Gazeta Esportiva.com
·10 de março de 2026
Reunião do Corinthians expõe crise entre Tuma e Stabile; entenda conflito

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·10 de março de 2026

A guerra está declarada. Na última segunda-feira, o presidente do Corinthians, Osmar Stabile, e o presidente do Conselho Deliberativo do clube, Romeu Tuma Júnior, ofuscaram a votação da reforma do estatuto do Timão com uma discussão que ferveu o Parque São Jorge.
O bate-boca ocorreu logo no início da reunião no auditório da sede social do Corinthians. Osmar Stabile fez graves acusações contra Romeu, que se defendeu e alegou ter provas que o presidente estaria mentindo. O entrevero foi o estopim para um grande tumulto entre conselheiros, com direito a troca de ofensas e até empurrões.

Conselheiros do Corinthians discutem no auditório do Parque São Jorge (Foto: André Costa/Gazeta Press)
Stabile acusa Tuma de tentar interferir na gestão executiva do clube. Segundo Osmar, a gota d’água foi nesta última sexta-feira, em uma conversa entre eles. O presidente alega ter sido ameaçado por Romeu.
De acordo com o dirigente, Romeu teria se dirigido a ele durante o jantar e dito: “Ou você faz o que eu quero, ou eu vou te f…”.
O motivo do conflito é a suposta contratação de Aldair Borges para integrar a equipe de seguranças do Parque São Jorge. O profissional foi citado em um inquérito da Polícia Civil como responsável por esconder as grades e liberar acesso de pessoas não autorizadas ao clube no dia 20 de janeiro de 2025. Na ocasião, houve uma grande confusão após uma reunião do Conselho que votaria o impeachment do então presidente Augusto Melo.
Em entrevista depois da reunião do CD na última segunda-feira, Osmar Stabile negou que o profissional tenha sido recontratado. Ele diz que Aldair foi até o Parque São Jorge para pedir emprego alegando estar passando por uma situação financeira complicada, mas não foi admitido.
“O pior de tudo aconteceu na sexta-feira. Eu estava comendo uma pizza e ele [Romeu Tuma] estava em uma outra mesa. De repente, ocorreu uma discussão entre ele e um associado. Ele passou pela minha mesa e falou para mim: ‘Ou você faz o que eu quero, ou eu vou te f…’. Eu pensei: ‘Será que ele falou isso mesmo?’. E aí, quem estava do meu lado disse: ‘Foi exatamente isso que ele falou’. Fiquei muito magoado com isso”, disse Stabile.
“Já no domingo à tarde, ele ligou para um jornalista dizendo para esse jornalista falar para mim que ele [Romeu] estava me acusando de contratar uma pessoa que escondeu as grades na época do outro presidente. Falei que não sabia de nada. Verifiquei e vi que aquela pessoa não tinha sido contratada. Apesar das interferências anteriores, de toda hora mandar documento, querer saber o que eu estou fazendo ou não estou fazendo, não aceitei em hipótese alguma. Essa situação me deixou muito constrangido. Disse para todos que, se alguém interferisse na gestão, eu ia dar nome e sobrenome. O nome é Romeu e o sobrenome é Tuma”, acrescentou.

