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·17 de outubro de 2025

Professor Zé Ventura

Imagem do artigo:Professor Zé Ventura

“A gente vai jogar no Pacaembu mesmo, professor?”

E a criançada se colocava na ponta da cadeira para ouvir mais uma história do mestre, que entre uma lição e outra, na escola Capitão Chamas, entretinha meninos famintos, cuja privação material não lhes havia roubado a alma.


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José veio de Nova Estrela e foi contratado para a Escola Rural de Miracielo, distrito de Yboty. Não demorou para conciliar um trabalho com outro: profissionalizou-se futebolista pelo time da cidade, o Vila Guebo FC.

Na escolinha, seu nome era de brio: José Ventura, que gerava bonito contraste com sua idade pouca. Contudo, era maduro o bastante para entender as últimas palavras do pai: “Confiar nos meninos, despertar suas almas, há mil e uma histórias numa unha de prosa”.

Por isso, não poupava esforços. Dava a gramática, mas punha-os a sonhar: “Esse ano ganharemos a taça. E eu prometo trazer a bola da final aqui para a escola”.

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E era a alegria daqueles filhos de roceiros, plantadores de café…

No campo, seu vulgo era Professor. Mas naquela campanha de 1959, ganhou outra alcunha: Zé Variado. Enfrentava problemas psicológicos, como todos nós, e daí o nome. As partidas e as aulas se acumulavam. A degradação psíquica se acentuava. Mas Vila Guebo ia ganhando e ele anotando os tentos.

Foi numa semifinal a viragem: V. Guebo 1, Veracruz 1.

O relógio marcava 44 do segundo tempo e Zé prestes a colocar em xeque sua sanidade.

Meia-lua.

Driblou um, dois, três e o goleiro.

O gol o esperava.

Não chutou.

Sonhou o que ninguém nunca fez: retrocedeu em seus dribles e voltou para a entrada da área.

“Zé, você tá ficando louco?”

Nisso, fez tudo de novo e, enfim, chutou: 2 a 1.

Gol de Professor. Vila Guebo na final.

O desespero dos companheiros apenas previu o destino: na semana seguinte, após crítico acesso de delírio, José Ventura seria internado no Hospital Psiquiátrico Raul Ouro, de onde não retornaria tão cedo.

Não jogou a final, não viu mais seus alunos, mas trouxe consigo a flâmula e a bola do jogo prometida a eles — junto de seu corpo, tudo embalado num caixão e guardado sob a bandeira de Vila Guebo.

Nada é gratuito, quanto mais a glória. Alça-te herói e se apaga na loucura.

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