio de 2026. Guilherme afirma que já não participou dessa divisão porque havia encerrado seu relacionamento com Luma.
Tadeu confirma que recebeu os R$ 224 mil mencionados no depoimento, mas apresenta outra explicação para a transferência. Segundo o dirigente, o valor teria sido um “reembolso de uma aplicação financeira”.
CONTRATO COM ESCOLA TAMBÉM ENTROU NA APURAÇÃO
Outro acordo comercial que passou a ser analisado pelas autoridades é o contrato firmado entre o Juventus e a Maple Bear. A parceria prevê a utilização de uma área da sede do clube por 20 anos, em um negócio que teria valor total de R$ 3 milhões.
Segundo Guilherme, a escola realizou em abril deste ano um pagamento antecipado de R$ 500 mil. Na versão apresentada por ele, R$ 25 mil teriam ficado com o próprio advogado, enquanto R$ 106 mil teriam sido destinados a Tadeu Deradeli.
O restante, equivalente a R$ 369 mil, teria sido dividido entre Luma e Carlos Eduardo, conforme o depoimento apresentado à Polícia.
Luma contesta as acusações. A advogada também nega que tenha mantido um relacionamento com Carlos Eduardo e afirma que não realizou qualquer repasse financeiro para dirigentes do clube ou do Conselho Deliberativo.
“O Guilherme é meu ex-marido, a gente teve um fim de relacionamento complicado, e ele fazia saques de valores altos, chegou a colocar no processo judicial isso, mas eu não tenho conhecimento de investigação da Polícia Civil. Ele chegou a disseminar notícias que fazia repasses, não eu, tenho certeza que não tem comprovante meu. Eu nunca fiz repasse aos presidentes do clube ou do Conselho Deliberativo.” SEPARAÇÃO TERMINOU EM DISPUTA JUDICIAL
A ruptura entre Guilherme e Luma também passou a fazer parte do contexto da investigação. O casal mantinha uma união estável havia cerca de dez anos e a crise na relação teria começado no início de 2026.
Segundo Guilherme, ele começou a suspeitar que estava sendo traído depois de receber informações de vizinhos. Eles teriam relatado que Luma retornava para casa em um veículo semelhante, tanto em modelo quanto em cor, utilizado por Carlos Eduardo.
As suspeitas teriam sido reforçadas por imagens de câmeras de segurança instaladas no clube e nas proximidades da residência do casal. Guilherme afirma que, depois de analisar os registros e conversar com pessoas próximas, concluiu que Luma mantinha um relacionamento com o dirigente.
Uma amiga dos dois também procurou as autoridades e apresentou uma declaração registrada em cartório. No documento, ela afirma ter ouvido da própria Luma que existia um relacionamento com Carlos Eduardo e que os dois estariam discutindo maneiras de retirar Guilherme das negociações realizadas no Juventus.
Ainda segundo o relato dessa testemunha, Carlos Eduardo teria prometido à advogada oportunidades comerciais consideradas vantajosas. A mulher também teria acreditado que o dirigente deixaria a esposa para assumir um relacionamento com ela.
O fim da união foi marcado por acusações mútuas. Luma chegou a conseguir uma medida protetiva cautelar contra Guilherme, alegando ter sido vítima de violência psicológica.
CONTRATO DO ESTACIONAMENTO TAMBÉM É INVESTIGADO
A apuração da Polícia Civil não está restrita aos negócios envolvendo a SAF e a Maple Bear. Outro episódio analisado é o contrato de concessão do estacionamento do Juventus, firmado em outubro do ano passado.
O conselheiro Eduardo Pinto Ferreira afirma que começou a sofrer pressões depois de questionar possíveis irregularidades no acordo. A administração do estacionamento passou a ser responsabilidade da Retaguarda Assessoria Empresarial e Comercial LTDA.