(Foto: Evander Portilho/ Ag. Corinthians)
Segundo Osmar, este caso foi apenas o “ponto crucial” para o embate explodir. O presidente do Corinthians alegou que a sua relação com Romeu Tuma Júnior já vinha se deteriorando há algum tempo.
“Ele vinha tentando interferir várias vezes, mas o ponto crucial foi na sexta-feira, quando ele chegou e usou aqueles termos esdrúxulos. O Corinthians é uma instituição centenária, não podemos fazer isso. Tem que respeitar o presidente do Corinthians, não vou aceitar ninguém falar dessa forma. Podia ter pedido desculpas lá no Conselho, não tem problema nenhum. A mágoa de alguma coisa que vem do passado não é minha. No domingo, eu estava chateado com o negócio e de repente vem o jornalista dizendo que ele [Romeu] vazou essa informação. Aí é difícil, né? Mas, infelizmente, esse é o presidente do Conselho que nós temos”, comentou.
Do outro lado da história, Romeu Tuma Júnior pede que Osmar Stabile apresente provas. O presidente do Conselho Deliberativo do Corinthians assegura ter evidências de que Aldair foi recontratado pela diretoria executiva e irá levar o caso às instâncias policiais.
“O presidente fez acusações graves, eu espero que ele represente tudo isso na Comissão de Ética para que eu possa responder e provar que ele mentiu. Na sexta-feira, quando sofri aquela ameaça interna, eu registrei um B.O. e pedi inquérito, tudo isso vai ser apurado no âmbito policial. Ele vai precisar provar o que ele falou”, disse Tuma.
De acordo com sua versão dos fatos, Romeu questionou Stabile sobre a suposta contratação do segurança e afirmou que, caso o presidente não tomasse providências, iria expor a situação à imprensa.
“Tudo isso será apurado pela Polícia. Vou provar porque tenho provas. Ele falou que eu vazei para um repórter, não vazei nada. A gestão tinha contratado um segurança que foi mandado embora porque foi a pessoa que escondeu as grades na votação do impeachment em janeiro de 2025, inclusive alguns repórteres foram atacados. Esse antigo funcionário subiu no quinto andar no dia da invasão. A gestão recontratou esse cara na quinta-feira, e eu falei: ‘Presidente, como você contrata um cara que está respondendo um inquérito policial por facilitar a entrada de não sócios que agrediram conselheiros, que participou da invasão à sua sala? Se você não tomar providências você vai sofrer, porque eu vou dar entrevista falando disso’. Ainda falei que não era ameaça”, afirmou o presidente do CD.
“O presidente disse que era mentira minha, que eu coagi ele, que o cara não foi contratado, mas eu vou provar que foi. A pessoa estava aqui trabalhando na sexta-feira”, completou.

(Foto: André Costa/Gazeta Press)
Romeu Tuma Júnior entende que toda essa situação foi armada para impedir a votação da reforma do estatuto do Corinthians. Ele lamentou a atitude de Stabile de expor o caso perante o Conselho e vê o episódio como mais uma “mancha institucional” do clube.
“Lamento profundamente a atitude do presidente do clube. Se fosse verdade as coisas que ele falou, ele teria vários mecanismos para tomar uma atitude dentro do rito estatutário, por meio dos órgãos competentes. Ele poderia ter mandado isso para a Comissão de Ética antes da reunião, não precisava esperar a reunião para favorecer a narrativa de alguns conselheiros que queriam atrapalhar a reunião e não votar a reforma estatutária. Por conta de algumas pessoas que não querem colocar o Corinthians no lugar que ele merece, vamos levar tudo isso para a Assembleia Geral, para o associado votar pela reforma estatutária”, declarou.
“Isso só serviu para manchar a imagem institucional do Corinthians, o que eu lamento, principalmente quando isso parte do maior mandatário do clube, que é o presidente. A Comissão inteira se dedicou para criarmos esse estatuto que para mim é o melhor da história do Corinthians, até porque foi construído de uma forma muito democrática. Eu estava falando sobre isso naquele momento, achei até estranho que as pessoas não quiseram se manifestar, então a gente percebe que foi uma coisa armada para macular a imagem do clube”, acrescentou.
Tuma também lamentou os infinitos obstáculos para conseguir reformar o estatuto do Timão. Segundo ele, muitos conselheiros do clube “não querem mudanças”.
“Tem pessoas que não querem mudanças. A gente está há anos tentando fazer mudanças e, quando chega na hora, alguém fala que não tem que mudar nada. Quando disse que ia ser votação aberta e mantive isso, mesmo sofrendo pressão, a Lei Geral do Esporte prevê isso. É uma forma da gente prestar contas para quem está fora do Parque São Jorge. Eu sabia que alguma coisa aconteceria, só não imaginava que viria do presidente. Muitos não querem que o voto seja aberto, que filho de conselheiro não possa ser contratado, que tenha uma governança séria. Ninguém quer ser fiscalizado, é isso que está emperrando a votação”, opinou.
Osmar Stabile, por sua vez, nega qualquer interferência na reforma estatutária do Corinthians. Ele se diz a favor do projeto e apoia um dos principais tópicos do texto: o direito de voto ao Fiel Torcedor.
“Cabe ao presidente do Corinthians não interferir nessa questão. O presidente do Corinthians tem que cumprir o estatuto, independente se houver mudança ou não. Não cabe ao presidente se envolver na questão de mudança do estatuto”, afirmou.
“Eu votaria nos pontos que o Cori colocou. Vi a análise e gostei do que o Cori colocou, para votar naqueles pontos sensíveis. Sou a favor, sempre falei. O Fiel Torcedor já passou da hora de votar nas eleições do Corinthians”, disse.
O presidente também explicou por que não entrou com uma representação contra Romeu Tuma Júnior nos órgãos internos do clube, como a Comissão de Ética.
“Eu estava ali com todos os órgãos do Corinthians, o Cori (Conselho de Orientação), a Comissão de Ética. Era uma forma de colocar para todos. Já ficou representado, está tudo gravado. Precisa mais do que isso? Se for preciso que eu preencha um documento, preencho também, com testemunhas que estavam lá”, justificou.

