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·21 de maio de 2026

Recordista do Paços lamenta situação do clube: «Quem geriu, geriu mal»

Imagem do artigo:Recordista do Paços lamenta situação do clube: «Quem geriu, geriu mal»

Há não muito tempo foi possível ver equipas como a Fiorentina, Tottenham ou AZ Alkmaar a jogar na Capital do Móvel, com as competições europeias como pano de fundo. A isto até se juntou uma final da Taça da Liga, uma final da Taça de Portugal e uma presença na Supertaça portuguesa. Foi tudo neste século. O futuro parecia promissor para o Paços. Até deixar de ser.

Em 2017/18, desceram à Segunda Liga, conseguindo subir logo na época seguinte, sob o comando do histórico Vítor Oliveira, o Rei das Subidas. Contudo, a estadia entre a elite lusitana durou apenas quatro anos e voltaram a descer em 2023. Tem sido sempre a descer desde então.


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A época passada terminaram em 16º lugar e só no playoff de manutenção se salvaram, ao bater o Belenenses. Em 2025/26 a sorte foi distinta e, na última jornada, mesmo vencendo o Penafiel (2-1), terminaram em 17º lugar. 52 anos depois, os castores estavam afastados dos campeonatos profissionais. Uma mancha na história do clube.

Por isso, procurámos falar com quem conhece o Paços como ninguém. A nossa imensa base de dados facilitou e ninguém melhor para o efeito que Adalberto Ribeiro, o recordista - com larga vantagem - de jogos pela equipa principal do Paços (399), que passou 30 anos ligado ao clube. Uma lenda viva dos castores.

«O Paços teve sempre grandes jogadores, grandes equipas. De repente, perdeu-se tudo»

«Vou ver os jogos sempre que posso. Vou quase todas as semanas. Gosto de lá ir. Só se não conseguir mesmo. Essa ligação vai continuar, independentemente do que aconteça daqui para a frente. Vou ser sempre pacense»

É assim que Adalberto, que não trabalha com o Paços desde 2012, começa por nos descrever a sua relação com o clube. É um relação de amor, daquelas que se viveu intensamente durante décadas na primeira pessoa e que se continuou a seguir de perto, mesmo quando chegou o momento de se afastarem.

Atualmente, o antigo defesa é motorista de autocarro, na Auto Viação Pacense, há já sete anos, mas nem sempre foi assim. Chegou a trabalhar dois anos no estrangeiro, mas, antes, teve uma vida ligada ao Paços.

Foi lá que fez praticamente toda a sua formação de jogador, estreou-se como profissional, subiu de divisão, desceu de divisão, foi capitão, campeão da Segunda Liga - três vezes -, bateu recordes e jogou na Primeira Liga. Fez amizades e memórias para uma vida e acabou por pendurar as chuteiras em 2005. Mas continuou ligado ao Paços, como observador e adjunto, por mais alguns anos.

«O meu pai nem queria que eu fosse para o Paços, porque é lordelense. Fui muito novo, porque o clube da minha zona ia deixar de ter formação nos escalões de iniciados, juvenis e juniores. Lembro-me bem de ir às captações e ter sido num campo nas redondezas, porque estavam a meter relvado no estádio principal», conta-nos.

Uma vida como castor.

«A minha estreia na equipa principal foi um dos momentos mais marcantes. Não joguei no primeiro ano de sénior, apesar de ter ido para o banco várias vezes, e no segundo estreei-me como titular no dérbi com o Freamunde (1-1), um dos melhores dérbis de Portugal. Uns anos depois tive a oportunidade de trabalhar com o enorme Vítor Oliveira, que mudou a minha vida e carreira. Foi um pau que o futebol me deu», acrescenta, já de lágrima nos olhos. O Rei das Subidas faleceu em 2020.

Por isso mesmo, sente esta descida como o adepto mais ferrenho.

«O Paços de Ferreira teve sempre grandes jogadores, grandes equipas, fez boas campanhas. E, de repente, perdeu-se tudo. É muito estranho. E ao mesmo tempo, não consigo dizer quem é o culpado. Alguma coisa se passou para chegar a este ponto. O Paços fez grandes obras. Tem um estádio muito bom, que dá para jogar competições europeias. Tinham que gerir melhor as coisas. Quem geriu, geriu mal. Se os jogadores eram fracos, era porque alguém os foi buscar. Quem vai buscar os jogadores é quem está a dirigir o clube, mais o treinador, claro. O falecido Vítor Oliveira não queria diretor desportivo e por algum motivo era. Assim ia buscar os jogadores que acreditava que iam jogar melhor da forma que ele queria. Tem de ser má gestão», aponta Adalberto.

«Ter dinheiro não chega para ter um clube nesse patamar. Penso que em Paços os trocadinhos foram sempre contadinhos. Hoje em dia o futebol não é pelos clubes, é uma indústria, com fábricas de produzir jogadores. Noutros tempos não era assim, as pessoas andavam de porta em porta a pedir trocos. Se calhar o Paços de Ferreira não tinha a capacidade para se manter ao nível de um Vitória SC. Se calhar sonhou-se alto demais», acrescenta.

Esta descida histórica acabou por coincidir com a chegada de Rui Miguel Abreu, um famoso adepto pacense, à presidência do clube, em março de 2025. Contudo, Adalberto afasta culpas do atual dirigente máximo do clube e aponta para algo mais prolongado no tempo.

«Conheço bem o presidente. É um pacense a sério. Dou-me com ele e costumamos estar juntos, mas não falamos do que aconteceu para chegar a este ponto. Acredito que fez tudo o que pôde pelo Paços. É um pacense ferrenho. Toda a gente sabe. Acredito que fez tudo o que estava ao seu alcance para ajudar o Paços, mas as coisas não correram bem. Nesta fase final, o Paços tinha um plantel melhor que o que iniciou, mais equilibrado. Depois é aquela bola ao poste, aquele erro... É muita pressão na cabeça dos jogadores. Eu também já desci de divisão, não foi só festas, e sei o que é. Não é fácil quando estamos lá em baixo e não conseguimos sair. O Paços fez 39 pontos e na época passada, com 35, safou-se. Já não se via um campeonato assim há muitos anos», afirma o antigo defesa central.

«Estes últimos anos afetaram um bocadinho a ligação do clube com os adeptos. Mas também é verdade que os adeptos apoiaram a equipa até ao fim. Viu-se no último jogo, onde ainda era possível, tinha de ganhar, mas não dependia só de si. Já não via há muito tempo o estádio quase cheio, com adeptos do Paços. O povo acreditou até ao fim que era possível a manutenção. Contudo, estas quedas afastam um pouco os adeptos. Pode ser que o povo comece a apoiar o Paços mais do que estava a apoiar caso consiga essa reviravolta. Mas peço mesmo aos adeptos que acreditem e continuem a apoiar, porque eu acredito que ainda vamos voltar à Primeira Liga», conclui.

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