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·27 de agosto de 2026
Ponte Preta: entre a crise interminável e a esperança de um recomeço

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A Ponte Preta parece não ter uma luz no fim do túnel. Na maior crise de sua história, apenas oito meses após conquistar sua primeira e única taça nacional em 126 anos, a Macaca parece não ter dinheiro para nada. Já são seis meses de salários atrasados, dívidas intermináveis e uma proposta paralisada de SAF. A crise no lado alvinegro de Campinas é maior do que parece.
Na manhã da última quarta-feira (26), o elenco campineiro suspendeu as atividades com apoio do Sindicato dos Atletas de São Paulo. No mesmo dia, mas na parte da noite, Márcio Zanardi, então comandante da equipe, pediu demissão do cargo sem conseguir tirar a equipe do lamaçal da Série B. Uma das mais tradicionais agremiações do futebol paulista parece estar mais perto de seu fim do que de sua reconstrução.
Para entender como a crise alvinegra começou, é necessário voltar alguns anos no passado. Mais precisamente em 2017, quando, no ano de maior investimento no futebol, com a maior folha salarial de sua história, o clube chegou à final estadual e foi vice-campeã, mas não evitou o rebaixamento para a Série B. As receitas, então, caíram, o atraso de salários passou a ser recorrente e o reinvestimento no clube não foi uma prioridade.
A situação explodiu no meio de 2025, durante a campanha do título da Série C. O clube acumulou graves pendências salariais, viu suas dívidas explodirem e os resultados esportivos serem ameaçados. O que deu forças à Macaca foi a união entre elenco e treinador, na época Marcelo Fernandes, que ajudou o clube a responder com o acesso e com o título. A promessa era de que, em caso de taça, as pendências seriam quitadas, mas isso foi mais uma das promessas vazias que os funcionários ouviram.
"Sem dúvidas é a maior crise da história da Ponte Preta. Os fatos estão aí: paralisação dos jogadores, meses de salários atrasados, gramado em péssimas condições e categorias de base sem diretores e sem atletas, que também deixaram o clube. E há um agravante: tudo isso acontece menos de um ano depois da conquista do título da Série C, um feito que os dirigentes não souberam aproveitar positivamente", disse Israel Moreira, jornalista e pesquisador da Ponte, em conversa com oGol.
O caos que já parecia enorme em 2025 conseguiu ficar ainda maior em 2026. Com apenas uma pequena parte dos pagamentos regularizados, a Macaca sofreu para inscrever atletas para o Paulistão, por conta de um transfer ban, viu seu elenco fazer uma paralisação de duas semanas durante a pré-temporada e teve saídas de jogadores importantes antes e até durante o estadual. O resultado foi cruel: rebaixamento antecipado com apenas um ponto ganho em 24 possíveis.
Ainda durante o estadual, os jogadores deixaram claro que a situação estava insustentável. No dia 14 de janeiro, após a derrota dentro de casa para o Velo Clube, Élvis, camisa 10, capitão e um dos mais longevos jogadores do clube, deu um forte desabafo contra a diretoria alvinegra, retratando a situação delicada que o clube vivia.
"É uma vergonha o que está acontecendo. Eu preciso falar. A gente está tentando, lutando, mas não estamos conseguindo. É um pecado querer cobrar de qualquer menino porque não é justo subir para o profissional desse jeito", disse.
Posteriormente, o jogador deixou o clube, após novo revés para o Capivariano, mas viu a diretoria voltar atrás e chegar a um acordo com o atleta, que posteriormente mal seria cumprido. Esse desabafo durante o estadual, porém, foi só o primeiro. Já durante a Série B, o meia voltou a reclamar publicamente da situação.
"Chega dessa palhaçada com a gente e com nossos familiares. Não consegue trazer recursos, saia do clube. Se quiser me mandar embora pode mandar. Eu estou dando o meu melhor. Tá faltando vim dar a cara pra gente, jogador. Ninguém vem falar com a gente", pontuou.
A queda de desempenho da equipe, somada ao quinto rebaixamento do clube no Campeonato Paulista, afastou a torcida do Moisés Lucarelli, diminuindo, também, outra fonte de receita: a bilheteria. Em 2024, quando foi rebaixada da Série B, a Macaca teve uma média de público de pouco mais de 5 mil torcedores, de acordo com o GE. Já em 2026, o Ranking da CBF coloca a Macaca com menos da metade durante a segunda divisão, na 14ª colocação entre os 20 clubes.