(Foto: André Costa/Gazeta Press)
Diante do caos que se instaurou na reunião do Conselho após a discussão entre Romeu e Stabile, Tuma encerrou o encontro e informou que a votação será levada diretamente para a Assembleia Geral dos sócios, em data ainda a ser definida.
Para isso, o presidente do CD se apega no artigo 45, inciso II, letra A do estatuto do clube, que prevê a possibilidade da reforma estatutária passar somente pela Assembleia Geral, desde que a necessidade da mesma seja reconhecida pelo Conselho. Veja o que diz o artigo:
“A Assembleia Geral reunir-se á:
II – Extraordinariamente, a qualquer tempo, para:
A – aprovar a alteração deste Estatuto, nos termos do Código Civil, quando expressamente convocada para esse fim, reconhecida, preliminarmente, pelo CD, a necessidade da alteração.”
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Após a reunião, Romeu Tuma Júnior explicou a decisão.
“A reunião foi encerrada porque ficou muito claro que o Conselho não queria votar. Se o Conselho não quer votar, então que a Assembleia Geral decida, como prevê nosso estatuto. Houve as reuniões, audiências públicas, a gente sabia que teria algum tipo de imbróglio para não votar. Pelo estatuto, o Conselho só precisa admitir a necessidade da reforma, não precisa votar a reforma. Quem delibera a reforma é a Assembleia Geral. Quando a gente percebe que a vontade do Conselho é de não deliberar, então vamos mandar direto para a Assembleia Geral”, pontuou.
“O Conselho está perdendo uma oportunidade de mostrar para o torcedor que quer melhorar o estatuto. Quando o Conselho mostra que não quer saber disso, então manda para a Assembleia Geral. Vão ficar fazendo bate-boca, apontando dedo, coagindo um ao outro, então por que vou deixar esse circo maculando a imagem do Corinthians? Foi encerrada a reunião e quem vai deliberar é a Assembleia Geral, que tem legitimidade para isso. Ponto final”, concluiu.
O tema já se arrasta desde o ano passado no Parque São Jorge. O novo estatuto deveria ser votado em dezembro de 2025, porém conselheiros decidiram adiar o processo para discutir melhor alguns dos termos do anteprojeto. A princípio, o desejo de Tuma era concluir o rito até o fim do último ano.
O novo estatuto, apresentado em outubro do ano passado, aborda tópicos relevantes como o direito de voto ao Fiel Torcedor e a transformação do Corinthians em SAF (Sociedade Anônima do Futebol).
Foram realizadas dez audiências públicas para debater os principais itens do texto. Os encontros, vale dizer, tiveram baixo quórum. Desde 2024, a Comissão da Reforma do Estatuto trabalha no projeto, que foi desenvolvido a partir de discussões internas e conversas com movimentos organizados externos, como a Gaviões da Fiel.
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