De acordo com a denúncia, a empresa somente acrescentou a atividade de estacionamento de veículos ao seu objeto social dois meses antes de fechar o contrato com o Juventus. Eduardo também sustenta que o negócio teria sido firmado sem licitação e sem uma aprovação prévia do Conselho Deliberativo.
Outro ponto levantado pelo conselheiro diz respeito à ligação da empresa com pessoas próximas à estrutura policial. A Retaguarda tem como única proprietária Lilia Aparecida Marinho Rangel, esposa de Leandro Rezende Rangel, apontado como superior hierárquico de Carlos Eduardo na Polícia Civil.
Eduardo passou a questionar internamente o acordo e afirma que houve redução significativa na receita do estacionamento após a terceirização. Segundo ele, quando o espaço era administrado pelo próprio Juventus, a arrecadação mensal variava entre R$ 70 mil e R$ 100 mil. Depois da mudança, o valor teria caído para aproximadamente R$ 40 mil.
PIX DE R$ 17 MIL AUMENTA QUESTIONAMENTOS
O conselheiro também relatou às autoridades uma transferência que considerou suspeita. No dia 31 de dezembro, ele recebeu um Pix de R$ 17 mil enviado pela Retaguarda.
Cinco minutos depois, segundo seu depoimento, Carlos Eduardo teria enviado uma mensagem dizendo: “Veja depois o documento para você”.
Ao ser questionado sobre o motivo do pagamento, Eduardo afirma que recebeu do dirigente a resposta: “falamos no pessoal”.
O conselheiro interpreta a transferência como uma possível tentativa de fazê-lo abandonar os questionamentos relacionados ao contrato. Lilia não respondeu aos questionamentos sobre o Pix.
Em manifestação por nota, a proprietária da empresa afirmou que “a terceirização do estacionamento foi feita dentro das regras e padrões de mercado, inclusive com retorno para o clube maior do que muitas operações, desonerando o clube de todos os custos da operação.”
CONSELHEIROS RELATAM AMBIENTE DE PRESSÃO
As denúncias também apontam para um ambiente de tensão dentro do Conselho Deliberativo do Juventus. Sócios e conselheiros ouvidos no contexto da apuração relatam que Carlos Eduardo teria adotado uma postura de confronto diante de integrantes que questionavam suas decisões.
Entre os relatos apresentados às autoridades estão acusações de que o dirigente costumava exibir armas durante reuniões, comportamento interpretado por opositores como forma de intimidação.
Guilherme Rodrigues também declarou à Polícia que teria sido ameaçado por Carlos Eduardo e que o dirigente teria afirmado que iria prejudicar sua carreira.
A situação dentro do Conselho teria se agravado desde o ano passado. Mais de 20 conselheiros foram suspensos ou excluídos do órgão durante o período, segundo os relatos que integram a investigação.
As acusações, contudo, ainda estão sendo apuradas pelas autoridades. A existência de um inquérito não significa que os envolvidos tenham sido considerados culpados, e eventuais responsabilidades dependerão da conclusão das investigações e das provas reunidas no processo.
POSICIONAMENTO OFICIAL DO JUVENTUS
Em manifestação sobre o caso, o Clube Atlético Juventus afirmou que não irá comentar o conteúdo de questões que estejam sendo tratadas sob sigilo pelas autoridades.
“O Clube Atlético Juventus informa que não comenta o mérito de questões que tramitam em sigilo perante as autoridades competentes.
O Juventus ressalta que questões de foro íntimo, estritamente pessoal de indivíduos que pertencem ao seu quadro associativo, trabalham, prestam ou prestaram serviços ao clube não se confundem com sua atuação, gestão e atividades institucionais. Portanto não podem nem devem ser utilizadas para atribuir à instituição qualquer responsabilidade ou posicionamento.
Com mais de um século de história e uma trajetória profundamente ligada ao esporte e à cidade de São Paulo, o Juventus preserva o compromisso de conduzir sua atuação institucional com responsabilidade, transparência e respeito à sua comunidade e tradição”.
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