"O que mais me preocupa é ver o nome da instituição sendo estraçalhado dessa forma. O acúmulo de episódios negativos dentro e fora de campo chegou ao limite neste ano de 2026, principalmente com o afastamento do torcedor do Moisés Lucarelli. A Ponte Preta tem uma das histórias mais bonitas do futebol brasileiro. São 126 anos de luta, mas o novo capítulo que está sendo escrito por seus dirigentes é o mais triste dessa trajetória mais que centenária", seguiu dizendo Israel.
Após o rebaixamento no Paulistão, a Ponte juntou o pouco que tinha e virou os olhos para a Série B. Desde o começo, entre torcedores e jornalistas, a expectativa era de dificuldade para a Macaca no retorno à segunda divisão, mas não da forma que tem sido. A grande verdade é que, no coração dos ponte-pretanos, ainda há lembranças da equipe tradicional e vitoriosa, mas parecem ser apenas memórias.
"Alguns torcedores tinham a esperança de um 2026 melhor. Mas os diretores não resolveram nenhum dos problemas que tivemos ano passado. É muito frustrante ver a Ponte desse jeito. Eu achava que a Série B seria ruim, mas não dessa forma. Ver a Ponte entrando já derrotada em campo a cada rodada é triste. É uma campanha vergonhosa essa. A Ponte está brigando para não ser a pior campanha da história da Série B", falou Lucão da Ponte, torcedor e influenciador que acompanha o clube, a oGol.
Se dentro das quatro linhas a situação é catastrófica, com apenas dez pontos ganhos em 24 jogos na lanterna, fora consegue ser ainda pior. Mesmo depois de paralisações, ameaças de greve e do rebaixamento no Paulistão, a diretoria alvinegra não arcou com o compromisso de pagamentos que havia feito com o elenco.
Em determinado momento da Série B, a Macaca chegou a jogar sem seu uniforme principal, de cor predominantemente branca e faixa preta, por pura desorganização. No confronto contra o Criciúma em casa, pela 17ª rodada, o clube não tinha o enxoval principal de uniformes, já que um funcionário da equipe responsável pela distribuição aos jogadores revendia os uniformes por conta própria.
"A crise econômica está no seu auge. A Ponte não tem fisioterapeuta, não tem piscina de gelo, não tem maca, não tem GPS, está devendo até para padaria. A Ponte não tem coisas básicas do futebol. Funcionários entrando em greve, o gramado num estado ridículo. Eu acho que não tem como piorar. Financeiramente, a Ponte Preta chegou no fundo do poço. Só piora se começar a penhorar tudo. Aí é melhor fechar as portas", seguiu dizendo o torcedor.
E é assim que chegamos no dia 26 de agosto de 2026. Com seis meses de salários atrasados, os jogadores decidiram suspender as atividades de treinamento, ameaçando não irem a campo no próximo domingo, quando a Macaca enfrenta o América. Algumas horas depois, Márcio Zanardi pediu demissão do cargo após 12 jogos, sendo dez derrotas e dois empates, e o sucessor deve ser um velho conhecido: Gilson Kleina. E o estopim era questão de tempo: um ultimato já havia sido dado pelos atletas na última semana, acompanhado de um apelo pela SAF.
"Para o sindicato, o limite já havia chegado há muito tempo. Com essa diretoria é muito difícil que os atletas recebam. A esperança é a constituição de uma SAF com a busca de um investidor que assuma essa dívida. A confiança foi quebrada. Vivemos em um país que se normalizou a falta de pagamento de salários dos jogadores por todos. Os torcedores que hoje discutem e responsabilizam a diretoria pela péssima situação são os mesmos que pedem contratação sem se importar se o clube tem recursos", disse o presidente do Sindicato dos Atletas de São Paulo, Rinaldo José Martorelli, em contato com oGol.
Com a paralisação dos jogadores, a diretoria alvinegra estuda entrar com atletas das categorias de base no próximo duelo da Série B, caso o grupo mantenha a suspensão. Até o momento, a cúpula campineira não se colocou à disposição do elenco para acertar o pagamento dos valores atrasados e regularizar a situação de seus jogadores.
Para evitar uma nova queda à terceira divisão nacional, que seria a terceira na história, a Macaca terá realmente uma missão impossível. A equipe campineira tem 42 pontos em disputa nos próximos 14 duelos da Série B, e, para atingir a "pontuação mágica" de 45 pontos, precisaria de um aproveitamento de 83,33%, algo que nenhum outro clube já fez na história da competição. Segundo dados do Departamento de Matemática da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a chance de queda é de 99,98%.
O caos interminável da Macaca ganhou uma projeção de fim. Em julho deste ano, um grupo apresentou uma proposta para a aquisição da SAF do clube, prometendo uma verba de pouco mais de R$1 bilhão, citando investimento nas categorias de base, pagamento de dívidas e aporte no futebol profissional. Parecia uma luz no fim do túnel para evitar um fim fúnebre da associação.
Mas nem tudo são flores. A proposta gerou muitos questionamentos, com o nome do grupo sendo mantido em sigilo e sem uma garantia de sucesso. Quem acompanha de perto a Ponte entende que a SAF talvez não seja a solução definitiva dos problemas, mas que melhoraria e muito a situação que o clube se encontra.
"Não consigo dizer quando a crise vai chegar ao fim. A partir do momento que o Eberlin (atual vice-presidente de futebol) sair, sei que as coisas vão melhorar. A SAF mão é a solução do clube, mas as coisas vão melhorar, porque vai ter dinheiro pelo menos para pagar as dívidas, para regularizar tudo. Eu sou a favor nessa situação, mas em outras não seria", afirmou Murilo Godoy, setorista da Macaca pelo portal Tudo Sobre Paulistas, a oGol.
No dia 25 de julho de 2026, a Ponte Preta utilizou suas redes sociais para emitir um comunicado aos torcedores sobre o processo de transformação e compra da SAF. De acordo com o documento, a proposta "está bem encaminhada e com a fase de documentação bastante acelerada". Mas isso não parece verdade.
No último dia 24, o o Conselho Deliberativo da Ponte se reuniu em uma Assembleia Geral Extraordinária para votar sobre a constituição da SAF. A votação, porém, nem chegou a ser iniciada: em meio a um clima tenso, o presidente do conselho, José Armando Abdalla Júnior, decidiu adiar a votação após o recebimento de duas decisões liminares da Justiça.
Repleta de discussões, tumultos e troca acusações de ambos os lados, a reunião representou a bagunça que tem sido a Ponte nos últimos anos. Um grupo de oposição à atual diretoria protocolou as duas liminares de Justiça que impediram a votação, alegando que as motivações sequer estavam bem definidas e solicitando um tabelião que registrasse tudo em ata e que garantisse a regularidade dos membros.
"O clube não estava preparado para cumprir esses tipos de situações. Em conjunto com os advogados autores da ação e do presidente do Conselho Deliberativo, foi quase um consenso que, por prudência, e até para atender as obrigações de caráter logístico e operacional que a liminar determinou, seria melhor postergar a data para o clube se preparar para cumprir rigorosamente o estabelecido", afirmou o diretor jurídico da Ponte, José Henrique Specie, em entrevista coletiva.
Ainda não há uma definição sobre os próximos passos da Macaca na articulação do projeto da SAF. Será necessária uma nova convocação por meio de edital, algo que demorará, pelo menos, 15 dias entre o comunicado e a nova assembléia. Enquanto isso, os ponte-pretanos veem seu clube definhar dentro das quatro linhas, no ano mais catastrófico de sua história.
"O único caminho que tem é a SAF. O clube está desmoralizado dentro e fora dos gramados, com a credibilidade perdida. O clube não paga ninguém. A única saída seria a SAF, desde que, porém, seja bem feita, bem esclarecida, algo que dentro da Ponte dos últimos anos para cá, parece ser difícil. Hoje é um clube de esclarecimento e transparência zero", oGol ouviu de uma fonte que vive os bastidores do clube e que preferiu se manter anônima.
Apenas nove anos depois de um dos anos mais brilhantes da sua história e um ano depois de sua primeira taça nacional, a Ponte Preta, hoje, luta para sobreviver. Muito pelo acúmulo de decisões equivocádas e iresponsáveis. A saída está bem aqui, mas não parece clara para todos, enquanto os interesses próprios falam mais alto.







































